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Como a Igualdade de Gênero Pode Acelerar Soluções para a Crise Climática

Em entrevista à Forbes diretamente da COP30, em Belém, Anjani Kapoor, head da SWA, hospedada pelo Unicef, explica por que as mulheres estão entre as mais impactadas pela emergência climática e por que devem ocupar o centro das decisões

14 min

A crise climática não é neutra em termos de gênero. Segundo um relatório de 2025 da ONU Mulheres, até 2050, as mudanças climáticas podem levar até 158 milhões de meninas e mulheres para a pobreza – 16 milhões a mais do que o número total de meninos e homens. “A desigualdade de gênero amplifica a vulnerabilidade climática ao limitar o acesso das mulheres a recursos, tomada de decisão e liderança”, afirma Anjani Kapoor, head de políticas públicas da SWA, (Sanitation and Water for All). Criada em 2010, a parceria global organizada pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) promove acesso universal à água, à higiene e ao saneamento.

Nascida e criada na Índia, Anjani atua há mais de 15 anos em políticas públicas e engajamento comunitário para reduzir desigualdades de gênero por meio dessas agendas.

Na COP30, em Belém, ela representa os esforços da SWA em apontar os impactos das mudanças climáticas na saúde, educação e qualidade de vida. “Mulheres e meninas carregam um fardo desproporcional devido à insuficiência de serviços de água e saneamento, desafios que se agravam com as pressões climáticas.”

Segundo a especialista no tema, globalmente, mulheres e meninas são responsáveis pela coleta de água em sete em cada dez domicílios, e, portanto, vivenciam secas, inundações e contaminação da água de forma mais intensa. A falta de acesso à água e ao saneamento, direitos básicos reconhecidos pela ONU, é tanto uma causa quanto consequência das desigualdades de gênero. “Todo ano, mais de 800 mil mulheres morrem devido a condições inseguras de água e saneamento.”

“A igualdade de gênero não é apenas um imperativo moral, mas também uma necessidade prática para a adaptação climática.”

Anjani lidera iniciativas internacionais que mostram como as mulheres estão no centro das soluções para as crises hídrica e climática. “Quando mulheres assumem papéis ativos em grupos ou comitês locais de água, os sistemas tendem a funcionar melhor”, diz ela, citando exemplos de Bangladesh, da Tanzânia e o Programa Dignidade Menstrual, do Brasil, que promove acesso a produtos de higiene e educação menstrual para pessoas em situação de vulnerabilidade. “Esses casos demonstram o ‘duplo benefício’: melhores serviços de água e saneamento associados a avanços reais na igualdade de gênero.”

Para além de projetos locais, Anjani reforça a necessidade de envolver o setor privado e de cobrar compromisso de economias avançadas. “Nações com pegadas de carbono substanciais devem tomar medidas decisivas para reduzir emissões e aliviar os fardos desproporcionais enfrentados por mulheres em comunidades vulneráveis.”

Abaixo, Anjani Kapoor, head de políticas da Sanitation and Water for All, fala sobre a atuação da SWA na COP30, as relações indissociáveis entre gênero e clima e a importância de dar protagonismo às mulheres nesses espaços de decisão.

Forbes: O que você espera das discussões na COP30?

Anjani Kapoor: Esperamos que as discussões na COP30 destaquem fortemente as conexões indissociáveis entre desigualdade de gênero, mudanças climáticas e saneamento. Mulheres e meninas carregam um fardo desproporcional devido à insuficiência de serviços de água e saneamento – desafios que se agravam com as pressões climáticas. Abordar essas questões é vital não apenas para avançar na igualdade de gênero, mas também para construir comunidades resilientes e sustentáveis. Nosso objetivo é traduzir essas interseções críticas em ações concretas e mensuráveis após a COP30.

Como tem sido a participação de vocês na COP30? Quais discussões eram esperadas?

