Um ano depois de uma operação do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE) que terminou com uma morte em suas gigantescas fazendas de cannabis, e meses após o governo Trump reclassificar a maconha medicinal, a Glass House se prepara para estrear na Bolsa de Valores de Nova York e exportar seus produtos para o mundo inteiro.
A maior instalação de cultivo de cannabis dos Estados Unidos fica entre as encostas das montanhas de Santa Monica, do outro lado da estrada de uma plantação de feijão em Camarillo, Califórnia. Se não fosse pela cerca elétrica de 7.000 volts que cerca a propriedade de 66,8 hectares (165 acres) e pelo cheiro de maconha, o local pareceria qualquer outra fazenda da região que cultiva tomates e pepinos.
No ano passado, a Glass House Brands produziu 666 mil libras de cannabis (cerca de 302 toneladas), gerando US$ 182 milhões (R$ 1,00 bilhão na cotação atual) em receita. O valor ficou abaixo do registrado em 2024, quando a empresa faturou US$ 201 milhões (R$ 1,10 bilhão), em parte por causa da operação federal de imigração realizada em duas de suas três unidades durante o verão passado.
Até o fim de 2026, porém, a Glass House, que começaria a negociar suas ações na Bolsa de Valores de Nova York em 30 de junho (atualmente listadas na bolsa Cboe, no Canadá), projeta produzir cerca de 450 toneladas de cannabis e alcançar até US$ 245 milhões (R$ 1,35 bilhão) em vendas. Com a estreia em Nova York, será a segunda empresa americana de cannabis a chegar ao pregão principal da bolsa, depois da Trulieve, sediada na Flórida, que passou a ser negociada no início deste mês.

“No ensino médio, eu dizia que queria ser o maior traficante de drogas do mundo”, conta o presidente e cofundador Graham Farrar, de 49 anos, que se parece com qualquer outro agricultor enquanto inspeciona uma planta de cannabis em uma das muitas estufas da empresa, usando boné, jeans e botas. A diferença é o Rolex no pulso. “E, em certa medida, consegui.”
A Glass House não é a maior empresa de cannabis em faturamento. Esse posto pertence à Curaleaf, sediada em Connecticut, que registrou US$ 1,3 bilhão (R$ 7,15 bilhões) em receita em 2025. No entanto, ela possui o maior complexo de cultivo em estufas do país, com cerca de 510 mil metros quadrados distribuídos em seis edifícios, cada um com largura equivalente a dois campos de futebol e comprimento de oito campos. A empresa também possui outras duas propriedades de estufas no condado de Santa Barbara, somando aproximadamente 46,5 mil metros quadrados . Em apenas onze anos desde sua fundação, a Glass House tornou-se a principal fornecedora atacadista industrial de cannabis da Califórnia.
Farrar e seu cofundador, Kyle Kazan, de 59 anos, realmente produzem cannabis em volume suficiente para justificar a brincadeira de serem chamados de traficantes. Há cerca de 1,2 milhão de plantas em diferentes fases de crescimento na propriedade de Camarillo, distribuídas entre aproximadamente cem variedades, desde Oreoz até Jack Herer, além de uma planta ainda sem nome que permanece em pesquisa e desenvolvimento, com folhas de um roxo intenso cobertas por finos cristais brancos de THC.
Como acontece com muitos traficantes de drogas, Farrar e Kazan também sentiram o peso da ação violenta do governo federal. Em 10 de julho de 2025, agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE) e da Patrulha de Fronteira, usando máscaras e rifles de assalto, desembarcaram de veículos blindados e carros sem identificação e ocuparam as instalações da Glass House em Camarillo e Carpinteria.
Segundo o governo, os agentes procuravam imigrantes em situação irregular. Mais de 300 pessoas foram presas ou detidas, e cerca de 14 crianças que estavam na propriedade foram retiradas do local. Durante a operação, o trabalhador rural mexicano Jaime Alanis García, que estava escondido no teto de uma estufa, caiu e morreu posteriormente em consequência dos ferimentos.
Farrar, em pé próximo ao local onde García caiu, afirma que aquele foi o pior dia de sua vida, tanto profissionalmente quanto pessoalmente. “Eles não vieram para conversar com ninguém”, afirma. “Havia metralhadoras, Humvees, helicópteros. Parecia mais o Iraque do que os Estados Unidos.” O mandado de busca continua sob sigilo e, até o momento, nenhuma acusação formal foi apresentada contra a empresa. Um porta-voz do Departamento de Segurança Interna (DHS), porém, informou que a investigação continua em andamento.
