Todos nós vimos os bilhões que investidores estão injetando em robôs humanoides. No momento, cerca de US$ 300 bilhões estão sendo investidos em gastos no ecossistema, o que inclui a NEURA Robotics — que acabou de captar US$ 1,4 bilhão –, a Figure, a Apptronik e um novo unicórnio europeu.
A maioria desses robôs, além de outros dos principais fabricantes chineses, como Agibot, UBtech e Unitree, já está trabalhando em fábricas, geralmente em projetos-piloto de demonstração, mas nem sempre. O G2 da Agibot está operando em uma linha de produção real, algo que a empresa transmitiu ao vivo recentemente.
Já vimos até a primeira greve por causa de robôs humanoides: uma paralisação na Hyundai motivada, ao menos em parte, pelo medo de que robôs tomem os empregos das pessoas.
Então vem a grande questão: estamos diante do futuro da manufatura ou isso tudo não passa de mais um ciclo de alarde passageiro na tecnologia?
Essa pergunta foi feita a Jeff Burnstein, que passou mais de quatro décadas na Association for Advancing Automation e atua como presidente da entidade há 19 anos. Ele acompanhou o setor evoluir desde os primeiros braços robóticos industriais até as máquinas guiadas por IA que estão sendo construídas hoje.
Ele não está eufórico, mas também não descarta totalmente a ideia. “Acho que estamos atolados no ciclo do hype”, disse Burnstein. “Não provamos nada além de alguma produção… o único humanoide em produção nos EUA de que tenho conhecimento é um robô da Agility em uma fábrica da GXO Logistics.”
Mas ele também está atento ao ritmo impressionante da inovação. Em apenas alguns anos, passamos de robôs com garras para robôs capazes de fritar ovos e isolar fios com fita adesiva. “A IA está mudando isso muito rápido”, acrescenta ele. “Eu entendo isso. A inteligência desses robôs pode se aprimorar muito mais rápido do que imagino. A destreza pode melhorar muito mais cedo.”
O choque de realidade
A maior parte do que está acontecendo com robôs humanoides em fábricas se resume a projetos-piloto. E esses pilotos, segundo Burnstein, estão alcançando apenas algo entre 20% e 50% de eficácia. “Isso não é suficiente. Os clientes precisam de 99 vírgula alguma coisa por cento para ter certeza de adotar essas tecnologias.”
(Curiosamente, a startup britânica Humanoid está atingindo cerca de 80% da velocidade humana em algumas tarefas manuais e tem como meta chegar aos 100% e além.)
O ponto principal é que os fabricantes não estão nem aí se o robô tem duas pernas e um rosto. Ou rodas, aliás. “O que ouço dos clientes é: ‘Olha, precisamos de uma solução. Se esta for uma solução melhor do que os robôs existentes ou do que nenhum robô, para nós está ótimo'”, disse Burnstein. “Só precisamos de coisas que funcionem, que sejam comprovadamente confiáveis e acessíveis.”
O maior obstáculo individual para a adoção? Não é a inteligência nem a destreza, embora ambas sejam necessárias. É a segurança.
Ainda não existe um padrão de segurança para robôs humanoides e, até que haja um, Burnstein não prevê um crescimento acelerado. “Não acho que as seguradoras vão ficar felizes. Não acho que a OSHA [órgão de segurança do trabalho nos EUA] vá ficar feliz.” A maioria dos robôs humanoides em operação, senão todos, é mantida isolada das pessoas por portões ou cercas. E um único acidente inicial com um humanoide poderia congelar o mercado inteiro.
Os robôs industriais tradicionais — massivos, rápidos, feitos sob medida e com precisão cirúrgica — já realizam uma quantidade enorme de trabalho, e isso continuará crescendo. Os humanoides vão dar as caras em fábricas, armazéns, logística, fazendas e residências. Mas é provável que não vejamos uma fábrica com 10.000 humanoides, diz Burnstein. Haverá alguns; a questão é quantos.
A questão dos robôs e dos empregos, invertida
O que nos leva, é claro, à questão dos empregos. Um ponto de vista comum é que a IA parece estar vindo atrás dos empregos de colarinho branco (de escritório) e os robôs atrás dos de colarinho azul (braçais). E talvez todos nós terminemos recebendo algum tipo de renda básica universal.
Burnstein responde a variações dessa pergunta sobre robôs e empregos desde 1983, e os dados dele apontam na direção contrária.
A A3 acompanha as vendas de robôs em relação ao emprego nos EUA há mais de três décadas. O padrão é claro: quando as vendas de robôs sobem, o desemprego cai. Quando as vendas de robôs despencam, o desemprego sobe. A lógica é simples: empresas que se automatizam tornam-se mais produtivas, conquistam mais clientes e contratam mais pessoas.
O verdadeiro destruidor de empregos, segundo Burnstein, não é o robô. É perder a capacidade de competir. Ele resume a escolha que as empresas enfrentaram nos anos 1980 em três palavras: automatizar, emigrar ou evaporar. Muitas foram atrás de mão de obra barata no exterior e evaporaram do mesmo jeito. Enquanto isso, há quase 500 mil vagas abertas na indústria hoje nos EUA, um número que deve chegar a 1,9 milhão até 2033, segundo dados citados por Burnstein.
O problema não é a falta de trabalho. É que cada vez menos pessoas querem andar 16 km por dia carregando caixas em um galpão. Os empregos estão migrando para a supervisão, instalação e manutenção dessas máquinas, da mesma forma que funções como “especialista em SEO” ou “desenvolvedor de aplicativos para iPhone” não existiam uma geração atrás.
A geopolítica entra na conversa sobre robôs humanoides
Se há um ponto urgente nessa discussão, é a estratégia nacional. A China detém cerca de 54% dos robôs industriais do mundo — uma frota de aproximadamente dois milhões –, e chegou a esse patamar de forma planejada, por meio de décadas de planos quinquenais focados em ser tanto o maior usuário quanto o maior fornecedor de robótica. Eles obtiveram êxito em ambas as frentes.
Os EUA já passaram por isso antes e perderam. A robótica foi inventada na América: o primeiro robô foi instalado pela Unimation em 1961, e mais de 100 empresas americanas competiam nas décadas de 1960 e 1970. Depois, o Japão desenvolveu uma estratégia nacional, Washington cruzou os braços e a indústria migrou. Os EUA ficaram essencialmente com apenas uma empresa de robótica.
O argumento de Burnstein é que novos formatos, como humanoides, robôs móveis autônomos e braços colaborativos, escancaram as portas desse mercado novamente — e esta é uma segunda chance que os EUA não podem dar bobeira e desperdiçar. Um dado animador é que projetos de lei para a criação de uma Comissão Nacional de Robótica estão sendo apresentados, diz ele. Se isso vai dar em alguma coisa, é a pergunta que fica no ar.
E quanto aos robôs domésticos?
Burnstein colocaria um humanoide na própria casa? “Acho bem difícil”, diz ele.
Trinta anos após o grande debate entre o pioneiro da robótica Joe Engelberger e Colin Angle, da iRobot, exatamente um robô doméstico obteve sucesso em larga escala: o aspirador de pó. Angle apostou em algo barato e de função única, e estava certo.
Um humanoide de US$ 20.000 para dobrar suas roupas é uma ideia bem mais difícil de emplacar. “Eu sei dobrar roupa”, disse Burnstein. “Não preciso disso.”
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com