A Sanitation and Water for All participará ativamente da COP30, destacando a necessidade urgente de garantir os direitos humanos à água e ao saneamento. Esses serviços são fundamentais, não apenas para a resiliência climática, mas também para a justiça social. Nossos esforços na COP30 se concentrarão em garantir que a água e o saneamento sejam reconhecidos como pilares essenciais para a adaptação climática dentro da Meta Global de Adaptação.

Na COP30, a SWA, junto de parceiros como a University of Technology Sydney e os High-Level Climate Champions da Race to Resilience, lança um novo documento intitulado Crises Convergentes e Oportunidades Potenciais – Gênero, Clima, Saneamento e Água. Esse documento, apoiado pelo Departamento de Relações Exteriores e Comércio do governo australiano, oferece estruturas baseadas em evidências e recomendações de políticas para integrar sistematicamente a igualdade de gênero com a água, o saneamento e a ação climática, incorporando essas prioridades em planos de adaptação e mecanismos de financiamento climático.

Quais são os principais vínculos entre a desigualdade de gênero e os impactos das mudanças climáticas?

A desigualdade de gênero amplifica a vulnerabilidade climática ao limitar o acesso das mulheres a recursos, tomada de decisão e liderança. Globalmente, mulheres e meninas são responsáveis pela coleta de água em sete de cada dez domicílios, de modo que vivenciam secas, inundações e contaminação da água de forma mais intensa. As pressões climáticas aumentam o tempo gasto para buscar água, elevam os riscos à saúde e à segurança e reduzem as oportunidades de educação e renda.

Os dados mais recentes mostram que 2,2 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável gerida de forma segura e 3,4 bilhões não têm saneamento seguro, lacunas que afetam desproporcionalmente as mulheres. Como nove em cada dez desastres climáticos estão relacionados à água, essas desigualdades de gênero resultam em impactos profundos sobre o bem-estar e os direitos das mulheres.

Nesse cenário, qual o papel da igualdade de gênero no combate à crise climática?

A igualdade de gênero não é apenas um imperativo moral, mas também uma necessidade prática para a adaptação climática. O conhecimento de causas locais e a liderança das mulheres na gestão da água tornam as reações mais inclusivas e sustentáveis. Quando as mulheres são empoderadas com liderança, recursos financeiros e materiais, elas promovem uma adaptação transformadora que aborda vulnerabilidades, em vez de reforçar desigualdades existentes.

Como o acesso à água, saneamento e higiene se conecta às questões de gênero e vulnerabilidade climática?

Serviços precários de água, saneamento e higiene aprofundam os efeitos das mudanças climáticas e ampliam as desigualdades de gênero. Todo ano, mais de 800 mil mulheres morrem devido a condições inseguras de água e saneamento. Mais de meio bilhão de pessoas compartilham instalações sanitárias, o que expõe as mulheres a riscos maiores de assédio e violência sexual. A ausência de saneamento privado e seguro afeta especialmente a frequência escolar de meninas durante a menstruação e causa estresse generalizado.

Impactos climáticos como secas, inundações e falhas na infraestrutura pioram esses desafios, forçando mulheres a percorrer maiores distâncias em busca de água, usar fontes contaminadas e cuidar de familiares doentes. Assim, a insegurança em água e saneamento é ao mesmo tempo consequência e fator que reforça a desigualdade de gênero, especialmente sob pressões climáticas.

Em muitas partes do mundo, as mulheres estão na linha de frente da gestão da água e dos recursos naturais. Como você tem observado, na prática, a liderança feminina em iniciativas voltadas ao clima e à água?

Fortalecer a liderança e as habilidades das mulheres torna as soluções de água e saneamento mais sustentáveis e eficazes globalmente. Alguns exemplos claros: quando mulheres assumem papéis ativos em grupos ou comitês locais de água, os sistemas tendem a funcionar melhor. Elas mantêm a infraestrutura de forma eficaz, gerenciam taxas de forma transparente e reduzem falhas, fazendo com que os serviços durem mais e funcionem melhor para suas comunidades.

