Tatiana Sampaio virou celebridade nacional no início do ano, quando se espalharam os resultados de testes preliminares da polilaminina – uma rede de proteínas que ela criou – em seres humanos. A substância levantou fortes esperanças de reverter lesões na medula e fazer com que pessoas paralisadas recuperem movimentos.
A descoberta, diz a coordenadora do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular da UFRJ, ocorreu meio por acaso, quando fazia experimentos com a laminina (uma proteína natural que, na formação embrionária, atua como um “trilho” para guiar os neurônios e conectar o cérebro ao resto do corpo). “A laminina é como um colar de pérolas: quando arrebenta, ficam só as pérolas soltas”, explica a cientista de 59 anos, um dos destaques da lista Forbes Mulheres Mais Poderosas de 2026. “De repente, vi que as ‘bolinhas’ formavam o colar novamente. Aí comecei a pensar em como aquilo poderia virar um medicamento.”
Formada em ciências biológicas pela UFRJ, com mestrado e doutorado na área, Tatiana herdou da família a busca por soluções inusitadas: cresceu com uma avó cientista, uma tia-avó bióloga e um pai filósofo. “As pessoas perguntam de onde veio essa ideia de ser mulher cientista, e para mim isso foi natural.”
A pesquisa começou em 1998, mas nenhuma grande indústria quis conduzir o estudo clínico. A saída para os seguidos “nãos” foi realizar a testagem de forma acadêmica na UFRJ. “Fazer um estudo clínico com uma droga nova, que precisa ser injetada na medula espinhal, em pacientes críticos, sem patrocinador, é algo muito difícil. E a gente fez assim mesmo.” Para a produção da molécula em si, o projeto contou com a parceria do laboratório Cristália, firmada em 2021. Desde então, ele já investiu R$ 100 milhões na pesquisa.
Para chegar ao ponto de hoje, o trabalho começou com células isoladas. Em seguida, experiências com ratos. Depois, testes em cães. No último destes, diz, “vimos sinais de melhora dois meses depois da aplicação, em animais que tinham parado de apresentar evolução com a fisioterapia”.
Um teste preliminar com humanos, divulgado em setembro passado, foi também animador. Seis dos oito pacientes paraplégicos e tetraplégicos recuperaram parte dos movimentos. Um deles voltou a andar. “Ninguém esperava”, diz Tatiana. “Cinco meses depois da aplicação, ele devolveu a cadeira de rodas.”
Em janeiro, a Anvisa autorizou o início de um estudo clínico oficial para avaliar a segurança do uso da polilaminina em humanos. Se as três fases de testes forem bem-sucedidas, o medicamento poderá estar disponível em até cinco anos.
Tatiana mantém as aulas que dá na UFRJ desde seus 28 anos. “Agora existe uma certa empolgação para ser meu aluno. Em agosto, a minha sala já estava lotada.” A pesquisadora divide sua rotina acadêmica com uma vida tranquila no bairro de Laranjeiras. “Meu programa ideal é ouvir música, de preferência ao ar livre, tomar uma cerveja e ir à praia.”
A fama recente, no entanto, já a faz ser reconhecida nas ruas. “As pessoas chegam tremendo, como se eu tivesse um dom de cura.” Sobre a esperança que suscita, afirma: “É uma responsabilidade muito grande. Vou tentar não decepcionar”.
A seguir, Tatiana Sampaio detalha os bastidores do estudo da polilaminina, reflete sobre a carreira na ciência e compartilha o impacto de suas descobertas.
Confira os destaques da entrevista com Tatiana Sampaio
Forbes: O que já mudou na sua vida com a visibilidade dos resultados da polilaminina?
Tatiana Sampaio: No ano passado, já vinha tendo reconhecimento, inclusive dentro da própria universidade. Quando dei aula em agosto, a sala já estava lotada. Mas ainda era algo mais restrito, talvez a uma bolha de pessoas da área acadêmica ou que acompanham páginas de pesquisa.
No Carnaval, mudou muito. Teve aquela história da Virgínia, que publicaram algo sobre ser a mulher mais influente do Brasil, e aí começou uma movimentação dizendo que era eu. As pessoas passaram a querer saber quem eu era.
