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Agro Sustentável Atrai Mais de US$ 10 Bilhões em Novos Investimentos

Iniciativas mostram como o investidor está ávido pelo retorno financeiro em soluções baseadas na natureza

6 min

O futuro do agro brasileiro passa pelo balanço dos grandes fundos de investimento. Durante o Climate Implementation Summit (CIS), realizado no último sábado (8) em São Paulo (SP), foram anunciadas novas intenções de capital para beneficiar a agropecuária sustentável. São mais de US$ 10,4 bilhões (R$ 55,43 bilhões, conforme cotação atual) no Brasil até o final de 2027 para a implementação de soluções transformadoras em fazendas pelo país afora.

Organizado pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), Climate Action e pela Converge Capital, o evento reuniu mais de 750 CEOs e lideranças empresariais do Brasil e do exterior, além de investidores, filantropos, organizações multilaterais e representantes de governos.

Durante o CIS, a aceleradora americana de investimentos em finanças climáticas Capital for Climate apresentou o valor de intenção de investimentos em Soluções Baseadas na Natureza (SbN). As SbNs são estratégias que utilizam a conservação, restauração e gestão sustentável de ecossistemas para enfrentar desafios ambientais, sociais e econômicos.

Este investimento foi rastreado por uma pesquisa da Capital for Climate em parceria com a consultoria inglesa Deloitte Brasil. A ideia inicial era indicar uma intenção de investimento de até US$ 5 bilhões (R$ 26,66 bilhões), mas a pesquisa foi além e apontou o dobro do valor. Até o final deste ano, a expectativa é que US$ 2,7 bilhões (R$ 14,39 bilhões) sejam desembolsados. Grande parte deste valor já investidos, segundo Anna Lucia Horta, diretora executiva da Capital for Climate no Brasil.

Anna Lucia Horta
DivulgaçãoAnna Lucia Horta, diretora executiva da Capital for Climate no Brasil

“A SbN é a que custa menos entre as demais soluções na hora de trabalharmos para atingir as metas de remoção de carbono. Você planta uma árvore e restaura o solo. É um setor com pouca visibilidade, mas que queremos tornar notório o fluxo de projetos desta área aos investidores,” diz Anna Lucia.

O desequilíbrio entre oferta e demanda de capital

A pesquisa, que ouviu 34 instituições financeiras no Brasil e no mundo (públicas e privadas, incluindo gestores de ativos com horizonte de alocação de recursos até 2027), mostrou um desequilíbrio estratégico entre quem quer financiar e quem está desenvolvendo projetos e está na busca de financiamento.

De um lado, há investidores com capital para investir, e do outro, os 32 projetos mapeados pela Capital for Climate são capazes de absorver US$ 6,1 bilhões (R$ 32,54 bilhões, conforme cotação atual), com horizonte até o final de 2028.

Essa diferença evidencia que o dinheiro existe, mas o desafio está em fazer o “casamento perfeito” entre o investidor e o desenvolvedor do projeto de SbN ideal. No topo das iniciativas estão a restauração de pastagens degradadas, bioeconomia florestal, e conservação e proteção de áreas de vegetação nativa.

Estes 32 projetos gerenciam diretamente 1,1 milhão de hectares, número que deve saltar para 2,7 milhões de hectares até o final de 2028.

Anna Lucia aponta que a próxima fase do estudo será garantir mais detalhes para segmentar o tipo de projeto, risco e retorno que interessa a cada investidor.

Capital Catalítico para a Transição Agrícola

Daniel Brandão
DivulgaçãoDaniel Brandão, sócio e diretor de Soluções baseadas na Natureza da Vox Capital

O interesse não é apenas ambiental, mas também financeiro. Os investidores buscam taxas internas de retorno positivas, bem acima do investimento livre de risco. E neste mesmo caminho está o fundo Catalytic Capital for the Agriculture Transition (CCAT, Capital Catalítico para a Transição Agrícola, na tradução livre).

A gestora paulistana de fundos de investimento Vox Capital é a administradora do CCAT e que conta com suporte da organização americana sem fins lucrativos The Nature Conservancy (TNC). Entre os investidores estão a Fundação Gordon e Betty Moore (Fundação Moore), criada pelo cofundador da Intel, o americano Gordon E. Moore e sua esposa Betty, além da Iniciativa Internacional Climática e Florestal da Noruega (NICFI, na sigla em inglês), a fundação americana Margaret A. Cargill Philanthropies (MACP), e as organizações filantrópicas Instituto Arapyaú e Porticus.

Daniel Brandão, sócio e diretor de Soluções baseadas na Natureza da Vox Capital, anunciou entre os painéis do Climate Implementation Summit o primeiro fechamento de US$ 50,5 milhões (R$ 269,17 milhões, conforme cotação atual). Para cada US$ 1 de capital catalisador, o CCAT almeja desbloquear US$ 4 em financiamento comercial.

O capital catalisador é um investimento de alto risco com retornos concessionais e que tem como objetivo acelerar ou viabilizar projetos de impacto social e ambiental que, em geral, não atrairiam capital convencional.

O objetivo final da Vox Capital é garantir US$ 200 milhões em capital catalisador e desbloquear um adicional de US$ 800 milhões em investimento comercial até 2028. A ambição final é escalar o capital catalisador para o setor agrícola no Brasil para US$ 2 bilhões até 2030 e desbloquear US$ 10 bilhões em capital total.

Espera-se que o fundo de US$ 200 milhões apoie a recuperação ou proteção de mais de 500 mil hectares de terra, evite 240 milhões de toneladas de emissões de CO₂ e beneficie diretamente mais de mil produtores rurais até 2030.

“Nós vamos investir, por exemplo, em CRAs [Certificados de Recebíveis do Agronegócio] e Fiagros [Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais], que são estruturados por outras casas do mercado. Tomamos as cotas subordinadas desse fundo em condições concessionais. Ou seja, cobraremos mais barato e daremos mais prazo para essas operações,” diz Brandão.

O CCAT, entretanto, exige desmatamento zero, alinhado com o Regulamento Anti-Desflorestamento da União Europeira (EUDR) e atenderá projetos de soja sobre áreas de pastagem degradada, intensificação de atividades pecuárias, projetos de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), e Sistemas Agroflorestais (SAFs) com produtos florestais não madeireiros.

O novo protagonismo do produtor rural

A tendência de crescimento do setor é inegável, com o surgimento de iniciativas como o Caminho Verde do governo federal (novo nome do Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas em Sistemas de Produção Agropecuários e Florestais Sustentáveis).

O programa quer acelerar a recuperação, na próxima década, de até 40 milhões de hectares dos 82 milhões de hectares que estão em com grau de degradação no país. Para Brandão, o tom da nova agenda de investimento é o engajamento, não o combate.

“É onde você traz os produtores rurais dentro de uma parceria. É muito mais de ter o produtor como um ator central, um beneficiário do processo,” diz Brandão.

O capital concessional do fundo CCAT, por exemplo, busca garantir que o produtor tenha crédito mais barato e melhor assistência técnica, diminuindo o risco das operações e elevando sua renda.

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