Projetos liderados por mulheres, como aqueles que operam em estações de tratamento ou gerenciam estações de água, frequentemente reinvestem mais em manutenção e geram empregos locais, fortalecendo o acesso confiável à água e empoderando economicamente as mulheres.

Da mesma forma, programas de saúde e higiene menstrual desenvolvidos com e para mulheres garantem privacidade e segurança em escolas e locais de trabalho, aumentando a frequência, reduzindo problemas de saúde e gerando ganhos sociais e econômicos.

Pode compartilhar um exemplo de comunidade ou projeto em que a liderança feminina gerou esses impactos?

Um exemplo claro é o Programa Dignidade Menstrual no Brasil, que visa garantir acesso gratuito a produtos de higiene e promover saúde e educação menstrual para pessoas em situação de vulnerabilidade.

Outros exemplos específicos de países com engajamento da SWA incluem a forte participação feminina na gestão da água em Bangladesh, apoiada por políticas como a Pro Poor Strategy e a National Menstrual Hygiene Management Strategy, que tornou os serviços mais inclusivos e sensíveis ao gênero.

Na Tanzânia, grupos de mulheres gerenciam pontos comunitários de água apoiados por parceiros implementadores, vendendo água acessível e usando os recursos para manutenção e emergências nas comunidades. Isso torna a água mais segura e dá poder empreendedor às mulheres.

Esses casos demonstram o “duplo benefício”: melhores serviços de água e saneamento associados a avanços reais na igualdade de gênero. Focar na liderança feminina leva a soluções mais fortes e duradouras, além de empoderar social e economicamente as mulheres, algo crítico para o desenvolvimento sustentável e a resiliência climática.

Quais barreiras ainda dificultam que mulheres assumam papéis de liderança nesses campos, e por que é essencial garantir sua presença nos espaços de decisão?

Normas de gênero persistentes frequentemente atribuem às mulheres a responsabilidade pela gestão doméstica da água, enquanto sua participação significativa em espaços formais de liderança e decisão permanece limitada. Restrições de tempo decorrentes de trabalho não remunerado reduzem as oportunidades de envolvimento em treinamentos e papéis de governança.

Além disso, o acesso desigual à educação, recursos financeiros e tecnologia agrava essas barreiras. Mesmo quando são convidadas a fóruns de decisão, a participação das mulheres pode ser simbólica em vez de substantiva, influenciada por fatores como mobilidade, segurança e responsabilidades de cuidado.

Garantir a inclusão plena e significativa das mulheres é essencial não apenas do ponto de vista da equidade, mas também para aumentar a eficácia da governança da água e do clima. Mulheres trazem perspectivas únicas e vitais, moldadas por suas experiências, essenciais para identificar vulnerabilidades do sistema e projetar soluções adequadas. A governança inclusiva de gênero melhora transparência, responsabilidade e capacidade de resposta, resultando em políticas e sistemas que atendem melhor às necessidades da comunidade e promovem resultados resilientes e equitativos.

O que tem se mostrado eficiente para impulsionar o progresso dessas agendas?

Estruturas políticas eficazes integram a igualdade de gênero à governança da água e do clima por meio de leis de apoio e mandatos práticos que vão além de diretrizes voluntárias.

Orçamentos sensíveis ao gênero desempenham um papel crítico para garantir que os recursos alcancem efetivamente mulheres e grupos marginalizados. Leis que institucionalizam a conexão gênero–água–saneamento–clima ajudam a incorporar essas prioridades como compromissos contínuos e responsáveis.

Mecanismos internacionais de financiamento climático, incluindo Green Climate Fund, Adaptation Fund e Loss and Damage Fund, são incentivados a ampliar seu apoio, oferecendo canais acessíveis para organizações lideradas por mulheres e criando janelas de financiamento dedicadas a iniciativas de gênero, água e saneamento. A SWA promove a adoção de métricas desagregadas por gênero e defende que investimentos em água e saneamento sejam tratados como soluções climáticas transformadoras que promovam equidade e resiliência sistêmica.

