As edtechs brasileiras aprenderam a sobreviver com pouco dinheiro, equipes reduzidas e crescimento financiado pelo próprio faturamento. O desafio começa quando precisam transformar essa sobrevivência em escala. Embora 44,6% dessas startups estejam no mercado há mais de cinco anos, somente 15,7% chegaram ao estágio mais avançado de expansão.
Os dados fazem parte de um estudo da Associação Brasileira de Startups (Abstartups), em parceria com Universidade de São Paulo (USP), baseado em informações autodeclaradas por 368 edtechs ativas que integram o Mapeamento de Startups 2025.
O levantamento mostra que 66,3% das empresas nunca receberam qualquer tipo de investimento. Ao mesmo tempo, 51,4% têm no máximo cinco funcionários e apenas 0,8% ultrapassaram a marca de 100 colaboradores.
Para Cláudia Schulz, CEO da Abstartups, os números revelam uma combinação de resiliência e dificuldade de acesso a recursos para expansão.
“Os dados sugerem que os dois fenômenos coexistem, mas o acesso a capital parece ser o fator que mais pesa”, afirma. “Muitas edtechs operam com recursos próprios, no modelo bootstrap, financiando o negócio com recursos dos fundadores e com a própria receita, conseguindo permanecer ativas, mas enfrentando dificuldades para acelerar seu crescimento.”
O gargalo aparece depois da validação
A maior concentração de edtechs está nos estágios intermediários de desenvolvimento. Segundo o estudo, 29,5% estão em operação, 26,2% chegaram à tração e 20,9% permanecem na fase de validação. Outras 7,7% ainda estão na etapa de ideação.
Na avaliação de Schulz, o obstáculo mais difícil não é necessariamente desenvolver uma tecnologia educacional ou encontrar os primeiros clientes, mas construir uma operação capaz de crescer com velocidade.
“Os dados sugerem que o principal desafio não é criar uma solução, mas transformar um produto validado em um negócio escalável, com capacidade comercial, expansão de mercado e crescimento da operação”, diz.
Esse gargalo explica por que empresas relativamente maduras continuam pequenas. Quase três quartos das edtechs têm até dez colaboradores: 51,4% empregam entre uma e cinco pessoas e outras 22,8% possuem entre seis e dez funcionários. Somente 5,2% superaram a marca de 40 colaboradores.
Parte dessa estrutura enxuta está relacionada ao próprio modelo do setor. O software como serviço, conhecido pela sigla SaaS, é o formato de comercialização adotado por 42% das empresas. O trabalho remoto predomina em 49,4% das startups, enquanto 47,5% operam de maneira híbrida. Apenas 3,2% trabalham presencialmente.
Apesar dos ganhos de eficiência proporcionados por uma operação digital, a escassez de dinheiro também limita contratações, vendas e expansão.
“As edtechs são, por natureza, empresas digitais e frequentemente operam com modelos SaaS, home office e híbrido, características que favorecem estruturas mais enxutas”, afirma Schulz. “Muitas equipes permanecem pequenas não apenas por estratégia de eficiência, mas também pela limitação de recursos para expansão da operação.”
Capital chega no início, mas falta para crescer
Entre as edtechs que conseguiram captar recursos, o investidor-anjo aparece como a principal fonte de financiamento, com 43,6% das respostas. Recursos de familiares, amigos e fundadores representam 10,6%, enquanto programas de aceleração e fomento público aparecem com 9,6% cada.
Os fundos de investimento seed respondem por apenas 5,3% das fontes de capital mencionadas. O dinheiro internacional também é raro: somente 3,3% das edtechs que receberam aportes informaram que os recursos vieram de outro país.
O retrato sugere que o ecossistema consegue oferecer algum apoio na criação e na validação dos negócios, mas tem dificuldade para financiar as etapas seguintes. É nesse momento que as empresas precisam ampliar equipes comerciais, investir no desenvolvimento dos produtos e conquistar novos mercados.
“Os dados sugerem que o maior desafio não é o acesso ao capital inicial, mas ao capital voltado para crescimento”, afirma a CEO da Abstartups.
Segundo Schulz, faltam investimentos de venture capital, growth capital e investidores especializados em empresas de tecnologia educacional.
“O ecossistema parece oferecer apoio para o nascimento das edtechs, mas ainda apresenta um ‘vale’ entre a validação do modelo de negócio e a disponibilidade de investimentos suficientes para acelerar o crescimento nacional e internacional”, diz.
Negócios duradouros, mas ainda pequenos
A capacidade de permanecer no mercado é um dos pontos mais positivos do levantamento. Além das 44,6% que existem há mais de cinco anos, 26,4% operam há um período de quatro a cinco anos. Outras 29% foram fundadas nos últimos três anos.
A longevidade, porém, não significa que essas empresas estejam crescendo em ritmo acelerado. Modelos de receita recorrente, atuação em nichos e estruturas de baixo custo permitem que uma edtech mantenha a operação sem necessariamente expandir faturamento, equipe ou presença geográfica.
“O estudo mostra que sobrevivência e crescimento não são sinônimos”, afirma Schulz. “Essas empresas demonstram resiliência, mas permanecem em um patamar de operação estável, sem necessariamente expandir equipes, mercados ou volume de receita em ritmo acelerado.”
O desafio também aparece na internacionalização. Apenas 11% das edtechs afirmaram que já levaram seus negócios para outros países. A maioria, equivalente a 61,3%, ainda não atua no exterior, embora tenha interesse em dar esse passo.
No mercado doméstico, 38,1% vendem diretamente para outras empresas, enquanto 32,7% operam no modelo B2B2C, no qual comercializam soluções para companhias que atendem o consumidor final. As edtechs voltadas diretamente ao consumidor representam 23,4% da amostra. Somente 4,2% têm o governo como principal cliente.
A dificuldade de expansão não impediu as empresas de adaptar seus modelos. Segundo a pesquisa, 59,7% já fizeram ao menos uma mudança estratégica relevante no negócio. O número reforça a capacidade de reação das edtechs, mas também mostra que, para boa parte delas, encontrar um produto viável foi apenas a primeira etapa. O próximo teste será conseguir capital para crescer.