Há exatos 47 anos, no dia 1º de julho de 1979, era lançado no Japão um dos dispositivos que marcariam os jovens da Geração X: o Walkman. O dispositivo deu início a uma verdadeira revolução na tecnologia musical, que moldou a forma como se ouve música hoje.
O pequeno aparelho não só tornou a música transportável como também fez dela uma experiência pessoal e exclusiva — o que, a princípio, soou até como desrespeito e individualismo para os mais conservadores. Mesmo assim, foi um sucesso e a Sony vendeu mais de 400 milhões de unidades, levando a marca japonesa à sua era de ouro.
Como surgiu?
Antes do surgimento do Walkman, ouvir música era uma experiência necessariamente coletiva e estática. Na época, os discos de vinil ainda eram os mais famosos e eram reproduzidos por meio de aparelhos de som grandes e pesados, que ampliavam o volume e podiam alcançar todo o ambiente. Outra alternativa era o rádio que, apesar de mais leve, também reproduzia um som ruidoso e não dava alternativa para personalizar playlists. Ouvir música individualmente, da forma como conhecemos hoje, não era uma possibilidade, muito menos levá-la para onde fosse.
A ideia partiu do desejo de Masaru Ibuka, cofundador da Sony, de ouvir música clássica durante voos de longa distância. Em resposta, o engenheiro Nobutoshi Kihara desenvolveu o primeiro protótipo do Walkman, com base no gravador portátil Sony TC-5. Logo, a empresa começou a produzir os primeiros Walkmans, já com uma aposta ambiciosa: 30 mil unidades na primeira leva.
O modelo original, o TPS-L2, vinha nas cores azul e cinza e tinha cerca de 14 cm x 7 cm, perfeito para caber na palma da mão. Seu funcionamento envolvia uma fita cassete e fones de ouvido com fio.Esse modelo tinha ainda uma segunda entrada de fones de ouvido, para compartilhar a música com mais alguém.
Lançado em 1º de julho de 1979, ainda muito antes da globalização gerada pela internet, o Walkman rapidamente se tornou um fenômeno, mesmo diante de um mercado que precisaria ser educado para uma forma completamente nova de ouvir música. Inicialmente, apenas 10% das 30 mil unidades produzidas foram vendidas no primeiro mês. Surpreendentemente e pelo poder da propaganda boca a boca, no segundo mês o produto esgotou nas lojas.
O sucesso global
O Walkman só chegou aos Estados Unidos e à Europa no ano seguinte, em junho de 1980, custando em torno de US$ 150 na época. Ele se tornou um sucesso principalmente entre o público adolescente. De início, recebeu nomes diferentes: Soundabout nos EUA e Stowaway no Reino Unido, mas foi o nome Walkman que ficou conhecido mundialmente.
Nas propagandas, era comum ver jovens caminhando, andando de bicicleta ou fazendo exercícios enquanto ouviam música, associando o Walkman à sensação de liberdade e atividade. Logo, o dispositivo se tornou um acessório considerado descolado entre os jovens.
A demanda foi tanta que os lotes precisaram ser maiores. A Sony entrou em sua verdadeira era de ouro: em cinco anos, a empresa já faturava US$ 6,7 bilhões mundialmente. O sucesso foi tamanho que, no mesmo ano, marcas como Panasonic, Toshiba e Aiwa entraram nesse segmento de música portátil.
Curiosidade: mesmo sendo a Sony a reconhecida pela criação do Walkman, foi Andreas Pavel, um alemão criado no Brasil e chefe de programação da TV Cultura em 1967, que patenteou a ideia em 1977. Pavel chegou a processar a Sony pelo uso de sua criação, em uma disputa judicial que durou mais de 20 anos. O acordo levou a companhia japonesa a pagar milhões de euros para Pavel — os valores exatos não foram divulgados.
O impacto para o futuro da música

Com a evolução tecnológica, o Walkman também evoluiu: de fitas cassete, foi para CDs e, por fim, para a mídia digital. O dispositivo ganhou até uma tela sensível ao toque e recursos sem fio. Foram diferentes modelos de Walkman lançados ao longo dos anos:
- Discman: primeiro modelo compatível com os CDs. Apesar de ainda ser grande e pesado, fez sucesso. Os modelos foram ficando menores e mais leves com os anos.
- Video Walkman: foi lançado em 1989 e contava com uma tela de três polegadas capaz de reproduzir vídeos que rodavam em videocassete e VHS.
- MiniDisc Walkman: rodava CDs em miniatura, uma versão mais compacta do Discman.
- Network Walkman: aceitava cópia de música digital, em um formato de armazenamento exclusivo da Sony.
- Walkman MP3: na virada do século, os reprodutores MP3 revolucionaram a indústria, e o Walkman passou a executar músicas de arquivos MP3, AAC e WMA.
Os números não foram positivos só para a Sony. O Walkman serviu de inspiração para dezenas de empresas e setores de tecnologia musical, com o surgimento do iTunes e do iPod da Apple (os sucessores do Walkman) e dos próprios fones de ouvido que conhecemos hoje, um dos mercados eletrônicos que mais movimentam dinheiro.
O fim da linha
Mesmo tendo se desdobrado para adaptar o Walkman às novas tecnologias, foi a partir de 2007, com o lançamento do iPhone, que a Sony viu a popularidade de sua criação chegar ao fim. Os celulares se tornaram dispositivos multifuncionais, servindo inclusive para ouvir música.
A Sony ainda produziu Walkmans até outubro de 2010, após vender 385 milhões de unidades, quando teve sua produção oficialmente cancelada. No mesmo ano, a empresa encerrou a produção de outra tecnologia simbólica dos anos 80: os disquetes de 3,5 polegadas.
Mas colocar um ponto final nessa história é quase injusto, pois o Walkman continua vivo de muitas formas. Com frequência, ele é protagonista de séries e filmes de sucesso. Em Guardiões da Galáxia, por exemplo, ele é praticamente uma extensão de Peter Quill, acompanhando toda a sua trajetória. Já em Stranger Things, o aparelho protagoniza uma das cenas mais icônicas da série, quando Max consegue se proteger de Vecna graças à sua música preferida — e seu inseparável Walkman.