Essa abordagem se baseia na responsabilidade compartilhada: governos são convidados a incorporar a perspectiva de gênero nos processos nacionais de planejamento e orçamento de adaptação; o setor privado é incentivado a alinhar investimentos com metas climáticas inclusivas; e instituições multilaterais são chamadas a fortalecer métricas de gênero e medidas de responsabilidade, enfatizando especialmente o papel de países com pegadas de carbono substanciais na redução de emissões e apoio a populações vulneráveis.

Como a SWA trabalha para garantir que as estratégias vão além de compromissos e incluam ações mensuráveis?

A SWA fomenta parcerias multissetoriais robustas, indicadores de monitoramento transparentes e avaliação baseada em evidências. Com base no impulso da Sector Ministers Meeting 2025, realizada em outubro em Madri, e do Pacto de Líderes de Alto Nível para a Resiliência e o Acesso à Água, a SWA transforma compromissos políticos coletivos em resultados concretos. O Pacto reafirma os direitos humanos à água e ao saneamento e incentiva os países a usar dados detalhados para compreender quem está sendo deixado para trás – sejam mulheres e meninas, povos indígenas, comunidades rurais, pessoas com deficiência, refugiados ou moradores de assentamentos informais. Também enfatiza a importância da participação comunitária, responsabilidade social e abordagens sensíveis ao gênero. Essas considerações não são separadas; são essenciais para garantir que a ação climática entregue benefícios significativos, equitativos e duradouros.

Um relatório da ONU destaca que as mudanças climáticas intensificam tensões sociais e econômicas e agravam a violência contra mulheres e meninas. Como você enxerga essa relação?

Há uma ligação direta entre estresse climático, escassez de recursos e violência de gênero. Escassez de água e falhas na infraestrutura expõem mulheres a maiores riscos de exploração e abuso, incluindo “sextortion”, quando o acesso à água é condicionado a favores sexuais. Essa forma subnotificada de corrupção evidencia a interseção entre desigualdade de gênero e desequilíbrio de poder. Mais amplamente, a insegurança hídrica e o saneamento inadequado estão diretamente relacionados a assédio, violência doméstica e deterioração da saúde mental. Abordar essa relação entre clima e violências exige que os quadros de adaptação protejam explicitamente a segurança e a dignidade das mulheres, reconhecendo que prevenir a violência de gênero é essencial para construir resiliência real.

Olhando para o futuro, o que te dá esperança e quais mudanças urgentes ainda são necessárias para alcançar a igualdade de gênero diante da crise climática?

Há um reconhecimento crescente, tanto em políticas globais quanto locais, de que a liderança feminina é indispensável para a resiliência climática e hídrica, pois fortalece a adaptação comunitária, impulsiona mudanças políticas e promove a inclusão.

Ainda assim, a urgência é clara. Nações com pegadas de carbono substanciais devem tomar medidas decisivas para reduzir emissões e aliviar os fardos desproporcionais enfrentados por mulheres em comunidades vulneráveis. Instituições financeiras precisam fechar a lacuna de financiamento para sistemas WASH sensíveis ao gênero e garantir recursos acessíveis para organizações lideradas por mulheres. Governos precisam institucionalizar a adaptação transformadora de gênero em estruturas nacionais, apoiadas por indicadores mensuráveis e responsabilidade transparente. Mulheres e meninas não são vítimas passivas da crise hídrica, elas são centrais para suas soluções. Essa convicção orienta o trabalho da SWA na COP30 e além dela, transformando evidências em ações mensuráveis e equitativas para um futuro resiliente e justo. O que nos dá esperança é que muitas líderes mulheres, incluindo ex-presidentes e ministras, fazem parte do Leadership Council da SWA, e estão levando adiante o bastão, não apenas pelos direitos humanos, água e saneamento, mas para mostrar que, quando mulheres se unem, podem liderar, inovar e colaborar.

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