“Nas instalações de cannabis da Califórnia, agentes do ICE e da Patrulha de Fronteira resgataram 14 crianças migrantes de situações que aparentavam envolver exploração, trabalho infantil forçado e, possivelmente, tráfico ou contrabando de pessoas. Nossos agentes também prenderam 361 estrangeiros em situação irregular”, declarou a secretária adjunta interina Lauren Bis em comunicado à Forbes. “A investigação sobre imigração e possíveis violações relacionadas ao trabalho infantil continua em andamento. Novas informações serão divulgadas à medida que estiverem disponíveis.”
A Glass House recebeu uma multa de US$ 21 mil (R$ 116 mil) aplicada pelo Departamento de Controle de Cannabis da Califórnia por duas irregularidades identificadas durante uma investigação estadual realizada após a operação federal. Entre elas estavam a ausência de procedimentos e documentação adequados para verificar e registrar a idade dos trabalhadores presentes no local. A empresa recorreu da decisão e solicitou uma audiência formal.
Farrar e Kazan afirmam que os trabalhadores detidos não eram empregados da Glass House, mas sim contratados de uma empresa terceirizada responsável pelo fornecimento de mão de obra. Segundo eles, os contratos estabelecem de forma explícita que qualquer pessoa enviada às instalações deve ter, no mínimo, 21 anos.
Desde a operação, a Glass House revisou seus contratos com fornecedores de mão de obra agrícola e contratou a empresa de conformidade Guidepost Solutions, dirigida pela ex-subsecretária de Segurança Interna Julie Myers Wood, para implantar um processo mais rigoroso de verificação da elegibilidade para o emprego.
“Trabalhamos todos os dias para cumprir todas as leis”, afirma Kazan. “Não tínhamos conhecimento da presença de menores de idade na instalação. Eles realizaram a operação deles e cooperamos integralmente. Pelo que sabemos, qualquer investigação aberta já foi encerrada.”
A operação representou um duro golpe para a Glass House, provocando um prejuízo de aproximadamente US$ 20 milhões (R$ 110 milhões). Os agentes federais não apreenderam cannabis, mas a empresa perdeu cerca de 60% de suas plantas enquanto reconstruía a produção e treinava novos prestadores de serviço. Hoje, porém, a companhia já acrescentou aproximadamente 92,9 mil metros quadrados de área de cultivo e está no caminho para produzir mais cannabis e faturar mais do que no ano anterior à operação.
Em abril, ocorreu uma reviravolta inesperada durante o governo Donald Trump. O Departamento de Justiça reclassificou a maconha medicinal como uma droga de menor risco, retirando-a da Tabela I, onde estava desde 1970 ao lado da heroína e do LSD, e transferindo-a para a Tabela III, juntamente com cetamina, esteroides e Tylenol com codeína.
Embora esteja longe de representar a legalização completa, a mudança é considerada um marco para a indústria da cannabis, especialmente para a Glass House. Depois de alguns ajustes contábeis e de licenciamento, utilizando a mesma estratégia inaugurada pela Trulieve no início deste mês, a Glass House agora prepara sua listagem na Bolsa de Valores de Nova York.
Até então, a Glass House e outras empresas americanas de cannabis precisavam abrir capital no Canadá por causa da proibição federal da maconha nos Estados Unidos. A reclassificação inaugura um novo cenário para o mercado de cannabis regulamentado pelos estados, que movimentou cerca de US$ 30 bilhões (R$ 165 bilhões) em vendas em 2025, permitindo acesso aos principais mercados financeiros do próprio país. “O presidente Trump tem sido, ao mesmo tempo, meu melhor amigo e meu pior amigo”, diz Farrar, em seu escritório, enquanto observa quatro potes de cerca de meio litro contendo uma de suas variedades favoritas, Gorilla Glue.
Farrar e Kazan fundaram a Glass House Brands em 2015, depois de se conhecerem em uma fazenda com estufas em Carpinteria, no condado de Santa Barbara. Farrar abandonou o ensino médio, mas ganhou um bom dinheiro durante o auge das empresas de internet no fim dos anos 1990 trabalhando na Software.com, empresa de servidores de e-mail que abriu capital. Posteriormente, foi um dos primeiros funcionários da Sonos, fabricante de equipamentos de áudio residencial que também realizou oferta pública de ações.
Mesmo assim, a cannabis sempre foi sua atividade paralela. Ele começou a vender maconha quando cursava o segundo ano do ensino médio na Santa Barbara High School e passou a cultivá-la em um armário quando morava em Boulder. Posteriormente obteve o certificado equivalente ao ensino médio e frequentou a Universidade do Colorado durante um ano.