Mas a sua rotina mudou também?
Se eu saio na rua, por exemplo, ali no Largo do Machado para comprar alguma coisa, vem muita gente falar comigo. O curioso é que as pessoas chegam emocionadas. Muitas estão chorando ou tremendo. Às vezes a pessoa chega perto de mim como se eu fosse uma entidade, algo extraordinário.
Para mim isso é muito estranho, porque eu não me vejo assim. Sou a mesma pessoa de sempre. Mas, para quem não me conhecia, parece que surgiu uma expectativa muito grande, como se eu fosse uma pessoa com algum tipo de dom de cura. E não é isso. A gente precisa ajustar essas expectativas, mas é difícil controlar.
Por outro lado, quando alguém diz que me admira por ser persistente ou por estar ajudando a dar esperança para outras pessoas, isso eu não posso negar. É uma responsabilidade muito grande. Me deixa desconfortável, mas, se isso caiu para mim, vou tentar não decepcionar.
O que te levou, lá atrás, a escolher esse caminho na ciência? Teve alguma inspiração?
Não teve nada muito específico. Gostava de biologia na escola e tive uma tia-avó que era bióloga e cientista. Minha avó também era cientista. Às vezes, as pessoas perguntam de onde veio essa ideia de ser mulher cientista, e para mim isso sempre foi natural. Cresci vendo isso na família e sempre vivi em um ambiente de busca por conhecimento.
Seu pai é filósofo. Qual foi a influência dele no seu método de trabalho e na forma de pensar soluções?
Meu pai era engenheiro e economista de formação. Ele foi migrando para a filosofia ao longo da vida porque sempre gostou, mas vinha de uma família pobre, então não ia fazer faculdade de filosofia na década de 1950.
Ele pensava o mundo como algo integrado, sempre buscava sentido nas coisas. Dizia: “Não quero fazer uma filosofia de elucubrações, quero lidar com a realidade. Se não se aplica a nada, não tem graça.”
Esse chamado para manter o pensamento, o trabalho e os objetivos sempre conectados com a realidade foi algo que aprendi com ele. Seja o que for que você faça, não pode se desconectar da realidade ou ir para algo estratosférico.
Como você aplicou esse pensamento na ciência?
Comecei na ciência básica, e depois isso acabou tendo aplicação na realidade das pessoas. Mas buscar isso foi uma escolha. Poderia ter seguido na ciência básica, sem aplicação direta, e talvez ter tido mais sucesso ao longo da vida.
Hoje tenho reconhecimento, mas nem sempre foi assim. Passei por momentos em que não tinha muito retorno, e isso vem de uma decisão de sair do lugar comum, de deixar de fazer o esperado para tentar algo diferente e buscar essa realização.
Hoje, o que você prefere: dar aula ou trabalhar no laboratório?
Dar aula é uma coisa curiosa porque, quando você está indo dar aula, muitas vezes acha que vai ser chato — você está fazendo outra coisa e precisa parar para ir lá. Mas, quando saio, sempre penso: “Ainda bem que eu vim”.
É muito gratificante, especialmente quando você sente que a aula foi boa. É claro que às vezes acontece de os alunos não estarem engajados, mas, quando você consegue envolver a turma, é muito recompensador.
Além disso, é um retorno mais imediato. No laboratório, os resultados demoram mais. Mas você também ensina, porque tem alunos de pós-graduação trabalhando com você o tempo todo. Ensinar não acontece só na sala de aula.
Desde que você ficou famosa, os alunos estão mais empolgados com suas aulas?
Sim, eles ficam com uma cara meio de bobos. Dou aula nos primeiros períodos, então tenho turmas com jovens de 17 anos. A pessoa chega no início da faculdade e pensa “nossa, aquela que está no Instagram vai ser minha professora”. Existe uma certa empolgação.
Fora do trabalho, qual é o seu fim de semana ideal no Rio?
Sou uma pessoa muito simples. Moro em Laranjeiras, é um bairro com muita coisa perto. Tem a Lapa, que tem uma vida noturna bem agitada, e também o Largo do Machado, a Praça São Salvador, faço tudo a pé. Tem forró no coreto, tem chorinho ao ar livre. Meu programa ideal é ouvir música, de preferência ao ar livre, tomar uma cerveja e ir à praia. Não gosto de nada sofisticado nem grandioso.
