A China está comprando mais ouro justamente quando o metal ficou mais caro. Em agosto, o Banco Popular da China (PBOC), o banco central do país, acrescentou 650 mil onças às suas reservas, cerca de 20,2 toneladas, no maior aumento mensal desde outubro de 2023. Foi o 22º mês consecutivo de compras do banco central, que elevou seu estoque para 76,73 milhões de onças, ou aproximadamente 2.387 toneladas.
O momento da compra importa. O ouro subiu cerca de 9,7% em agosto, depois de um primeiro semestre mais fraco. Em vez de esperar preços menores, Pequim acelerou a acumulação. O comportamento reforça a leitura de que o objetivo não é apenas capturar uma valorização do metal, mas alterar gradualmente a composição das reservas chinesas.
A estratégia ganhou relevância com a deterioração da relação econômica entre China e Estados Unidos. A guerra tarifária iniciada pelo governo Donald Trump em 2025 transformou comércio, moedas, cadeias de suprimentos e ativos financeiros em instrumentos da disputa entre as duas maiores economias do mundo. Em abril daquele ano, Washington elevou tarifas sobre produtos chineses, enquanto Pequim respondeu com tarifas de até 125% sobre mercadorias americanas. O choque provocou queda do dólar e forte procura por ouro.
A trégua comercial posterior reduziu parte da tensão, mas não eliminou o problema estrutural. O acordo de novembro de 2025 manteve tarifas americanas sobre produtos chineses e prorrogou a suspensão de tarifas adicionais até novembro de 2026. A disputa passou a ser menos uma questão de tarifas específicas e mais uma competição pela posição econômica e tecnológica de cada país.
Para Pequim, isso cria um dilema. A China possui as maiores reservas internacionais do mundo, que chegaram a US$ 3,438 trilhões em agosto. A maior parte desse patrimônio permanece aplicada em ativos denominados em moedas estrangeiras. O dólar continua sendo indispensável para o comércio internacional e para os mercados financeiros, mas justamente por isso oferece aos Estados Unidos uma influência que vai além da moeda. O sistema financeiro baseado no dólar permite a Washington exercer pressão por meio de sanções, acesso a sistemas de pagamento e restrições financeiras.
O ouro oferece uma característica diferente. Ele não depende da solvência de um governo estrangeiro, não pode ser criado por uma autoridade monetária e não está sujeito ao risco de uma sanção sobre um emissor. Para um país que administra uma das maiores reservas cambiais do mundo e mantém uma relação estratégica cada vez mais competitiva com Washington, isso tem valor.
Não significa, porém, que a China esteja abandonando o dólar. Esse é um ponto importante. Estudos recentes do Federal Reserve mostram que o aumento das reservas de ouro pelos bancos centrais não implica necessariamente uma substituição direta de dólares. Em muitos casos, o movimento é melhor descrito como diversificação. O ouro ganha espaço enquanto o dólar continua sendo uma peça central das reservas internacionais.
A própria China fornece uma evidência disso. Mesmo enquanto aumenta sua posição em ouro, suas reservas cambiais continuam enormes e cresceram em agosto. O país não está trocando dólares por barras de ouro em uma operação simples de soma zero. Está aumentando o número de ativos disponíveis para administrar um patrimônio que precisa continuar líquido e protegido contra diferentes tipos de risco.
A diferença é que o cálculo mudou. Durante décadas, possuir ativos em dólar significava, ao mesmo tempo, segurança, liquidez e acesso ao principal mercado financeiro do mundo. A ascensão das tensões geopolíticas introduziu uma quarta variável: a possibilidade de que a mesma infraestrutura financeira utilizada para proteger reservas também possa ser utilizada como instrumento de pressão política.
O congelamento das reservas internacionais da Rússia após a invasão da Ucrânia em 2022 tornou esse risco mais concreto para outros governos. Desde então, bancos centrais de países emergentes passaram a aumentar a participação do ouro em suas reservas. O World Gold Council aponta que a combinação de incerteza geopolítica, dólar mais fraco e demanda oficial ajudou a sustentar a valorização do metal.