No início dos anos 2000, comprou algumas casas em Santa Barbara que seu amigo de longa data, Jason Downs, transformou em plantações de cannabis dentro das regras da legislação de maconha medicinal vigente na época. Hoje, Downs ocupa o cargo de diretor de cultivo da Glass House. Kazan iniciou sua carreira como professor de educação especial em Los Angeles, em 1990, antes de se tornar policial em Torrance.
A partir de 1994, passou cinco anos prendendo traficantes e integrantes de gangues. “Fiz muitas prisões relacionadas a drogas e não acredito que isso tenha ajudado a sociedade”, afirma Kazan, integrante da organização Law Enforcement Against Prohibition. “Eu lidava com dependentes químicos, pessoas que precisavam de tratamento para suas dependências.”
Paralelamente, começou a construir um negócio com a esposa e um amigo, investindo em edifícios residenciais multifamiliares em dificuldades financeiras. Kazan, apelidado de “investidor abutre” por causa de suas estratégias, tinha habilidade para convencer moradores considerados problemáticos a deixar os imóveis, permitindo sua reforma e posterior locação. “Na maioria dos casos, eram imóveis dominados por gangues e drogas”, afirma. “Foi então que investidores começaram a aplicar recursos comigo em ativos não tradicionais que precisavam ser reposicionados. Acabei reunindo um grupo de seguidores.”
Em 1999, fundou a Beach Front Property Management, empresa que atualmente administra milhares de unidades residenciais e aproximadamente 46,5 mil metros quadrados de imóveis comerciais. Kazan continua sendo proprietário e presidente da companhia. Nesse período, passou a se interessar pelo setor de cannabis. Em 2015, visitava uma propriedade com 1,4 hectare de estufas em Carpinteria. Farrar analisava a compra da propriedade para um cliente interessado, mas esse comprador havia acabado de ser preso por tentativa de homicídio.
Em seguida, apresentou Kazan a Farrar, e os dois imediatamente estabeleceram uma boa relação. “Diria que o Graham era muito bom em me convencer a entrar em situações complicadas”, brinca Kazan. “E simplesmente gostamos de trabalhar juntos.” Os dois adquiriram a propriedade com apoio de investidores e criaram a Glass House Brands, incorporando também alguns dispensários que cada um possuía separadamente.
Em 2021, abriram capital no Canadá por meio de uma SPAC, captando US$ 126 milhões (R$ 693 milhões). Depois compraram a instalação de Camarillo por cerca de US$ 90 milhões (R$ 495 milhões) e passaram a cultivar cannabis em cerca de 14 hectares), enquanto os 37,7 hectares restantes continuaram destinados ao cultivo de tomates e pepinos.
Hoje, todas as estufas são utilizadas para produzir cannabis. “Temos orgulho de cultivar a melhor maconha pelo menor custo possível”, afirma Farrar. No ano passado, a empresa registrou um custo médio de produção de US$ 111 por libra (R$ 611 por libra) e um preço médio de venda de US$ 177 por libra (R$ 974).
O preço médio de venda é relativamente baixo por causa da escala de produção, mas também porque a Glass House comercializa aparas de cannabis, utilizadas na fabricação de cigarros eletrônicos e alimentos com cannabis, por cerca de US$ 15 por libra (R$ 83 por libra). Já as flores de maior qualidade são vendidas por aproximadamente US$ 500 por libra (R$ 2.750 por libra).
Segundo a Cannabis Benchmarks, o preço médio no atacado, na Califórnia, para uma libra de cannabis cultivada em estufas foi de US$ 611 (R$ 3.360 por libra) em 2025, enquanto as aparas foram negociadas entre US$ 25 e US$ 35 por libra (R$ 138 a R$ 193 por libra). Diversas fontes do setor afirmam que o custo médio para produzir uma libra de cannabis gira em torno de US$ 300 (R$ 1.650), o que coloca a Glass House entre os produtores de menor custo da indústria.
Embora a empresa tenha aproximadamente US$ 143 milhões (R$ 787 milhões) em passivos e tenha registrado um prejuízo líquido de US$ 30 milhões (R$ 165 milhões) no ano passado, seu fluxo de caixa permaneceu positivo, alcançando US$ 11,4 milhões (R$ 62,7 milhões).
Com a reclassificação da maconha medicinal, que elimina a pesada carga tributária imposta às empresas de cannabis quando a substância ainda integrava a Tabela I, a expectativa é que os resultados financeiros da companhia melhorem significativamente. Não é segredo que o mercado ilegal continua prosperando na Califórnia e em todo o território dos Estados Unidos.
