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A Tendência Que Está Levando Ações para Dentro das Corretoras de Cripto

Coinbase passa a oferecer ações dos EUA no Reino Unido e acompanha movimento de plataformas que reúnem investimentos tradicionais e ativos digitais no mesmo aplicativo

16 min

A Coinbase (COIN), corretora americana especializada na negociação e custódia de criptoativos, começou nesta quinta-feira, 6, a liberar a usuários elegíveis no Reino Unido o acesso a quase 4.000 ações dos Estados Unidos. Os papéis aparecem no mesmo aplicativo usado pelos clientes para comprar, vender e guardar criptomoedas.

O lançamento insere a Coinbase em um movimento que já envolve Robinhood, Kraken e Webull na oferta de ativos tradicionais e digitais em uma única plataforma. As empresas, no entanto, adotam estruturas diferentes. Algumas oferecem ações convencionais ao lado das criptomoedas. Outras vendem tokens cujo valor acompanha ações ou ETFs.

“A aproximação entre corretoras de cripto e o mercado de ações é uma tendência estrutural, e não apenas uma oportunidade comercial de curto prazo”, afirma Matheus Gutierrez, analista de criptoativos da Levante Investimentos, casa de análise financeira.

Segundo ele, o movimento reúne dois mercados que, até recentemente, funcionavam em ambientes separados. De um lado está o mercado financeiro tradicional, formado por ações, títulos, fundos e derivativos. De outro estão as criptomoedas e os ativos registrados em redes blockchain.

“Na prática, estamos vendo uma convergência entre o mercado financeiro tradicional, o TradFi, e o mercado de ativos digitais”, diz Gutierrez.

Por que as corretoras de cripto estão oferecendo ações

A Coinbase foi criada em 2012 como uma plataforma para negociação de criptomoedas. A companhia abriu o capital na Nasdaq em 2021 e passou a ampliar sua oferta com stablecoins, derivativos, crédito, mercados de previsão e, mais recentemente, ações.

Para Tainah Corrêa, sócia e Head de Direito Digital e Global Desk do André Menescal Advogados, a entrada no mercado acionário aproveita a infraestrutura e a base de clientes que essas empresas já possuem.

“A explicação é de negócio: essas plataformas já têm o cliente e a infraestrutura, e ações eram o produto que faltava para esse cliente concentrar tudo num aplicativo só”, afirma.

A ampliação também permite que as plataformas criem fontes adicionais de faturamento. As corretoras de cripto obtêm parte das receitas com tarifas, spreads e serviços relacionados à negociação e à custódia de ativos digitais. Esses ganhos podem oscilar conforme os preços das criptomoedas e o volume negociado.

“Receita de cripto oscila com o ciclo do mercado; ações e derivativos estabilizam o faturamento e transformam o app numa corretora completa”, diz Tainah.

A Coinbase chama essa estratégia de Everything Exchange. A empresa pretende concentrar diferentes classes de ativos e serviços financeiros em uma única plataforma. Ao divulgar os resultados de 2025, afirmou que a inclusão de ações, derivativos e outros produtos torna sua receita menos dependente das oscilações do mercado de cripto.

Gutierrez também aponta a conveniência para o usuário. “O cliente prefere investir em ações, renda fixa, ETFs, fundos e criptomoedas no mesmo aplicativo, sem precisar manter patrimônio pulverizado em diferentes instituições.”

Como funciona a oferta da Coinbase

O acesso às ações americanas começou a ser liberado gradualmente no Reino Unido em 6 de agosto.

Segundo a Coinbase, as operações não terão cobrança de comissão pela plataforma e poderão ser feitas em frações a partir de 1 libra. A negociação estará disponível 24 horas por dia, cinco dias por semana, para os papéis elegíveis.

A compra fracionada, no entanto, será permitida apenas durante o horário regular do mercado americano. A Coinbase também informa que outras tarifas poderão ser aplicadas.

O cliente poderá usar libra ou USDC para financiar as operações. A USDC é uma stablecoin, tipo de criptoativo criado para acompanhar o valor de uma moeda tradicional. Cada unidade busca manter valor equivalente a US$ 1.

O uso do saldo em USDC como fonte dos recursos não transforma a ação em um criptoativo. O cliente compra um papel convencional por meio de uma estrutura de corretagem.

As ordens são encaminhadas à Coinbase Capital Markets, corretora registrada na Financial Industry Regulatory Authority, a Finra, nos Estados Unidos. A execução, a compensação e a custódia ficam a cargo da Apex Clearing, conforme as informações divulgadas pela Coinbase.

