A lei chegou à mesa do governador da Califórnia (EUA), Gavin Newsom, em 8 de setembro. Gavin tem até 30 de setembro para sancioná-la ou vetá-la. Ainda assim, mesmo que seja sancionado, o selo só seria implementado daqui a alguns anos. O departamento de saúde da Califórnia teria até 1º de junho de 2029 para credenciar agentes responsáveis pela certificação dos produtos. E a elegibilidade depende de uma definição de alimento ultraprocessado que a Califórnia ainda está elaborando.
Washington também avança em paralelo. Em 10 de agosto, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos e o Departamenteo de Agricultura (USDA), encaminharam ao Escritório de Gestão e Orçamento a primeira proposta de definição de alimento ultraprocessado do governo federal. O texto ainda não foi divulgado.
Os alimentos ultraprocessados, ou UPFs na sigla em inglês, são uma das poucas questões de saúde que ainda recebem apoio genuíno dos dois principais partidos dos EUA, os Democratas e os Republicanos. A redução de seu consumo vem sendo defendida há anos por representantes progressistas da saúde pública. Agora, ela também se tornou um dos pontos centrais da agenda Make America Healthy Again, do secretário do HHS, Robert F. Kennedy Jr.
A dimensão do consumo de ultraprocessados nos Estados Unidos é enorme. Segundo os dados nacionais mais recentes do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), órgão de saúde pública dos Estados Unidos, os norte-americanos com 1 ano de idade ou mais obtiveram 55% de suas calorias de alimentos ultraprocessados entre 2021 e 2023. Entre crianças e adolescentes, a proporção foi de 62%.
A seguir estão os fundamentos por trás do rótulo e da iniciativa do governo Trump para reduzir o consumo de ultraprocessados, o estágio atual da ciência e o que é preciso para entender esse selo antes que ele chegue às prateleiras dos supermercados.
Distinguir alimentos ultraprocessados é mais difícil do que parece
Alguns alimentos são obviamente ultraprocessados, como batatas chips. Outros claramente não são, como maçãs. A dificuldade está no meio do caminho. É justamente essa lacuna que motiva a proposta de um rótulo.
Veja o iogurte grego da marca FAGE, o FAGE Total, que contém três itens: leite pasteurizado, creme de leite e culturas vivas. Todos são ingredientes que você poderia ter em sua cozinha. É por isso que ele não é um alimento ultraprocessado.
Em contraste, em uma prateleira adiante há um copo de iogurte “light”, saborizado e sem gordura. Ao virar a embalagem, provavelmente encontrará mais de uma dúzia de ingredientes, incluindo amido de milho modificado, aromas naturais, carragena e sucralose. É a mesma seção de laticínios e, à primeira vista, o mesmo lanche saudável à base de iogurte, mas pertencem a categorias diferentes. Um é ultraprocessado, o outro não.
O sistema NOVA, classificação de alimentos criada por pesquisadores brasileiros que organiza os produtos de acordo com o grau e o tipo de processamento industrial, e não apenas pelos nutrientes que contêm – e utilizado principalmente em pesquisas –, propõe uma forma de distinguir essas diferenças classificando os alimentos em quatro grupos:
- In natura ou minimamente processados. Alimentos integrais alterados apenas por secagem, congelamento, fermentação ou cozimento: frutas frescas, castanhas cruas, leite puro, ovos e feijão seco.
- Ingredientes culinários processados. Substâncias prensadas ou refinadas a partir do Grupo 1: azeite de oliva, manteiga, sal, mel e vinagre.
- Alimentos processados. Combinações dos Grupos 1 e 2, geralmente com dois ou três ingredientes: vegetais enlatados, queijos simples, pão fresco e peixe enlatado.
- Alimentos ultraprocessados. Formulações industriais produzidas com ingredientes que você não usaria para cozinhar: refrigerantes, barras energéticas, lanches industrializados, a maioria dos cereais matinais e refeições prontas.
A ideia do rótulo é permitir que o consumidor saiba facilmente se aquilo que está comendo não é ultraprocessado, ou seja, se não pertence ao Grupo 4. Ao ver esse rótulo, ele pode ficar mais propenso a comprar alimentos que não sejam ultraprocessados.
Mas mesmo sem um rótulo, atualmente muitas vezes é fácil ler a lista de ingredientes e identificar um ultraprocessado. Esses alimentos costumam ter listas longas de ingredientes. Eles contêm marcadores de formulação industrial. Isso inclui termos como “isolado”, “hidrolisado”, “amido modificado”, “aromas naturais” ou uma cor seguida por um número. Se você não consegue comprar por conta própria um ou mais dos ingredientes presentes na embalagem, provavelmente está segurando um alimento ultraprocessado.
Os argumentos para consumir menos alimentos ultraprocessados
Um estudo esclarecedor sobre peso se deu com um ensaio cruzado randomizado publicado na Nature Medicine. Cinquenta e cinco adultos na Inglaterra com sobrepeso ou obesidade seguiram, em ordem aleatória, duas dietas de oito semanas, uma minimamente processada e outra ultraprocessada. Ambas foram elaboradas de acordo com as diretrizes alimentares nacionais e permitiam o consumo de alimentos sem limitação de quantidade.