Qual seu bar favorito?
É o Vaca Atolada, um bar com música, muito perto da minha casa, que fica aberto até tarde. Como eu saio do trabalho normalmente depois das 22h, não dá mais para ir ao cinema ou ao teatro, então, acabo indo para o bar. Lá é um lugar onde posso ir sozinha, sem precisar combinar com ninguém. Chego e já encontro pessoas conhecidas.
Olhando para a sua trajetória de carreira, qual foi o momento mais desafiador e que te trouxe até aqui?
A etapa mais difícil foi fazer um estudo clínico. Normalmente, esses estudos são feitos pela indústria farmacêutica. A gente pensou em licenciar a proposta para uma grande indústria conduzir o estudo, mas não conseguimos. Por conta desse “não”, decidimos fazer um estudo clínico acadêmico, dentro da universidade. Isso é muito incomum, principalmente para um medicamento que é aplicado por injeção intramedular, um procedimento ousado e com riscos.
Fazer um estudo clínico com uma droga nova, injetável, em pacientes críticos, sem patrocinador, é algo muito difícil. E a gente fez assim mesmo. Foi com pouco dinheiro e muito amor, meu e de muitas outras pessoas. Foi uma equipe grande, com muito trabalho voluntário. Todo mundo acreditava que precisava tentar.
Como você definiria o que é a polilaminina?
É um medicamento com base em uma proteína natural do corpo, a laminina, que forma uma espécie de malha. Durante o desenvolvimento do embrião, os axônios — estruturas que conectam o cérebro ao restante do corpo — crescem sobre esses “trilhos” de laminina. Depois, essa estrutura desaparece.
Em casos de lesão medular, ela já não está presente, o que impede o crescimento dos axônios de novo. Nossa descoberta foi encontrar uma forma de reorganizar essa proteína para recriar essas malhas de maneira induzida artificialmente.
É como um colar de pérolas: quando ele arrebenta, as pérolas ficam soltas. O que fizemos foi encontrar uma forma de fazer essas pérolas se organizarem de novo, permitindo que a proteína seja usada de forma terapêutica.
Existe apenas um tipo de polilaminina ou são vários?
Existem diferentes lamininas e, portanto, diferentes polilamininas. No caso da laminina, existem várias isoformas porque cada uma é mais apropriada para uma função específica. Por exemplo, nos vasos sanguíneos existem lamininas chamadas 511 e 411. Você não vai encontrar outra ali. Já em outros tecidos, como rim ou retina, aparecem outras isoformas.
O que muda é de um tecido para outro: o que tem no músculo é diferente do que tem na pele, no vaso sanguíneo ou no cérebro. A gente entende que isso não é por acaso. A evolução provavelmente selecionou a melhor isoforma para cada função.
Nos estudos que a Cristália está conduzindo, a gente usa uma mistura das isoformas 211 e 221. Mas é possível produzir polilamininas a partir de diferentes isoformas. O método que a gente descobriu para transformar as “pérolas” em “colar” funciona com diferentes tipos — pérola branca, preta, rosa. Pelo menos com todas as que testei, funcionou.
Teve um momento “eureca”, quando você percebeu o potencial da polilaminina?
Quando observei a formação desses complexos, estava trabalhando com a laminina em outros tipos de estudo. De repente, vi que as “bolinhas” se juntavam e formavam o colar novamente. A partir daí, comecei a investigar as funções e pensar em como aquilo poderia ser usado como medicamento.
A perspectiva [de poder ajudar na recuperação de movimentos] surgiu logo nesse momento “eureca”. Mas existe uma diferença entre ter uma ideia e ter uma ideia fundamentada. Esse processo de fundamentação é o que leva tempo.
Nos testes em humanos, o caso mais famoso foi o do Bruno Drummond, que estava paralisado do ombro para baixo e voltou a andar. Como foi esse processo?
