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Axon Diz Que Relatórios Policiais com IA Economizam Tempo, Mas Registros Públicos Dizem o Contrário

Mais de 600 mil boletins de ocorrência foram escritos com a ajuda de IA, mas registros mostram que policiais gastam tempo de mais corrigindo erros

12 min

Em Lafayette, no estado de Indiana — uma cidade pequena com pouco mais de 70 mil habitantes –, a polícia local decidiu testar uma nova ferramenta de IA vendida pela gigante de tecnologia policial Axon, empresa avaliada em US$ 35 bilhões no mercado e famosa pela fabricação do Taser. Chamada Form One, a ferramenta prometia poupar o tempo dos agentes ao escutar o áudio de suas câmeras corporais para preencher os detalhes administrativos do boletim de ocorrência: nomes de policiais e cidadãos, documentos de identidade, placas de carros e outras informações do veículo. Para os capitães de Lafayette, que já haviam trabalhado lado a lado com a Axon em projetos anteriores de IA, a escolha parecia um caminho óbvio.

Mas, após sete meses testando a tecnologia, muitos policiais de Lafayette constataram que a ferramenta estava fazendo com que perdessem tempo, em vez de economizá-lo. “Eu sei que isso não me poupa tempo e sei que há imprecisões que terei de editar”, escreveu um agente em um lote de e-mails obtido pela Forbes por meio de uma solicitação de acesso à informação. O Form One tinha dificuldades para registrar os nomes ou placas corretos, mesmo quando eram falados claramente nas gravações das câmeras, segundo outros e-mails. Um policial relatou que um formulário simples, que levava 30 segundos para ser preenchido manualmente, agora leva três minutos com o Form One devido à quantidade de erros. “O Form One aumenta drasticamente o tempo necessário para concluir os relatórios”, escreveu ele a um colega.

A burocracia do dia a dia é exatamente o tipo de tarefa simples em que se espera que um modelo de inteligência artificial mande muito bem. Os policiais passam até 15 horas por semana preenchendo boletins e relatórios, segundo dados da própria Axon. Esses documentos ficam arquivados para consultas futuras ou são enviados aos promotores, que decidem se dão andamento às acusações formais, tornando-os uma peça-chave do sistema de justiça criminal. Contudo, esses relatórios precisam ser precisos, e o processo de revisar o trabalho feito pela IA para garantir esse padrão tem se tornado um fardo pesado para alguns agentes.

A porta-voz da Axon, Victoria Keough, afirmou que o Form One está em fase de acesso antecipado, feita justamente para que os órgãos policiais enviem seus retornos antes de o produto ser lançado em escala comercial. Ela ressaltou que os policiais mantêm controle total sobre a versão final do relatório. O sargento Matthew Santerre, de Lafayette, confirmou que os e-mails obtidos pela Forbes eram da fase de testes, escritos por agentes a quem se pediu explicitamente que dissessem o que poderia ser aprimorado na ferramenta. Ele afirmou que diversos problemas apontados pelos policiais foram resolvidos depois, mas não respondeu às perguntas de acompanhamento sobre o que exatamente foi corrigido. O departamento ainda não definiu se usará o Form One a longo prazo.

O Form One é o complemento mais recente do carro-chefe da Axon em IA, o Draft One, lançado pela empresa em 2024. Enquanto o Form One preenche nomes e endereços, o Draft One redige a narrativa do que aconteceu durante o incidente. A Axon afirma que ele já é utilizado por 600 departamentos de polícia nos EUA e ajudou a elaborar 600 mil boletins de ocorrência, poupando um tempo estimado em 300 mil horas, segundo pesquisas feitas com seus próprios clientes.

O único estudo baseado em dados reais sobre relatórios policiais redigidos por IA coloca em xeque quanto tempo a ferramenta da Axon realmente economiza. Em uma pesquisa publicada em 2024 no Journal of Experimental Criminology, Ian Adams, ex-policial e professor de criminologia na Universidade da Carolina do Sul, analisou o uso do Draft One pelo Departamento de Polícia de Manchester, em New Hampshire. Adams analisou os registros de horário de quando os agentes começavam a escrever o boletim e quando o finalizavam. Apenas parte do contingente tinha acesso ao software. O estudo concluiu que não houve melhoria no tempo total de conclusão dos relatórios, pois os policiais gastavam um tempo considerável lapidando o texto da IA: removendo detalhes irrelevantes, corrigindo erros e acrescentando fatos cruciais que o sistema deixava passar. “Era simplesmente mais fácil eles mesmos digitarem o relatório do zero”, afirma o tenente Matthew Barter, de Manchester, que participou da pesquisa.