As pessoas perderam peso com ambas as dietas, mas aproximadamente o dobro com a dieta minimamente processada: 2% do peso corporal, ante 1%. Elas também relataram maior controle sobre a vontade intensa de comer quando seguiram uma dieta minimamente processada.
A principal explicação para a diferença é o que se chama de hiperpalatabilidade. Os alimentos ultraprocessados são macios, densos em energia e rápidos de comer, ou seja, são muito palatáveis. Assim, as pessoas ingerem mais calorias antes que os sinais de saciedade consigam acompanhar o ritmo. Um segundo mecanismo, ainda menos estabelecido, envolve o intestino, onde emulsificantes foram associados a alterações desfavoráveis no microbioma.
Em relação às doenças cardíacas, a Sociedade Europeia de Cardiologia publicou, em maio de 2026, uma declaração de consenso clínico no European Heart Journal. Foi a primeira grande entidade de cardiologia a tratar os alimentos ultraprocessados como um fator de risco independente. A análise concluiu que adultos com o maior consumo de ultraprocessados apresentavam risco até 19% maior de doenças cardíacas, risco 13% maior de fibrilação atrial e risco até 65% maior de morte cardiovascular em comparação com os consumidores que ingeriam as menores quantidades.
Uma análise conjunta de 240 mil adultos em oito países constatou que cada aumento de 10 pontos estava associado a um risco aproximadamente 3% maior de morte por qualquer causa.
Uma descoberta recente oferece uma pista sobre o mecanismo. Um estudo publicado na Radiology utilizou ressonância magnética para medir a gordura dentro dos músculos das coxas de 615 adultos. Um consumo maior de ultraprocessados esteve associado a uma quantidade maior de gordura armazenada dentro do próprio músculo, mesmo depois de considerar o índice de massa corporal, o total de calorias, a ingestão de gordura e a atividade física. A gordura intramuscular está associada tanto à resistência à insulina quanto à perda da função muscular.
O problema de um rótulo binário
Uma das principais críticas ao sistema NOVA é aquilo que os críticos chamam de “falácia da junk food”. O Grupo 4 é definido pela forma como o alimento é fabricado, e não pelo fato de ele causar ou não danos. Isso coloca o refrigerante na mesma categoria do pão integral.
Um pão integral produzido com condicionadores de massa é tecnicamente ultraprocessado. Mas ele também fornece fibras, ferro e folato. O refrigerante fornece uma carga de açúcar e praticamente nada além disso.
Três maneiras práticas de reduzir agora o consumo de ultraprocessados
Há várias maneiras simples de reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados muito antes que qualquer rótulo chegue às prateleiras dos supermercados.
- Faça algumas substituições de alto impacto. Iogurte grego natural com mel em vez de um copo de iogurte saborizado. Água com gás e frutas cítricas em vez de refrigerante diet. Frutas inteiras e castanhas em vez de uma barra energética. Substituir as duas ou três categorias de ultraprocessados que você consome todas as semanas reduzirá mais sua ingestão do que uma mudança completa da alimentação que você abandonará depois de um mês.
- Use um aplicativo de leitura de códigos de barras em algumas idas ao supermercado. Open Food Facts, Yuka e ZOE classificam o nível de processamento de um produto a partir de seu código de barras. Duas ou três idas ao supermercado podem ajudar a calibrar sua percepção sobre o que é ou não um alimento ultraprocessado.
- Prepare os ingredientes básicos, não a refeição inteira. No domingo, prepare um cereal, uma assadeira de vegetais assados e uma proteína: farro, brócolis e cebolas assados e algumas libras de sobrecoxas de frango. Na segunda-feira, isso vira uma tigela com cereais e outros ingredientes. Na quarta-feira, coma tacos com repolho e salsa. Na sexta-feira, faça uma sopa com feijão enlatado e caldo. Você não assumiu o compromisso de preparar cinco jantares. Apenas eliminou o motivo que o levou a pedir comida pronta na quarta-feira. A conveniência, e não a falta de conhecimento, é uma das principais barreiras para uma alimentação adequada.
Perguntas frequentes
Congelar ou cozinhar é considerado ultraprocessamento?
Não. Congelamento, secagem, fermentação e cozimento são processos do Grupo 1. Vegetais e peixes congelados sem ingredientes adicionados são minimamente processados e nutricionalmente comparáveis aos alimentos frescos. Em alguns casos, podem ser até melhores, já que são congelados no ponto máximo de maturação.
Como posso saber se um alimento embalado é razoável, mesmo sendo ultraprocessado?
Observe a quantidade de fibras, açúcar adicionado, sódio e proteína por porção e, em seguida, pergunte qual alimento ele está substituindo. Um cereal integral fortificado com 5 gramas ou mais de fibras e pouco açúcar adicionado é uma opção razoável para o consumo diário. Um cereal com 12 gramas de açúcar adicionado por porção é uma sobremesa.
Qual é a maneira mais rápida de reduzir os ultraprocessados gastando pouco?
Elimine primeiro as bebidas adoçadas. Essa é a mudança mais barata com a maior redução de calorias. Depois, monte sua alimentação com base em feijão seco, vegetais congelados, aveia, ovos e frango inteiro, que estão entre as fontes de proteína e fibras de menor custo disponíveis no supermercado.
Publicado originalmente em Forbes EUA