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Por Que a China Passou a Mudar o Preço da Energia a Cada 15 Minutos

Avanço das fontes solar e eólica faz mercado atacadista de Shandong formar 96 preços por dia e aumenta a volatilidade para geradoras e grandes empresas

7 min

O preço da energia muda a cada 15 minutos em Shandong, uma das províncias mais industrializadas da China. Ao longo de um único dia, o mercado atacadista local chega a formar 96 valores diferentes para a eletricidade.

A mudança não alcança diretamente a conta de luz das famílias. Ela afeta as negociações entre geradoras, comercializadoras e grandes empresas e faz parte de uma reforma mais ampla conduzida por Pequim para adaptar o sistema elétrico ao avanço acelerado das fontes solar e eólica.

Segundo a Administração Nacional de Energia da China, que regula o setor, os preços variam de acordo com as condições de oferta, demanda e operação da rede. A energia tende a ficar mais barata quando há produção renovável abundante e mais cara quando a geração solar diminui ou o consumo aumenta. As regras oficiais do mercado de Shandong confirmam que cada período de negociação e formação de preços tem duração de 15 minutos, mas isso não é um padrão nacional.

Segundo a Administração Nacional de Energia, algumas regiões, como Zhejiang, Chongqing e a parte ocidental da Mongólia Interior, já adotaram ciclos de cinco minutos. Jiangxi e Shanxi também passaram de 96 para 288 formações de preço por dia em 2025.

Por que os preços precisam mudar tão rapidamente

A reforma está relacionada à expansão da energia renovável. No fim de maio de 2026, a China tinha 1,92 bilhão de quilowatts de capacidade solar e eólica instalada, o equivalente a 47,9% de toda a capacidade de geração do país, de acordo com a administração nacional de energia do país.

Diferentemente de uma termelétrica, a produção de uma usina solar ou eólica não pode ser ajustada livremente para acompanhar o consumo. A oferta depende da disponibilidade de sol e vento e pode mudar de maneira significativa ao longo de um mesmo dia.

Segundo a agência chinesa, os preços mais baixos nos períodos de elevada produção renovável incentivam termelétricas a reduzir a geração e grandes consumidores a aumentar o uso de energia. No início da noite, quando a produção solar diminui, a elevação dos preços estimula o aumento da geração disponível e a descarga das baterias.

A autoridade compara esse ambiente a uma espécie de “bolsa de valores da eletricidade”. O órgão também informa que algumas empresas passaram a deslocar etapas de produção intensivas em energia para os horários de maior geração solar e preços menores.

Mercado já movimenta dois terços da eletricidade chinesa

A mudança dos preços a cada 15 minutos faz parte de uma reforma mais ampla. Durante décadas, a eletricidade foi tratada pela China como um insumo estratégico, com forte controle estatal sobre os preços.

Em fevereiro de 2025, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, a NDRC, e a Administração Nacional de Energia determinaram que, em princípio, toda a eletricidade produzida por projetos solares e eólicos deveria entrar no mercado.

A nota oficial da NDRC afirma que o modelo anterior não refletia integralmente as condições de oferta e demanda nem os custos necessários para equilibrar o sistema elétrico.

A reforma preservou um mecanismo de compensação para parte da produção. Quando o preço negociado fica abaixo de um valor de referência, o projeto recebe a diferença. Quando fica acima, o excedente é descontado na liquidação financeira.

As regras também diferenciam as usinas existentes dos projetos que começaram a operar depois de 1º de junho de 2025. Os empreendimentos mais antigos preservaram condições próximas às políticas anteriores. Para os novos, os valores de referência passaram a ser definidos por processos competitivos.

Em 2025, mais de 6,6 trilhões de quilowatts-hora foram negociados por mecanismos de mercado, o equivalente a 64% do consumo chinês de eletricidade, segundo a Administração Nacional de Energia. Em 2015, a proporção era inferior a 15%.