A China está no centro desse movimento. Sua acumulação é particularmente relevante porque o país possui escala suficiente para influenciar o mercado. As compras oficiais não determinam sozinhas o preço do ouro, mas criam uma fonte persistente de demanda que não depende de fundos de investimento ou de consumidores.
E Pequim não parece estar com pressa. A sequência de compras começou no fim de 2024 e chegou a 22 meses em agosto. O ritmo também acelerou: foram 480 mil onças em junho, 640 mil em julho e 650 mil em agosto. O aumento de agosto foi o maior desde outubro de 2023.
O contraste com o preço é revelador. Uma autoridade monetária preocupada apenas em comprar barato teria incentivo para reduzir o ritmo depois de uma alta de quase 10% em um único mês. O PBOC fez o contrário.
Há ainda uma dimensão monetária. O governo chinês vem tentando ampliar o uso internacional do yuan, especialmente no comércio com parceiros que desejam reduzir a exposição ao dólar. A expansão dos pagamentos em yuan, a construção de infraestrutura financeira própria e o uso crescente da moeda chinesa no comércio bilateral fazem parte de uma estratégia mais ampla.
Mas substituir o dólar é muito mais difícil do que reduzir sua participação. O yuan ainda não possui a profundidade, a abertura financeira e a convertibilidade necessárias para assumir o papel do dólar em escala global. O próprio JPMorgan observa que, apesar dos avanços na internacionalização do yuan e das iniciativas dos países do Brics, ainda não existe uma alternativa escalável ao dólar no sistema financeiro internacional.
O ouro resolve apenas parte desse problema. Ele é uma reserva de valor, não uma moeda de liquidação eficiente para o comércio cotidiano. Não substitui o mercado de Treasuries, nem oferece a mesma liquidez para transações internacionais.
Mas essa pode não ser a intenção. A estratégia chinesa parece menos voltada à criação de um novo sistema monetário imediato e mais à redução da dependência de um único sistema. Ouro, yuan, outras moedas e infraestrutura financeira própria podem funcionar como camadas diferentes de proteção.
O tarifaço de Trump acrescentou uma razão para acelerar esse processo. Quando tarifas passam a ser utilizadas como instrumento de política externa, a fronteira entre comércio e finanças fica menos nítida. O mesmo vale para sanções e controles sobre tecnologia e fluxos de capital. Para Pequim, diversificar reservas é também uma forma de reduzir a exposição a decisões tomadas em Washington.
O movimento tampouco é exclusivamente chinês. Outros bancos centrais vêm aumentando a exposição ao ouro, enquanto alguns países europeus começaram a rever onde mantêm fisicamente suas reservas. O banco central holandês, por exemplo, transferiu mais de 78 toneladas de ouro de Nova York para Londres, citando o aumento da instabilidade geopolítica e a necessidade de maior capacidade de acesso ao metal em uma crise.
Há, portanto, uma mudança mais profunda ocorrendo nas reservas oficiais. O ouro está recuperando uma função que perdeu durante a era de globalização financeira: a de ativo que não depende da promessa de outro Estado.
Isso não significa o fim do dólar. Significa que seu domínio deixou de ser considerado uma questão puramente econômica. Para a China, a equação é particularmente clara. O país continuará precisando do dólar enquanto continuar sendo uma potência comercial e financeira integrada ao sistema global. Mas quanto maior a rivalidade com os Estados Unidos, maior o custo estratégico de depender exclusivamente de ativos e instituições ligados à potência concorrente.
As barras de ouro são uma resposta silenciosa a esse problema. E, ao contrário de uma tarifa ou de uma declaração política, uma barra acumulada nas reservas chinesas não precisa ser desfeita quando a negociação comercial termina.