Ninguém esperava que ele fosse voltar a andar. Foram muitos momentos de surpresa. Primeiro, quando ele começou a se movimentar. Depois, quando vimos que esses movimentos estavam voltando gradativamente. A cada conquista, a gente ia monitorando e acompanhando, e ele foi evoluindo rápido. Devolveu a cadeira de rodas cinco meses depois da aplicação.
Você tem alguma dúvida de que o medicamento seja o grande responsável pela evolução do Bruno?
Se você pensar cientificamente, não há outra explicação. A gente só trata pessoas com lesão completa, ou seja, sem nenhuma preservação de condução. No caso dele, foi feito o exame eletrofisiológico, que mostra que não há passagem de sinal nenhum.
Na literatura, a taxa de recuperação de parte dos movimentos esperada nesses casos é de 10%. Alguém pode dizer: “ele foi esse 1 em 10, foi uma exceção”. Mas não acontecia de a pessoa voltar a andar. Podia ter pequenas movimentações, mas voltar a andar, realmente, não havia relatos.
Você espera outros casos como esse pela frente?
Espero. Acho que o que fez diferença no caso dele foi a fisioterapia desde o início. Ele estava em um hospital muito bom e não teve intercorrências.
Na fase aguda, a pessoa com lesão medular costuma ter muitos problemas. Pode haver infecções, dificuldade de manter a pressão sanguínea, escaras, fístulas, trombose e muitas complicações que limitam a movimentação. Além disso, nem sempre há fisioterapia de boa qualidade no hospital.
O resultado depende muito do pós-cirúrgico e do acompanhamento de reabilitação. É um reaprender que exige estímulo e tratamento especializado para alcançar um resultado melhor. Não dá para dizer que o Bruno melhorou por causa do atendimento hospitalar. Mas dá para dizer que quem tem a melhor reabilitação tende a ter a melhor recuperação.
Quem tem uma condição financeira melhor tem mais acesso e consegue melhores resultados. Quem não tem, fica à mercê da recuperação espontânea.
Antes dos testes em humanos, como foi a fase com animais?
Primeiro, trabalhamos com células isoladas. Como funcionou, passamos para modelos de lesão medular em ratos e, depois, fizemos um estudo em cães. Vimos que era seguro e, a partir daí, avançamos para os testes em humanos.
Nos testes com animais, quanto tempo levou para eles recuperarem algum movimento?
Temos dois estudos em cães. Um anterior aos testes em humanos, focado em segurança, e outro posterior, focado em eficácia.
No primeiro, alguns animais recuperavam a movimentação depois de alguns meses, em torno de dois a quatro meses. Mas esse estudo não foi desenhado para avaliar a eficácia da polilaminina, porque envolvia cirurgia e outras intervenções ao mesmo tempo. Não dava para atribuir a melhora exclusivamente ao tratamento.
Já no estudo mais recente, publicado em 2025, o desenho foi feito para avaliar a eficácia. Nesse caso, monitoramos a locomoção dos animais por cinco a seis meses. Quando eles atingem um platô, ou seja, não melhoram mais com a fisioterapia, fazemos a aplicação. Em cerca de um mês, já aparecem sinais de melhora. Em dois meses, isso fica mais evidente.
Essa melhora significa voltar a ter movimento e, em alguns casos, voltar a andar. Mas é importante dizer que usamos animais com diferentes graus e tipos de lesão. Não é possível afirmar que todos voltaram a andar, cada caso tem uma resposta diferente.
Hoje, há pesquisadores ao redor do mundo estudando a laminina para outras aplicações. Existe o risco de que essas equipes passem na frente da pesquisa de reversão da paraplegia?
Os grupos que estudam a laminina fora do Brasil são pesquisadores que estão usando em outros modelos. Se estão usando exatamente a mesma polilaminina, depende de cada caso. Mas não têm uma conexão com a indústria.
Nesse momento, produzir polilaminina não é fácil. Dá para fazer em pequena escala, mas em grande escala é bastante complexo. Precisa de um investimento tecnológico industrial grande, que é o que a Cristália está fazendo. Não é algo que um pesquisador, sozinho, no laboratório, consiga fazer com facilidade.
*Reportagem original publicada na edição 138 da Forbes, lançada em fevereiro de 2026.