O futuro do agro brasileiro passa pelo balanço dos grandes fundos de investimento. Durante o Climate Implementation Summit (CIS), realizado no último sábado (8) em São Paulo (SP), foram anunciadas novas intenções de capital para beneficiar a agropecuária sustentável. São mais de US$ 10,4 bilhões (R$ 55,43 bilhões, conforme cotação atual) no Brasil até o final de 2027 para a implementação de soluções transformadoras em fazendas pelo país afora.
Organizado pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), Climate Action e pela Converge Capital, o evento reuniu mais de 750 CEOs e lideranças empresariais do Brasil e do exterior, além de investidores, filantropos, organizações multilaterais e representantes de governos.
Durante o CIS, a aceleradora americana de investimentos em finanças climáticas Capital for Climate apresentou o valor de intenção de investimentos em Soluções Baseadas na Natureza (SbN). As SbNs são estratégias que utilizam a conservação, restauração e gestão sustentável de ecossistemas para enfrentar desafios ambientais, sociais e econômicos.
Este investimento foi rastreado por uma pesquisa da Capital for Climate em parceria com a consultoria inglesa Deloitte Brasil. A ideia inicial era indicar uma intenção de investimento de até US$ 5 bilhões (R$ 26,66 bilhões), mas a pesquisa foi além e apontou o dobro do valor. Até o final deste ano, a expectativa é que US$ 2,7 bilhões (R$ 14,39 bilhões) sejam desembolsados. Grande parte deste valor já investidos, segundo Anna Lucia Horta, diretora executiva da Capital for Climate no Brasil.

“A SbN é a que custa menos entre as demais soluções na hora de trabalharmos para atingir as metas de remoção de carbono. Você planta uma árvore e restaura o solo. É um setor com pouca visibilidade, mas que queremos tornar notório o fluxo de projetos desta área aos investidores,” diz Anna Lucia.
O desequilíbrio entre oferta e demanda de capital
A pesquisa, que ouviu 34 instituições financeiras no Brasil e no mundo (públicas e privadas, incluindo gestores de ativos com horizonte de alocação de recursos até 2027), mostrou um desequilíbrio estratégico entre quem quer financiar e quem está desenvolvendo projetos e está na busca de financiamento.
De um lado, há investidores com capital para investir, e do outro, os 32 projetos mapeados pela Capital for Climate são capazes de absorver US$ 6,1 bilhões (R$ 32,54 bilhões, conforme cotação atual), com horizonte até o final de 2028.
Essa diferença evidencia que o dinheiro existe, mas o desafio está em fazer o “casamento perfeito” entre o investidor e o desenvolvedor do projeto de SbN ideal. No topo das iniciativas estão a restauração de pastagens degradadas, bioeconomia florestal, e conservação e proteção de áreas de vegetação nativa.
Estes 32 projetos gerenciam diretamente 1,1 milhão de hectares, número que deve saltar para 2,7 milhões de hectares até o final de 2028.
Anna Lucia aponta que a próxima fase do estudo será garantir mais detalhes para segmentar o tipo de projeto, risco e retorno que interessa a cada investidor.
Capital Catalítico para a Transição Agrícola

O interesse não é apenas ambiental, mas também financeiro. Os investidores buscam taxas internas de retorno positivas, bem acima do investimento livre de risco. E neste mesmo caminho está o fundo Catalytic Capital for the Agriculture Transition (CCAT, Capital Catalítico para a Transição Agrícola, na tradução livre).
A gestora paulistana de fundos de investimento Vox Capital é a administradora do CCAT e que conta com suporte da organização americana sem fins lucrativos The Nature Conservancy (TNC). Entre os investidores estão a Fundação Gordon e Betty Moore (Fundação Moore), criada pelo cofundador da Intel, o americano Gordon E. Moore e sua esposa Betty, além da Iniciativa Internacional Climática e Florestal da Noruega (NICFI, na sigla em inglês), a fundação americana Margaret A. Cargill Philanthropies (MACP), e as organizações filantrópicas Instituto Arapyaú e Porticus.
Daniel Brandão, sócio e diretor de Soluções baseadas na Natureza da Vox Capital, anunciou entre os painéis do Climate Implementation Summit o primeiro fechamento de US$ 50,5 milhões (R$ 269,17 milhões, conforme cotação atual). Para cada US$ 1 de capital catalisador, o CCAT almeja desbloquear US$ 4 em financiamento comercial.
O capital catalisador é um investimento de alto risco com retornos concessionais e que tem como objetivo acelerar ou viabilizar projetos de impacto social e ambiental que, em geral, não atrairiam capital convencional.
O objetivo final da Vox Capital é garantir US$ 200 milhões em capital catalisador e desbloquear um adicional de US$ 800 milhões em investimento comercial até 2028. A ambição final é escalar o capital catalisador para o setor agrícola no Brasil para US$ 2 bilhões até 2030 e desbloquear US$ 10 bilhões em capital total.
Espera-se que o fundo de US$ 200 milhões apoie a recuperação ou proteção de mais de 500 mil hectares de terra, evite 240 milhões de toneladas de emissões de CO₂ e beneficie diretamente mais de mil produtores rurais até 2030.
“Nós vamos investir, por exemplo, em CRAs [Certificados de Recebíveis do Agronegócio] e Fiagros [Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais], que são estruturados por outras casas do mercado. Tomamos as cotas subordinadas desse fundo em condições concessionais. Ou seja, cobraremos mais barato e daremos mais prazo para essas operações,” diz Brandão.
O CCAT, entretanto, exige desmatamento zero, alinhado com o Regulamento Anti-Desflorestamento da União Europeira (EUDR) e atenderá projetos de soja sobre áreas de pastagem degradada, intensificação de atividades pecuárias, projetos de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), e Sistemas Agroflorestais (SAFs) com produtos florestais não madeireiros.
O novo protagonismo do produtor rural
A tendência de crescimento do setor é inegável, com o surgimento de iniciativas como o Caminho Verde do governo federal (novo nome do Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas em Sistemas de Produção Agropecuários e Florestais Sustentáveis).
O programa quer acelerar a recuperação, na próxima década, de até 40 milhões de hectares dos 82 milhões de hectares que estão em com grau de degradação no país. Para Brandão, o tom da nova agenda de investimento é o engajamento, não o combate.
“É onde você traz os produtores rurais dentro de uma parceria. É muito mais de ter o produtor como um ator central, um beneficiário do processo,” diz Brandão.
O capital concessional do fundo CCAT, por exemplo, busca garantir que o produtor tenha crédito mais barato e melhor assistência técnica, diminuindo o risco das operações e elevando sua renda.