Centenas de funcionários do Google e da OpenAI assinaram uma carta aberta expressando apoio à recusa da Anthropic em cumprir a exigência do Pentágono de acesso irrestrito às suas ferramentas de IA, pressionando os líderes de suas próprias empresas a também manterem “linhas vermelhas” semelhantes e recusarem as demandas do Departamento de Defesa.
Até a tarde de sexta-feira, a petição intitulada “Não Seremos Divididos” foi assinada publicamente por 381 funcionários do Google e 71 da OpenAI.
Citando uma reportagem da Axios, a carta acusa o Departamento de Defesa de pressionar a Anthropic por “não permitir que seus modelos sejam usados para vigilância em massa doméstica e para matar pessoas de forma autônoma, sem supervisão humana”. O documento observa que o Pentágono está negociando atualmente com o Google e a OpenAI “para tentar convencê-los a aceitar o que a Anthropic recusou”.
Os signatários acusam o Pentágono de tentar “dividir cada empresa com o medo de que a outra ceda” e afirmam: “Esta carta serve para criar um entendimento comum e solidariedade diante desta pressão”. A petição então pede que os líderes da OpenAI e do Google “deixem de lado suas diferenças e se unam para continuar recusando” as exigências do Pentágono.
O que a Anthropic disse sobre o embate com o Pentágono?
O governo dos Estados Unidos tem pressionado a Anthropic a retirar mecanismos de segurança do Claude até esta sexta-feira, 27. Se a empresa não atender às exigências, poderá ser excluída da cadeia de suprimentos do Pentágono e definida como um “risco à cadeia de suprimentos”, abrindo brechas para que o governo recorra à Lei de Produção de Defesa — usada na Guerra Fria para dar ao presidente controle da indústria nacional sob o argumento de defesa do país.
Em um comunicado divulgado na quinta-feira, o CEO da Anthropic, Dario Amodei, reforçou suas restrições e disse que sua empresa “não pode, em sã consciência, ceder” ao pedido do Pentágono para remover suas proteções e permitir “qualquer uso legal” de suas ferramentas de IA. O comunicado detalhou o trabalho que a Anthropic realizou para implementar seus modelos para as forças armadas e a comunidade de inteligência dos EUA, mas afirmou acreditar que existe um “conjunto restrito de casos em que a IA pode minar, em vez de defender, os valores democráticos”.
Como resultado, seus contratos com o Departamento de Defesa incluíram duas salvaguardas que impedem o uso de sua IA em “vigilância doméstica em massa” e “armas totalmente autônomas”, onde nenhum envolvimento humano é necessário para a ativação.

“A vigilância em massa impulsionada por IA apresenta riscos sérios e inéditos às nossas liberdades fundamentais. Na medida em que tal vigilância é atualmente legal, isso ocorre apenas porque a lei ainda não acompanhou as capacidades de crescimento rápido da IA”, disse Amodei em seu comunicado. Ele também acrescentou: “Hoje, os sistemas de IA de fronteira simplesmente não são confiáveis o suficiente para alimentar armas totalmente autônomas. Não forneceremos conscientemente um produto que coloque em risco os combatentes e civis da América.”
Sean Parnell, porta-voz do Pentágono, negou as afirmações em uma postagem no X, dizendo que o Departamento de Defesa não tem interesse em usar os modelos da Anthropic para essa finalidade, reforçando a ilegalidade da ação.
Desde 2024, a Anthropic disponibiliza o Claude para órgãos de inteligência e defesa dos Estados Unidos. Segundo o Wall Street Journal, militares norte-americanos teriam recorrido à tecnologia em operação realizada na Venezuela, levando à captura de Nicolás Maduro.
União entre profissionais da área
Na quinta-feira, o New York Times informou que mais de 100 funcionários do Google que trabalham com IA assinaram uma carta interna à liderança da empresa, levantando preocupações sobre o plano do Pentágono de usar suas ferramentas de IA. A carta enviada a Jeff Dean, cientista-chefe da divisão de IA do Google, DeepMind, pressionou a empresa a ecoar as exigências da Anthropic. “Por favor, façam tudo o que estiver ao seu alcance para impedir qualquer acordo que cruze essas linhas vermelhas básicas… Adoramos trabalhar no Google e queremos ter orgulho do nosso trabalho”, dizia a carta, segundo relatos.