Cannabis produzida legalmente é desviada e revendida clandestinamente em diversos estados. Produtos da Glass House, assim como de muitas outras grandes marcas da Califórnia, já foram encontrados fora do estado. Farrar e Kazan afirmam que jamais participaram do mercado ilegal e dizem não ter controle sobre o destino da cannabis depois que ela é vendida aos distribuidores.
Em 2023, a Glass House foi processada pela rede de dispensários Catalyst, que alegou que a empresa era “um dos maiores, senão o maior, operadores do mercado ilegal de cannabis” da Califórnia. A Glass House negou todas as acusações e a ação foi encerrada definitivamente, sem possibilidade de nova apresentação da mesma demanda.
Em cima de uma torre d’água com aproximadamente 24 metros de altura, localizada na propriedade, Kazan afirma que aposta em um futuro no qual a Glass House poderá vender cannabis para varejistas e fabricantes de outros estados, obtendo margens mais elevadas, além de abastecer o crescente mercado europeu.
Para se preparar para esse momento, a Glass House já está registrada na Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA) e mantém conversas com o governo da Califórnia para definir como poderá realizar exportações de forma legal. A reclassificação abriu, potencialmente, o caminho para o comércio interestadual, embora ele ainda não seja permitido pela legislação. Com seus baixos custos de produção e a forte demanda internacional pela cannabis cultivada na Califórnia, Kazan acredita que essas mudanças impulsionarão ainda mais as margens da empresa, atualmente em torno de 42%. “Fomos estruturados para o comércio interestadual, e parece que estamos bem na porta de entrada”, afirma. “Queremos ser a Sunkist da cannabis.”
Kazan desce a escada da torre e segue até um palco montado sob uma grande tenda no estacionamento para o quinto encontro anual de investidores da Glass House. Cerca de 200 investidores, banqueiros e analistas acompanham a apresentação enquanto Farrar e Kazan se revezam ao microfone explicando como a venda de cannabis para outros estados poderá transformar a empresa e como, em breve, gigantes dos setores de bebidas alcoólicas, tabaco e farmacêutico deverão procurar empresas para adquirir.
Marc Cohodes, o conhecido vendedor a descoberto que esteve entre os primeiros a prever a queda da FTX e do Signature Bank, elogia a empresa após a apresentação. “Acredito que este seja o maior negócio que já vi na minha vida. Eles são o maior produtor da mercadoria de crescimento mais rápido do mundo. Ninguém consegue competir com eles em preço, custo e qualidade”, afirma Cohodes, que possui aproximadamente US$ 10 milhões (R$ 55 milhões) em ações da Glass House. “Eles vão dominar.”
Estar listado na Bolsa de Valores de Nova York, naturalmente, não significa que as ações passarão a se valorizar imediatamente. As ações de empresas de cannabis subiram de forma moderada desde que o governo Trump reclassificou a maconha medicinal. Ainda assim, os papéis da Trulieve acumulam queda de 27% desde a estreia da empresa na Bolsa de Nova York, ocorrida no início de junho. No fim do mês de junho, o governo federal realizou uma audiência para discutir se o uso adulto da maconha também deverá ser reclassificado.
Brian Vicente, advogado especializado em cannabis e fundador de seu próprio escritório em Denver, afirma que o comércio interestadual ainda não está próximo de se tornar realidade. Segundo ele, o caminho para permitir que empresas de cannabis exportem e importem maconha medicinal está aproximadamente 90% concluído, mas ainda exigirá tempo.
Os estados precisam aprovar leis autorizando a importação e a exportação de maconha medicinal licenciada. Também será necessário definir aspectos da supervisão da Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA). Caso alguns estados decidam impedir que empresas licenciadas importem cannabis produzida em outras unidades da federação, será inevitável a judicialização com base na chamada Cláusula do Comércio Inativo (Dormant Commerce Clause). “A boa notícia é que estamos mais próximos do transporte interestadual e das exportações do que estivemos nos últimos 50 anos”, afirma Vicente. “Dito isso, ainda estamos a alguns anos de distância.”
Mesmo assim, a Glass House não pretende reduzir o ritmo. Farrar afirma que jamais imaginou que se tornaria um dos pioneiros do modelo industrial de produção atacadista de cannabis. Depois de um longo dia na fazenda, ele diz que pretende abrir um de seus potes da variedade Gorilla Glue e enrolar um cigarro. “Pode até ser um negócio”, afirma Farrar. “Mas continua sendo o negócio de cultivar maconha. Não levamos isso sério demais.”