No primeiro semestre de 2026, as negociações chegaram a 3,68 trilhões de quilowatts-hora. Desse total, 428 bilhões foram comercializados no mercado à vista.

A maior parte da eletricidade, porém, continua protegida das oscilações imediatas. Os contratos de médio e longo prazo representaram 88,4% do volume negociado no semestre, conforme os dados oficiais do setor elétrico. Os preços em tempo real, portanto, ainda não determinam sozinhos o custo da eletricidade na China.

Deloitte prevê aumento da volatilidade

Em estudo publicado em 2025, a Deloitte avaliou que a criação de um mercado à vista mais integrado se tornou necessária porque o setor elétrico chinês permanecia fragmentado entre províncias, com diferenças nas regras e nos mecanismos de formação de preços.

Segundo a consultoria, essa estrutura dificultava as transações entre regiões e limitava o transporte da energia produzida em uma província para consumidores localizados em outra.

A Deloitte conclui que a reforma permitirá que os preços reflitam melhor as condições de oferta e demanda, mas também aumentará a volatilidade. Os valores poderão subir nos horários de pico e se aproximar de zero em períodos de baixo consumo e elevada produção renovável.

Na avaliação da consultoria, geradoras com produção mais previsível, custos menores e capacidade de ajustar rapidamente suas operações estarão mais bem posicionadas.

A Deloitte também vê oportunidades para empresas de previsão de demanda, negociação de energia, segurança de dados e gestão inteligente de ativos. A consultoria projeta que o mercado chinês de tecnologias de previsão para fontes renováveis crescerá de 1,29 bilhão de yuans em 2023 para 2,27 bilhões de yuans em 2027.

Wood Mackenzie estima retorno menor para projetos solares

A Wood Mackenzie identificou pressão sobre o retorno dos novos projetos renováveis. Segundo a consultoria, na primeira disputa realizada sob o novo mecanismo em Shandong, o preço da energia solar ficou 32% abaixo da média anterior de liquidação. Na energia eólica, a redução foi de 9%.

A consultoria estima que a taxa interna de retorno de um projeto solar de grande porte em Shandong possa cair para 6,3%. A referência usada no estudo é um retorno médio nacional de 8% no regime anterior.

Esses percentuais são estimativas da Wood Mackenzie e não dados do governo chinês.

A consultoria também projeta aumento dos cortes de geração, que acontecem quando a rede não consegue absorver ou transportar toda a eletricidade produzida. Segundo seus cálculos, a taxa média de corte da energia solar deverá superar 5% em 21 províncias durante os próximos dez anos. Na geração eólica, sete províncias ultrapassariam esse patamar.

Na avaliação da Wood Mackenzie, investidores precisarão considerar não apenas a disponibilidade de sol e vento, mas também a capacidade da rede e o comportamento dos preços antes de decidir onde instalar novos projetos.

Armazenamento e flexibilidade ganham valor

A formação de preços em intervalos menores também abre espaço para sistemas de armazenamento e usinas virtuais, que reúnem baterias, painéis solares, carregadores de veículos elétricos e consumidores flexíveis em uma única plataforma.

A Administração Nacional de Energia informou que três centros de dados da China Unicom e da China Mobile passaram a negociar eletricidade no mercado à vista de Guangdong por meio de uma usina virtual.

Segundo a agência, a plataforma permite reduzir ou adiar tarefas computacionais não urgentes quando a energia está mais cara. Nos períodos de preços menores, os centros ampliam a carga de processamento.

Até o fim do ano passado, mais de 400 usinas virtuais, sistemas independentes de armazenamento e outros novos participantes estavam registrados nos mercados elétricos chineses, segundo o órgão regulador.

O governo pretende colocar a maioria dos mercados à vista em operação formal até 2027. Para 2030, a meta é consolidar um mercado elétrico nacional unificado e elevar para cerca de 70% a parcela do consumo negociada por mecanismos de mercado.

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