Em julho, a companhia anunciou ter recebido autorização da Financial Conduct Authority, a FCA, para prestar serviços de investimento no Reino Unido. A Coinbase afirma ser o primeiro aplicativo originalmente voltado a criptoativos a oferecer ações americanas no país.

Ação convencional não é igual a token de ação

Uma ação representa uma parcela do capital de uma empresa. Quando compra um papel convencional por meio de uma corretora, o investidor passa a ter os direitos econômicos correspondentes, como o recebimento de dividendos. Os direitos de voto e a forma de exercê-los dependem da classe da ação e da estrutura usada pela corretora, especialmente nas compras fracionárias.

Um token referenciado em ação é um instrumento digital registrado em blockchain cujo valor está ligado a determinado papel. A estrutura e os direitos variam conforme o produto.

Alguns tokens são lastreados na proporção de um para um. Isso significa que, para cada token emitido, existe uma ação correspondente mantida em custódia. Ainda assim, o papel pode pertencer juridicamente ao emissor ou ao veículo responsável pelo token, e não ao comprador.

Outros produtos são contratos derivativos. Eles reproduzem a variação do preço de uma ação sem transferir ao investidor a propriedade do papel.

“Há dois movimentos distintos nessa aproximação”, afirma Amanda Prado, diretora da CorpX, empresa que fornece contas de pagamento e infraestrutura de liquidação financeira. “De um lado, plataformas como Coinbase e Webull colocam ações convencionais e criptoativos na mesma experiência digital. De outro, empresas como Robinhood e Kraken oferecem produtos tokenizados ligados a ações e ETFs. Não são estruturas equivalentes.”

Além do risco de queda do ativo usado como referência, o comprador de um token pode ficar exposto à capacidade do emissor e da plataforma de cumprir as obrigações previstas no produto.

“No fim, a corrida é por ser o aplicativo único do dinheiro do cliente. Ao investidor cabe saber se está levando a ação ou uma promessa da plataforma”, afirma Tainah.

Como a Robinhood faz

A corretora digital americana Robinhood (HOOD) oferece ações, opções, ETFs, criptoativos e outros produtos financeiros. Na Europa, passou a oferecer tokens ligados a ações e produtos negociados em bolsa em junho de 2025.

O catálogo começou com mais de 200 ativos e atualmente supera 2.000. Os produtos podem ser negociados 24 horas por dia, cinco dias por semana.

Os chamados Stock Tokens são contratos derivativos entre o cliente e a Robinhood. O preço acompanha o papel usado como referência, mas o comprador não recebe a propriedade da ação nem direitos de voto.

A Robinhood afirma que os produtos refletem os dividendos pagos pelos papéis. A empresa também informa que o investidor está sujeito ao risco de mercado e ao risco de insolvência da própria plataforma. As condições constam na documentação da Robinhood.

Como funcionam os xStocks da Kraken

A corretora de criptoativos Kraken, fundada em 2011, oferece negociação e custódia de moedas digitais e passou a distribuir tokens ligados a ações e ETFs fora dos Estados Unidos.

Os produtos, chamados xStocks, são emitidos pela Backed Assets, empresa especializada em ativos tokenizados. Cada token é lastreado na proporção de um para um em um papel mantido em custódia.

Os xStocks estão disponíveis em países selecionados. Clientes dos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Austrália não podem negociá-los.

Os tokens podem ser transferidos para carteiras digitais compatíveis. Quando a empresa usada como referência paga dividendos, o valor é reinvestido no próprio token.

Apesar do lastro, o comprador não se torna proprietário da ação. Segundo a divulgação de riscos da Kraken, os detentores não têm direitos de voto, participação direta nos papéis ou direito sobre os ativos da companhia correspondente em caso de liquidação.

O que a tokenização pode mudar

Na avaliação de Gutierrez, a tokenização pode reduzir despesas operacionais em determinadas emissões ao substituir ou automatizar etapas realizadas por intermediários.

“A tokenização vem ganhando espaço justamente porque reduz significativamente os custos de emissão quando comparada às estruturas tradicionais”, afirma.

Segundo o analista, esses ganhos podem aparecer na emissão, na negociação e na liquidação. O resultado, porém, depende da estrutura tecnológica, do tipo de ativo, dos intermediários envolvidos e das exigências regulatórias de cada país.

“Na prática, o incentivo econômico é um dos principais motores desse movimento: ao reduzir o custo de emissão e de negociação, a tokenização torna-se uma alternativa cada vez mais atrativa tanto para quem capta recursos quanto para quem investe”, afirma Gutierrez.