“A IA é o maior catalisador de crescimento que a Axon já teve.”

— Rick Smith, CEO da Axon

Os pesquisadores também entrevistaram os policiais que usavam a ferramenta. Apesar do que os dados demonstraram, cerca de metade dos agentes de Manchester acreditava que o Draft One havia agilizado a escrita das ocorrências. “Existe um abismo claro entre a percepção e a realidade dos fatos”, diz Adams. Embora tenha sido o primeiro departamento a testar o Draft One da Axon, Manchester engavetou o programa em 2024. No mesmo ano, o Departamento de Polícia de Anchorage, no Alasca, também resolveu abandonar a ferramenta, alegando ganho de tempo zero.

O porta-voz da Axon, Alex Engel, afirma que o estudo de Manchester trouxe “um recorte histórico interessante”, mas que “suas conclusões se baseiam em narrativas geradas por IA em 2024 por uma única instituição”. “A capacidade da IA e o próprio Draft One evoluíram significativamente nos últimos dois anos, e avaliar a qualidade de uma versão antiga do produto não deve servir de regra para o funcionamento atual do Draft One nas demais delegacias”, acrescenta Engel. Não existem estudos recentes revisados por pares que testem se a tecnologia realmente se aprimorou na escrita de relatórios policiais.

“A IA é o maior catalisador de crescimento que a Axon já teve”, escreveu o CEO Rick Smith em uma carta aos acionistas no início deste ano. O Form One e o Draft One fazem parte do plano “AI Era” da Axon, que concede à polícia acesso a diversos produtos de IA, como tradução de idiomas em tempo real e ferramentas de visão computacional para ajudar os agentes a rastrearem pessoas e objetos em gravações de vídeo. O serviço custa US$ 199 por policial ao mês. Smith afirma que a Axon fechou cerca de US$ 750 milhões em contratos do plano AI Era no ano seguinte ao lançamento do Draft One, no final de 2024 — valor que se refere ao potencial acumulado dos contratos ao longo de vários anos. Em seus resultados financeiros mais recentes do primeiro trimestre de 2026, a empresa informou que a receita com produtos de IA saltou mais de 700% no comparativo anual. A companhia, porém, não divulgou os números brutos de vendas para detalhar quanto suas ferramentas de IA estão faturando de fato.

Muitos policiais relatam ver vantagens no uso da IA que vão além da economia de tempo. Greg Daly, chefe do Departamento de Polícia de Avon, no Colorado, usa uma combinação do Draft One com outros dois produtos das startups Truleo e Code Four. Ele afirma que o conjunto de ferramentas de IA aliviou o fardo burocrático da confecção das ocorrências. “Você pode voltar no final do plantão e ter uns cinco ou seis boletins para fazer”, diz Daly. “Esses relatórios precisam ser entregues à Promotoria, e isso pode ser muito estressante… Chegar à delegacia e já ter rascunhos ou a ossatura do relatório pronta para trabalhar ajuda demais e traz um alívio enorme para a saúde mental dos agentes.”

“É o tipo de erro que pode realmente colocar em xeque a credibilidade de um policial quando ele está no tribunal.”

— Daniel Clark, promotor de King County

No entanto, confiar demais na IA traz o risco de deixar os agentes acomodados. De acordo com um e-mail de março de 2025 obtido pela Forbes, a Axon perguntou ao Departamento de Polícia de Lafayette se poderia usar alguns depoimentos em materiais promocionais do Draft One. O pacote incluía a fala de um policial que, em entrevista à equipe de comunicação da Axon, disse que escrevia relatórios em casa “porque não tenho tempo para terminar no trabalho… Hoje à noite vou passar o tempo com minha família em vez de ficar escrevendo ocorrências.” A chefia de Lafayette não gostou do comentário e pediu para a Axon tirar a citação do seu comunicado de imprensa. A declaração do agente era “um belo exemplo de preguiça pura”, cravou um sargento.

