A Ata da 280ª reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada pelo Banco Central (BC) na manhã desta terça-feira (11) foi curta e conservadora. O texto tem 1.556 palavras, uma redução de 23,9 por cento ante as 2.024 palavras da Ata da reunião anterior.
O Comitê não trouxe, como ocorreu na Ata de junho, uma explicação detalhada sobre o que considera relevante na própria formulação da política monetária. Da mesma forma, resumiu bastante sua análise da conjuntura internacional. E também suprimiu os comentários sobre o efeito diferenciado da política monetária em setores diferentes da economia. “O tom da ata segue marcado pela cautela, com ênfase na manutenção da taxa básica de juros em patamar suficientemente restritivo para assegurar a convergência da inflação à meta”, diz Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset.
Expectativas de inflação
A Ata trouxe um discurso bastante alinhado de que a situação não é boa. “As expectativas de inflação, medidas por diferentes instrumentos e obtidas de diferentes grupos de agentes permanecem acima da meta de inflação em todos os horizontes”, informa o texto no parágrafo de número 9.
E continua: “foi ressaltado que o custo de desinflação sobre o nível de atividade ao longo do tempo é maior em ambientes com expectativas desancoradas. O Comitê monitora com atenção a desancoragem adicional das expectativas de inflação para prazos mais longos e tem debatido as possíveis causas desse movimento das expectativas.”
O parágrafo 9 termina frisando a unanimidade da avaliação dos membros do Comitê. “A principal conclusão obtida, e compartilhada por todos os membros do Comitê, foi a de que, em um ambiente de expectativas desancoradas, como é o caso do atual, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado.”
Juros altos
A Ata requer uma boa dose de interpretação. O fato de o texto trazer formalmente a expressão “e compartilhada por todos os membros do Comitê” pode ser uma tentativa de passar uma mensagem de que o Banco Central teria uma certeza maior do que a média da necessidade de manter a política monetária apertada.
Um pouco antes, no parágrafo 2, a Ata mostra que mesmo os sinais positivos com relação à inflação são vistos com cautela. “Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia desacelerou, porém ainda acima do limite superior da meta”, diz o texto.
E para não deixar dúvidas sobre o que vem pela frente, no parágrafo 14, o Copom afirma que “[e]mbora a política monetária esteja contribuindo de forma determinante para o processo de desinflação, a inflação permanece pressionada pela demanda, exigindo que a política monetária mantenha caráter restritivo”.
E vale citar o parágrafo 16 na íntegra: “No contexto atual de incerteza em níveis historicamente elevados, com riscos assimétricos na direção altista para os preços, o Comitê reitera que a magnitude do ciclo de calibração será ajustada à luz da evolução do cenário, de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta.”
Preços das commodities
Segundo Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, o Banco Central reforçou que a política monetária continuará restritiva e que expectativas desancoradas exigem juros elevados por mais tempo. “As projeções apresentadas pelo Comitê colocam o IPCA em 5,1% para 2026, 3,8% para 2027 e 3,2% no primeiro trimestre de 2028, enquanto atividade e mercado de trabalho continuam resilientes”, diz.
Para não dizer que a Ata foi totalmente pessimista, houve um ponto de alívio. Segundo Guilherme Sousa e Étore Sanchez, economistas da Ativa Investimentos, o Comitê trata sobre o choque de oferta nas commodities, mas afirma que esse choque deve ser combatido pelo Copom apenas em seus efeitos secundários, “caso esses efeitos se materializem”.
Ou seja, o Comitê a princípio descartou a hipótese de uma contração preventiva da política monetária devido à alta dos preços das commodities, reconhecendo que há um potencial de acomodação da economia. “O Copom deverá afrouxar a Selic novamente em 25 bps na próxima reunião e que aponta reiteradamente para a necessidade de manutenção da restrição para a convergência da inflação à meta”, afirmam Sousa e Sanchez.