O produto lançado pela Coinbase no Reino Unido é composto por ações convencionais, e não por tokens. Em junho, porém, a empresa anunciou planos de oferecer ações tokenizadas a clientes de fora dos Estados Unidos.

Segundo a companhia, esses produtos seriam lastreados integralmente nos papéis correspondentes e dariam acesso a dividendos e direitos societários. A previsão inicial era lançá-los em julho, mas a Coinbase não atualizou o cronograma no comunicado sobre a operação britânica.

A Intercontinental Exchange (ICE), companhia que controla a Bolsa de Nova York e opera bolsas, sistemas de compensação e serviços de dados, também desenvolve uma plataforma para negociação e liquidação de valores mobiliários tokenizados.

O projeto prevê operações contínuas, liquidação por blockchain e financiamento com stablecoins. A plataforma ainda depende de autorizações regulatórias e não tem data anunciada para entrar em funcionamento.

No Brasil, o movimento começou pelas instituições financeiras

No Brasil, a aproximação ocorreu principalmente com a entrada dos criptoativos nos aplicativos de bancos e corretoras que já ofereciam investimentos tradicionais.

Nubank e Inter, por exemplo, oferecem criptoativos no mesmo ambiente em que disponibilizam produtos de renda fixa e renda variável. A Webull reúne ações americanas e mais de 240 criptoativos no mesmo aplicativo.

Na avaliação de Gutierrez, o mercado brasileiro reúne condições para ampliar essa oferta. “O Brasil possui um dos mercados financeiros mais digitalizados do mundo e uma população que adota rapidamente novas tecnologias financeiras.”

O analista também identifica características específicas no comportamento local. “O investidor brasileiro possui um perfil historicamente mais voltado para operações táticas e oportunidades de curto prazo, buscando ativos com maior potencial de retorno e plataformas que ofereçam praticidade e custos reduzidos.”

Segundo ele, corretoras de ativos digitais podem ampliar seus portfólios, enquanto bancos e corretoras tradicionais adicionam produtos ligados a criptomoedas. O formato depende das autorizações de cada empresa e da classificação jurídica dos produtos.

A Webull (BULL) é uma corretora digital fundada nos Estados Unidos. No Brasil, oferece acesso a ações e ETFs americanos, além de criptoativos.

Embora os investimentos apareçam no mesmo aplicativo, são oferecidos por empresas diferentes. A negociação de valores mobiliários ocorre por meio da Webull Financial, corretora americana registrada na Securities and Exchange Commission, a SEC, e na Finra.

A oferta de criptoativos é feita pela Webull SPSAV. A execução das ordens e a custódia ficam sob responsabilidade da Coinbase, segundo as informações da Webull Brasil.

O Nubank (ROXO34; NU), banco digital que oferece contas, cartões, crédito e investimentos, disponibiliza CDBs, fundos, Tesouro Direto, LCI, LCA, ações brasileiras, BDRs, ETFs, fundos imobiliários e criptoativos no aplicativo.

O banco não oferece a compra direta de ações americanas. A exposição a companhias estrangeiras ocorre por meio de BDRs, recibos negociados na B3 que representam valores mobiliários emitidos no exterior.

No Nubank Cripto, estão disponíveis 28 criptoativos, entre eles bitcoin, ether, solana e USDC.

Cripto também avançou na B3

A B3, responsável pela bolsa brasileira e por infraestruturas de negociação, registro, compensação e liquidação, oferece ETFs e contratos futuros ligados a criptoativos.

Em julho, iniciou a negociação de opções sobre futuros de bitcoin, ether e solana, conforme comunicado da empresa.

Esses produtos permitem exposição à variação dos preços dos criptoativos sem que o investidor compre ou mantenha diretamente as moedas digitais.

A demanda líquida de residentes brasileiros por criptoativos com passivo correspondente somou US$ 14,68 bilhões no primeiro semestre de 2026, segundo a série 29644 do Banco Central. O resultado representa crescimento de 135% em relação ao mesmo período de 2025.

A categoria inclui criptoativos com emissor identificado, como as stablecoins. Os dados têm cobertura parcial porque não capturam todas as operações liquidadas diretamente no exterior.

O que o Banco Central regula

A Lei 14.478, sancionada em 2022, estabeleceu as diretrizes para a prestação de serviços de ativos virtuais. Em 2023, o Banco Central recebeu a competência para regulamentar e supervisionar as empresas que atuam nesse mercado.