A preocupação de que a IA leve ao desleixo fez com que algumas jurisdições avisassem que não aceitarão relatórios gerados por computador como prova. Em 2024, a Promotoria de King County, no estado de Washington, informou aos órgãos policiais que recusaria relatórios feitos com o auxílio de IA devido às “alucinações” do sistema. Daniel Clark, promotor de King County, contou à Forbes que já viu a IA errar nomes de testemunhas e agentes, ou colocar policiais na cena do crime quando eles estavam apenas conversando pelo rádio. “É o tipo de erro que pode realmente colocar em xeque a credibilidade de um policial quando ele está no tribunal, expondo o agente ao risco de ser taxado de preguiçoso, desleixado ou desonesto”, explica Clark. “Nenhuma dessas opções é aceitável.”

Diversas startups lançaram suas próprias versões da ferramenta Draft One, da Axon. A Abel Police, ex-integrante da aceleradora Y Combinator e que já captou US$ 5 milhões em investimentos, analisa não apenas o áudio, mas também as imagens das câmeras corporais. O fundador e CEO, Daniel Francis, afirma que sua ferramenta consegue descrever a emoção, a idade aproximada e a etnia de uma pessoa com base nesses vídeos. A Code Four, outra startup da Y Combinator fundada pelos jovens George Cheng e Dylan Nguyen — que largaram o MIT ainda adolescentes –, vende uma ferramenta similar para policiais e já arrecadou US$ 2,5 milhões em aportes. A diferença é que a tecnologia da Code Four cruza os relatórios gerados por IA com outros bancos de dados da polícia para buscar pistas investigativas rapidamente. Isso abre portas para que a IA crie um boletim e, em seguida, cruze dados entre alguém presente na ocorrência e passagens anteriores dessa pessoa pela polícia.

“Isso está transformando o que deveria ser um mecanismo de prestação de contas em mais uma ferramenta de vigilância em massa.”

— Calli Schroeder, advogada sênior do Electronic Privacy Information Center

Anthony Tassone, CEO da fornecedora de tecnologia policial Truleo, acredita que relatórios gerados por IA vão “prejudicar o trabalho policial”. A IA, seja olhando por uma lente ou ouvindo por um microfone, não tem o contexto e o raciocínio crítico de um policial humano, argumenta. Para ele, rascunhos feitos por IA são “piores do que começar [com] uma folha em branco, porque agora você deu à polícia um relatório viciado”. A Axon e a Abel “venderam um monte de conversa fiada para a polícia”, dispara.

A Truleo é uma das poucas empresas que adotam uma abordagem diferente: sua ferramenta de IA não escreve a narrativa do zero como o Draft One, mas funciona como um assistente no processo de elaboração do documento. O policial começa a escrever ou a ditar o relatório, e a IA edita e formata tudo corretamente, além de apontar fatos que os agentes possam ter deixado passar nas gravações das câmeras. O Departamento de Polícia de Manchester está testando um agente de IA desse tipo, desenvolvido pela startup californiana PoliceNarratives.AI. Embora a polícia ainda não tenha concluído o estudo sobre a eficácia da ferramenta, o tenente Barter afirma que os resultados parecem “promissores”.

Integrar a IA às câmeras corporais é a espinha dorsal de todas essas ferramentas. No entanto, isso também significa que a inteligência artificial agora detalha os momentos mais angustiantes e íntimos dos cidadãos, mesmo quando se trata de partes inocentes ou de menores de idade. Um lote de relatórios de ocorrências gerados por IA, obtido pela Forbes junto ao Departamento de Polícia de Richmond, na Califórnia, inclui inúmeros chamados em escolas onde houve bullying contra alunos e professores sem que houvesse crime, casos de morte por causas naturais e descrições detalhadas e explícitas de agressões sexuais.

“Isso está transformando o que deveria ser um mecanismo de prestação de contas em mais uma ferramenta de vigilância em massa”, diz Calli Schroeder, advogada sênior do Electronic Privacy Information Center e diretora de seu Programa de IA e Direitos Humanos.

Em um dos relatórios dos arquivos da polícia de Richmond, a IA narrou um incidente no qual um estudante adolescente digitou em seu notebook uma frase do desenho animado Bob Esponja: “Gary, tem uma bomba presa ao meu peito!”. Um colega de classe interpretou mal a frase, achando que era uma ameaça real, e avisou a direção da escola, que acionou a polícia. O policial chegou ao local e rapidamente concluiu que não passava de um mal-entendido. Mas a IA não esquece. De acordo com o relatório, a ocorrência ficaria “registrada para futuro rastreamento de padrões”.

*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com

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