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Sobretaxado, Brasil Volta À Mesa com EUA após Recorde de Exportações e Novos Fregueses

Com alta de 11,5% no primeiro semestre, acordo Mercosul-UE em vigor e uma fila de negociações na Ásia, o Brasil volta à mesa com Washington na próxima semana mostrando que sabe crescer mesmo sob o tarifaço

6 min

Na próxima segunda-feira (31), representantes do Brasil e dos Estados Unidos voltam a se encontrar, ainda que virtualmente, para discutir o tarifaço que Washington impôs a produtos brasileiros. Do lado brasileiro estará o ministro Márcio Elias Rosa do Ministério de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e na ponta americana, o representante comercial Jamieson Greer

Será o primeiro contato formal desde a sobretaxa de 25% anunciada em julho, somada a uma tarifa adicional de 12,5%. Mas o Brasil chega à conversa sem a urgência: os números do primeiro semestre mostram um país que, pressionado pela Casa Branca, acelerou a diversificação das exportações e bateu recorde mesmo perdendo espaço no mercado americano.

Entre janeiro e junho de 2026, as exportações somaram US$ 184,77 bilhões, alta de 11,5% sobre o mesmo período de 2025, segundo a Secretaria de Comércio Exterior do MDIC. É o melhor primeiro semestre da série histórica, superando o recorde anterior, de US$ 166,9 bilhões em 2024.

O superávit comercial saltou 40,3%, para US$ 42,4 bilhões, e o desempenho levou o próprio MDIC a revisar a projeção de saldo de 2026 de US$ 72,1 bilhões para US$ 90 bilhões.

O contraste com os Estados Unidos é o coração da história. Um levantamento da ApexBrasil mostra que, nesse primeiro semestre, as vendas ao mercado americano caíram cerca de US$ 2,6 bilhões, mas as exportações para outros 17 destinos somaram US$ 19,3 bilhões, quase 7,5 vezes o tamanho da perda. Para a China, nosso principal parceiro comercial, o semestre rendeu cerca de US$ 58,2 bilhões em vendas.

Para Leonardo Trevisan, professor de geopolítica da ESPM, o movimento não é novidade, e sim a aceleração de uma rota antiga. “O Brasil já vinha praticando essa diversificação há bastante tempo e antes do tarifaço de 2025 o país já vendia para 88 mercados”. O professor usa a expressão de um de seus alunos para ilustrar: “os Estados Unidos precisam ser comunicados de que eles não são a última bolacha do pacote”. 

No primeiro semestre, as vendas aos EUA recuaram quase 19%, enquanto o total exportado ao mundo cresceu na casa de dois dígitos, diz Trevisan. “Obrigado, presidente Trump. O senhor mostrou para o Brasil que nós podemos ter muito mais fregueses do que o senhor”, brincou. 

A âncora europeia

O eixo dessa virada é o acordo entre Mercosul e União Europeia, assinado em 17 de janeiro e em vigor provisório desde 1º de maio.

O tratado cria uma das maiores zonas de livre comércio do mundo. São 31 países, cerca de 720 milhões de pessoas e PIB somado acima de US$ 22 trilhões, e ainda prevê a eliminação de tarifas sobre 91% dos bens europeus, em até 15 anos, e sobre 95% dos produtos do Mercosul, em até 12 anos.

O governo estima impacto de R$ 37 bilhões no PIB e R$ 13 bilhões em novos investimentos.

Os primeiros sinais animam Brasília e o vice-presidente Alckmin, que afirmou nesse mês que nos 60 dias iniciais de vigência, as exportações à UE cresceram quase 4%, resultado que, segundo ele, “tem nos ajudado mesmo com as questões americanas para bater recorde de exportação”. 

O MDIC, porém, pondera que ainda é cedo para isolar o efeito do acordo, e o próprio bloco europeu suspendeu, a partir de 3 de setembro, a importação de carne bovina e de frango do Brasil por questões sanitárias, o que Alckmin classificou como “protecionismo escondido“.

Do outro lado do Atlântico, o apetite é concreto. “Entramos em uma fase histórica, em que a geopolítica está afetando o dia a dia das empresas”, diz Josep Maria Buades, diretor do escritório da ACCIÓ em São Paulo, agência de comércio e investimento da Catalunha – região que responde por quase 30% das exportações espanholas ao Mercosul. Segundo ele, a entrada em vigor do acordo já elevou o interesse de empresas catalãs por clientes e fornecedores brasileiros.

No curto prazo, os ganhos vêm de matérias-primas, semimanufaturados, plásticos, químicos, insumos farmacêuticos e peças metalúrgicas; o salto de consumo de massa, roupas, brinquedos, veículos e alimentos processados, só virá à medida que as tarifas caírem ao longo dos próximos anos. “A melhor maneira de as empresas se prepararem nesse novo contexto é ampliar os mercados”, diz Buades.

A ofensiva asiática

No entanto, a Ásia ainda é uma fronteira difícil de ultrapassar. Na última reunião do G7 na França, Lula e a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, anunciaram o início das negociações para um Acordo de Parceria Econômica entre Japão e Mercosul, com foco na redução de tarifas sobre automóveis e na diversificação das fontes japonesas de petróleo e minerais críticos.

Em julho, Brasil e Coreia do Sul criaram um grupo de trabalho para destravar um eventual acordo; o presidente Lee Jae-myung classificou a aproximação como algo que “não pode mais esperar”. Na cúpula de junho do bloco, o Mercosul lançou ainda negociações de um acordo preferencial com o Vietnã.

Entrar no mercado da populosa Índia ainda é um desafio. O acordo preferencial em vigor desde 2009 cobre apenas 14% das exportações brasileiras, travadas por tarifas altas e pela proteção ao agro indiano.

Trevisan vê caminho, mas sem ilusão: “A Índia é um país difícil de negociação, um país complexo. A Índia tem a maior população do mundo, maior que a China, tem o maior desenvolvimento econômico dos últimos 30 anos e cresceu mais de 6%. Ninguém cresceu tudo isso”, diz, apontando o recém-concluído acordo entre União Europeia e Índia como um “roteiro” que o Brasil pode seguir.

O que ainda está na mesa

O Canadá quer fechar acordo com o Mercosul até o fim de 2026, segundo a chanceler Anita Anand, em um movimento explícito de reduzir a dependência dos EUA. Os Emirados Árabes Unidos negociam Acordo de Parceria Econômica Abrangente (CEPA, na sigla em inglês) que quase saiu em 2025, emperrado por regras de origem e pelo conflito no Irã. E o MDIC já abriu consulta pública sobre um futuro acordo com o Japão, sinal de que a fila deve crescer. 

Trevisan credita o timing da diversificação comercial do Brasil a um só nome. “O grande impulsionador foi Donald Trump”, afirma.

Esse é o pano de fundo da conversa de segunda-feira. O Brasil vai à mesa disposto a negociar mas com os números da balança do primeiro semestre, provando que, ao menos por ora, sabe crescer sem o freguês americano e sob a pressão tarifária.

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