As Resoluções BCB 519, 520 e 521 entraram em vigor em 2 de fevereiro de 2026, mas tratam de aspectos diferentes.

A Resolução 519 estabelece os procedimentos para autorização das sociedades prestadoras de serviços de ativos virtuais. A Resolução 520 define regras de constituição, funcionamento e prestação dos serviços. A norma também estabelece exigências relacionadas a governança, controles, segurança e separação entre recursos próprios e ativos dos clientes.

A Resolução 521 inclui determinadas operações com ativos virtuais no mercado de câmbio e de capitais internacionais. Entre elas estão pagamentos e transferências internacionais e operações com criptoativos referenciados em moedas fiduciárias, como stablecoins.

As empresas que já prestavam esses serviços quando as normas entraram em vigor receberam 270 dias para solicitar autorização. Se apresentarem o pedido no prazo, podem continuar operando durante sua análise. Novas prestadoras precisam de autorização prévia para iniciar as atividades.

“O Banco Central adota uma abordagem voltada para a estabilidade e o funcionamento do sistema financeiro”, afirma Gutierrez. “Sua preocupação está na supervisão das prestadoras de serviços de ativos virtuais, na segurança operacional das plataformas, na custódia dos ativos, nos meios de pagamento, na prevenção à lavagem de dinheiro e na proteção da infraestrutura financeira.”

Quando a competência é da CVM

A Comissão de Valores Mobiliários regula e fiscaliza o mercado de valores mobiliários. Sua atuação abrange ações, debêntures, cotas de fundos, derivativos e contratos de investimento coletivo, além das ofertas públicas e das atividades de distribuição, intermediação e negociação desses produtos.

A tecnologia utilizada não altera, por si só, a natureza jurídica do ativo. Se um token tiver características de valor mobiliário, sua oferta e negociação ficam sujeitas às regras da CVM.

“A CVM possui uma atuação voltada ao mercado de capitais e à proteção do investidor. Sua competência surge quando um criptoativo se enquadra como valor mobiliário ou quando há uma oferta pública de produtos de investimento relacionados a ativos digitais”, afirma Gutierrez.

A Lei 14.478 exclui expressamente de seu alcance os ativos classificados como valores mobiliários. Nesses casos, permanecem aplicáveis a Lei 6.385 e a regulamentação da CVM.

A autarquia consolidou parte de seu entendimento no Parecer de Orientação 40, publicado em 2022. O documento explica em quais situações os criptoativos podem ser classificados como valores mobiliários. A CVM também conduziu experiências com ativos tokenizados em seu sandbox regulatório e adotou medidas contra ofertas e atividades consideradas irregulares.

Em julho de 2026, a autarquia criou um Grupo de Trabalho de Tokenização para estudar o registro, o depósito, a custódia, a negociação e a liquidação de valores mobiliários em redes de registro distribuído.

Pela Portaria CVM/PTE 177, o grupo terá duração inicial de 120 dias, prorrogável por mais 30. Em até 60 dias após sua instalação, deverá encaminhar ao Colegiado uma proposta de regime regulatório experimental.

Uma empresa pode responder aos dois reguladores

A divisão de competências não depende apenas de a empresa se apresentar como banco, corretora ou exchange. O produto oferecido e o serviço prestado determinam quais regras devem ser cumpridas.

Uma plataforma que intermedeia e custodia bitcoin pode ficar sob a supervisão do Banco Central como prestadora de serviços de ativos virtuais. Se essa mesma empresa quiser distribuir um token classificado como valor mobiliário, precisará observar também as normas e autorizações da CVM.

“Em resumo, pode-se dizer que o Banco Central regula quem presta o serviço e como essa atividade deve funcionar, enquanto a CVM regula como determinados ativos digitais podem ser ofertados e negociados quando assumem características de valores mobiliários”, afirma Gutierrez.

Tainah identifica uma diferença no ritmo adotado pelas autoridades. “Nos últimos três anos, o Banco Central regulou e a CVM fiscalizou; essa assimetria é a diferença real entre os dois.”

A avaliação da advogada considera que o BC já colocou em vigor um conjunto específico de regras para autorização e funcionamento das prestadoras de serviços de ativos virtuais. A CVM publicou orientações, conduziu experiências e fiscalizou o mercado, mas ainda elabora um regime experimental específico para a tokenização de valores mobiliários.

“No dia a dia das empresas, a diferença aparece assim: quem quer operar cripto já sabe o que o Banco Central exige; quem quer tokenizar valores mobiliários ainda não tem regra publicada para cumprir”, afirma Tainah.

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