A Raízen, uma das maiores produtoras globais de açúcar e etanol e líder na distribuição de combustíveis sob a marca Shell no Brasil, apresentou nesta quarta-feira (3) os detalhes de um ambicioso plano de recuperação extrajudicial para reestruturar aproximadamente R$ 65 bilhões em dívidas financeiras. Mais do que um ajuste de balanço, a proposta representa uma reformulação profunda do grupo, envolvendo mudança societária, nova governança, venda de ativos, segregação de negócios e uma das maiores conversões de dívida em capital já vistas no país.
O plano é duro. E foi desenhado para ser.
Pela proposta principal, cerca de 45% da dívida será convertida em ações ao preço de R$ 0,25 por papel, enquanto os 55% restantes serão transformados em novos instrumentos de dívida com vencimentos entre 2032 e 2035. Paralelamente, a Shell se comprometeu a injetar R$ 3,5 bilhões na companhia, com possibilidade de mais R$ 500 milhões por meio de um veículo ligado à Aguassanta Investimentos, controladora da Cosan.
A lógica financeira é simples: reduzir drasticamente a alavancagem, aliviar a pressão de caixa e dar tempo para que os negócios voltem a gerar resultados compatíveis com o tamanho da empresa. Mas o preço é elevado.
Na prática, a operação promove uma diluição sem precedentes dos atuais acionistas. Segundo estimativas do mercado, os credores podem terminar o processo controlando algo próximo de 80% do capital da companhia. O valor econômico que antes estava concentrado nos acionistas migra para quem financiou a expansão da empresa ao longo dos últimos anos.
“Os credores deixam de receber juros para passar a receber participação nos lucros futuros”, resume Lucas Sigu, sócio-fundador da Ciano Investimentos. Para ele, a proposta praticamente elimina o risco imediato de insolvência, mas transfere boa parte do potencial de recuperação futura para os novos acionistas que surgirão da conversão da dívida.
Apesar da severidade do plano, um aspecto chamou atenção do mercado: os controladores decidiram colocar dinheiro novo no negócio. O aporte de R$ 3,5 bilhões da Shell funciona como um selo de credibilidade para a reestruturação. Em processos de recuperação, não é incomum que acionistas tentem preservar caixa enquanto negociam com credores. Na Raízen, ocorreu o oposto.
Segundo Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, a injeção de recursos sinaliza comprometimento dos acionistas de referência justamente no momento em que a companhia enfrenta seu maior teste desde a criação da joint venture entre Cosan e Shell. “O capital novo reforça a liquidez e ajuda a restaurar a confiança em uma empresa que vinha sendo pressionada por níveis elevados de alavancagem”, afirma.
O gesto, porém, não altera uma realidade incômoda: o mercado atribui hoje à Raízen um valor muito inferior ao que os investidores imaginavam há poucos anos. O preço de conversão das ações – R$ 0,25 – reflete esse novo patamar.
O nascimento de duas Raízens
A parte mais estratégica da reestruturação talvez não esteja no balanço patrimonial, mas na reorganização dos negócios.
A empresa pretende separar suas operações em duas companhias independentes: uma voltada para energia, bioenergia, açúcar e etanol, e outra focada na distribuição de combustíveis. A cisão deverá ocorrer após o fechamento da transação, previsto para março de 2027, com conclusão da segregação até o final do mesmo ano.
A divisão responde a uma crítica recorrente de investidores: atividades tão distintas acabam escondendo o valor real de cada negócio dentro de um único conglomerado.
Para os defensores do plano, a separação pode permitir avaliações mais precisas, estruturas de capital específicas para cada atividade e maior facilidade para atrair investidores ou parceiros estratégicos.
A própria documentação da companhia prevê a busca por um investidor para a operação de distribuição de combustíveis, incluindo a possibilidade de venda de participação ou oferta secundária de ações.
Em outras palavras, a Raízen está se preparando para um futuro em que parte de seus ativos poderá mudar de mãos.
Mudança na governança
Talvez o sinal mais evidente da gravidade da situação esteja na governança. Durante a implementação do plano, os credores terão acesso ampliado à administração, acompanhamento permanente da execução e poder de veto sobre temas relevantes. Depois da reestruturação, o conselho de administração será composto por sete membros, dos quais quatro serão indicados pelos credores apoiadores, incluindo o presidente do colegiado.
É uma mudança significativa para uma companhia que sempre esteve associada ao comando de dois dos grupos empresariais mais influentes do setor de energia. “Não estamos diante de um simples ajuste financeiro. Trata-se de uma reorganização estrutural do conglomerado, com redistribuição efetiva de poder e supervisão ampliada dos credores”, afirma André Matos, CEO da MA7 Negócios.
A nova arquitetura inclui ainda um comitê de credores com poderes formais de acompanhamento e um consultor de reestruturação indicado pelos financiadores para monitorar a implementação das medidas.
Uma crise que vai além da empresa
A história da Raízen também ajuda a explicar os desafios enfrentados por grandes grupos brasileiros em um ambiente de juros elevados.
Durante anos, a companhia expandiu investimentos apostando no crescimento do mercado de biocombustíveis, na demanda por energia renovável e na expansão de suas operações industriais. O cenário mudou quando o custo do capital disparou globalmente e as margens operacionais passaram a sofrer pressão.
A combinação de juros altos, crédito mais caro e rentabilidade comprimida tornou a estrutura de dívida difícil de sustentar.
Para Alexandre Temerloglou, CEO da Siegen Consultoria e especialista em Recuperação Judicial, o plano reúne praticamente todos os instrumentos clássicos de uma reestruturação moderna: conversão de dívida em capital, alongamento de passivos, reforço de liquidez, venda de ativos e mudanças operacionais.
O desafio agora deixa de ser financeiro e passa a ser executivo. A aprovação pelos credores parece provável, mas a recuperação dependerá da capacidade da companhia de executar a cisão, capturar ganhos operacionais, negociar passivos tributários e restaurar margens em seus principais negócios.