Ana Fontes: “empresas diversas possuem vantagem por terem novas perspectivas”

Fundadora da Rede Mulher Empreendedora e da Fundação RME, ela fala sobre os avanços da representatividade da mulher e da ampliação da equidade racial no universo empreendedor.

Andressa Barbosa
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O objetivo principal da Rede Mulher Empreendedora é capacitar mulheres para que elas conquistem a independência financeira (Crédito: Priscila Prade)

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Ana Fontes é fundadora da Rede Mulher Empreendedora e da Fundação RME. Antes de se tornar empreendedora, trabalhou durante 18 anos como executiva. Por necessidade decidiu se demitir no ano de 2007 e, em 2010, criou o RME, pois notou que não só ela, mas outras mulheres também precisavam de incentivos para se tornarem empreendedoras. “A partir do meu primeiro negócio, em 2008, quis escrever para uma rede de mulheres que precisavam de apoio e diante disso surgiu o Blog Rede Mulher Empreendedora. Durante um ano, aos finais de semana, acompanhei mais de 100 mil mulheres e assim consegui apoiá-las a criarem seus próprios negócios.”, destaca.

A mulher empreendedora

Ana revela que, desde muito cedo, sempre batalhou para conquistar algo na vida, com o RME não foi diferente: “eram muitas batalhas e poucos recursos financeiros, mas após cinco anos da fundação do RME muitas empresas viram o nosso poder de impacto na vida de mulheres que buscam empreender, e assim, nos ajudaram a ampliar. Isso me fez acreditar na relevância da organização, nos tornando primeiro referência para mulheres, e depois, referência para o mercado.”

O objetivo principal da Rede Mulher Empreendedora é capacitar mulheres para que elas conquistem a independência financeira, criando negócios relevantes que geram grandes impactos positivos na sociedade. A fundação utiliza de metodologias próprias baseadas em estudos profundos para trabalhar a capacitação, nomeadas de soft skills (cursos de liderança; negociação; educação financeira; como falar em público; e autoconhecimento) e hard skills (cursos de como abrir o próprio negócio; como buscar emprego; e como seguir uma carreira de tecnologia). Além de possuir um programa de formação de redes locais para apoiar outras mulheres e acompanhá-las através de programas de aceleração.

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“Quando eu comecei muitos acreditavam que empreender era igual tanto para homem quanto para mulher, as mulheres tinham essa necessidade porque outros ambientes eram hostis e elas precisavam gerar renda para sustentar a família. Atualmente, a sociedade entende esse movimento do empreendedorismo feminino, porém ainda faltam políticas públicas que incluam todas as mulheres negras, brancas, trans, indígenas, maduras e egressas do sistema prisional. Aqui no instituto não deixamos nenhuma delas para trás. Criamos metodologias para que todas elas sejam reconhecidas nos negócios e projetos de evolução de renda.”, afirma Fontes.

A mulher na tecnologia

A tecnologia é um ponto fundamental e mulheres interessadas nas áreas da ciência, matemática e tecnologia têm diminuído, esse fato acontece principalmente porque as mulheres acreditam que esse rumo não é o delas, mas Ana afirma que são essas carreiras que possuem as melhores remunerações. “Mesmo sendo a maior rede empreendedora não conseguimos atender todo o público que necessita, por isso a fomentação de políticas públicas desde a época da escola são necessárias para mostrar que essas carreiras são possíveis.”

O RME busca trabalhar desde cedo com meninas para que elas se interessem nos locais onde há predominância masculina, realizando o projeto Potência Feminina, programa de capacitação na área da tecnologia, incentivando-as a sonhar com esses cargos. “Era muito comum escutar das minhas filhas que elas não gostavam de matemática, e quando eu as questionava, elas respondiam que somente os meninos gostavam dessas áreas. Nossa missão é encaminhar as meninas para locais onde há uma baixa representatividade. As pessoas precisam dar mais luz e visibilidade para as mulheres que já estão trilhando esse caminho no mercado.”

Visando o futuro, Ana possui boas perspectivas, mas ela ressalta que esse trabalho precisa ser feito em conjunto com políticas afirmativas de inclusão e diversidade, que diminuam desigualdades sociais e projetem uma economia mais forte, já que não seria uma tática inteligente não focar nesse público. “Se uma mulher branca tem dificuldade, uma mulher negra tem ainda mais dificuldade. Se uma mulher negra tem dificuldade, uma mulher trans tem ainda mais dificuldade. E por aí vai. As empresas que possuem diversidade no seu conjunto, tem uma grande vantagem por pensar de maneiras diferentes, com grupos que nos ajudam a caminhar para uma sociedade mais justa e inclusiva.”

Retomada econômica

A pandemia que deu início no ano de 2020 causou um grande impacto na vida das mulheres. As taxas de empregabilidade para esse gênero caíram bruscamente e chegaram aos mesmos níveis que se encontrava há 30 anos atrás. “A pandemia foi ruim com todo mundo, mas ela foi cruel com as mulheres. 70% delas empreendem no que chamamos de área de conforto, que seria os setores de moda; beleza; refeições fora de casa; serviços; e estética, exatamente as áreas que foram mais afetadas no ano de 2020. O número de mulheres que buscam empreender chega a 40%, a motivação nem sempre é boa, mas na Rede buscamos ajudá-las. Com mais força em busca de manter o próprio negócio ativo, encontrando pequenas inovações a fim de transformação, elas não têm medo de se capacitar.”

A Rede Mulher Empreendedora gera informações para que o governo contribua e crie políticas públicas capazes de ajudar mulheres que empreendem e não tem com quem possa deixar os seus filhos para trabalhar. Ressaltando que o acesso à creche é um problema no Brasil, devido ao fato de que as filas priorizam mulheres que trabalham de carteira assinada, o que não é o caso da mulher empreendedora.

“As oportunidades de negócios estão sempre onde estão os maiores problemas das pessoas. Quando uma mulher contrata outras mulheres, ela cria um círculo positivo e poderoso de mulheres ajudando mulheres, fazendo com que o entorno delas dê certo. É o tempo inteiro estar atento ao que acontece à sua volta. Não é uma guerra de sexos, é sobre termos condições e oportunidades para diminuir a desigualdade”, afirma Ana.

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