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“Queremos Ser uma Trading Brasileira com Capilaridade Global”, Diz Sócio-fundador da Timbro

Na série Forbes Agro100, Bruno Russo conta como a empresa saiu de uma receita de R$ 2,5 bi, fez R$ 14 bi em 2024 e projeta até R$ 25 bi para 2025

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Em cinco anos, a Timbro Trading passou de um faturamento próximo de R$ 2,5 bilhões em 2020, com previsão de algo próximo a R$ 25 bilhões em 2025, o que significaria um crescimento médio anual entre 30% e 40%. Em uma previsão mais conservadora, pode ficar na casa de 20%. Fundada há 15 anos, a empresa opera a partir de São Paulo e estrutura sua expansão em um modelo de trading multiprodutos em exportação, importação e mercado interno, sob a liderança de Jorge Guinle, presidente, e Bruno Romano Russo, vice-presidente, ambos sócios fundadores.

“A gente foi consistente na estratégia que escolheu desde a fundação, de ter diversidade de negócios e de atuar de forma integrada em várias frentes”, afirma Russo. “No mundo existem várias casas asiáticas, europeias e americanas com esse modelo. Entre as empresas de capital brasileiro, a Timbro é uma das poucas que combina essa diversificação com verticalização.”

A Timbro Trading faz parte da Lista Forbes Agro100 2025, ranking anual da Forbes Brasil onde estão as 100 maiores empresas e cooperativas que atual país e que contam resultados financeiros publicados. Nesta edição, o conjunto registrou uma receita de R$ 1,886 trilhão, valor equivalente a 16% do PIB brasileiro. Nesta terça-feira (25), um encontro no Jóquei Clube, em São Paulo, o Forbes Power Lunch Agro100, vai reunir empresários e lideranças do setor, entre ele Russo.

“Temos uma frase que repetimos internamente: levamos o Brasil para o mundo”, afirma Russo. “Queremos ser uma trading brasileira com capilaridade global comparável às grandes casas internacionais e, com isso, ampliar a participação do Brasil no comércio de alimentos e matérias-primas.”

A empresa, que em 2024 faturou R$ 14 bilhões, 63,1% acima do ciclo anterior, combina operações puramente comerciais com ativos e estruturas de financiamento ligadas ao produto físico. O desenho do negócio envolve originação junto a produtores rurais, usinas, mineradoras e indústrias no Brasil e no exterior, com contratos que vão da compra spot ao pré-pagamento e estruturas que vão além do barter. “Originação é o que a gente mais faz aqui”, afirma Russo.

O faturamento atual está dividido em cerca de 60% entre importação e mercado doméstico e aproximadamente 40% em exportações. No bloco exportador, o açúcar responde por perto de metade do volume, enquanto o restante se distribui entre minérios, algodão, grãos (soja e milho), e produtos de nicho como gergelim, feijão e café. Essa combinação permite que a empresa ajuste rotas conforme o ciclo de preços de cada commodity e o comportamento dos diferentes mercados compradores.

Pietro Constantino, diretor de agro na Timbro, explica que o desenho multiprodutos tem relação direta com a gestão de risco. “Quando você trabalha com várias cadeias, regiões e perfis de cliente, dilui exposição e aumenta a capacidade de atender o produtor e a indústria com soluções mais completas”, diz. “Isso vale tanto para açúcar e etanol como para grãos, algodão, minérios e outros itens em que atuamos.” A Timbro movimenta cerca de 4 milhões de toneladas de commodities ao ano, cerca de 40 mil contêineres.

Importação para terceiros e etanol em expansão

No mercado interno, a Timbro consolidou atuação em importação para terceiros. A companhia presta serviços a grandes empresas brasileiras e multinacionais, com foco em bens de capital, máquinas, insumos industriais, produtos para revenda e aeronaves executivas, atendendo cerca 20 setores da economia. Em 2024, as importações de máquinas de construção civil e mineração ganharam relevância dentro desse portfólio.

Na cadeia do açúcar, a empresa faz a ponte entre usinas e grandes indústrias, operando como um “atacado do atacado”. Compra o produto de grupos com os quais também trabalha no comércio exterior e distribui para o mercado, utilizando oportunidades de arbitragem entre preços domésticos e externos.

“O fato de ter um livro de exportação relevante permite decidir se o açúcar vai para fora ou fica no Brasil, de acordo com o momento de mercado”, explica Russo.

Além do físico, a Timbro criou soluções financeiras e de gestão de risco para clientes industriais e para as usinas. Segundo Constantino, a companhia estrutura operações de hedge de açúcar e câmbio, possibilitando contratos de preço fixo por vários meses e antecipação de liquidez.

“No final, a gente vira uma plataforma de solução para a indústria e para as usinas no operacional e no financeira”, afirma Constantino. Ele destaca que o uso de instrumentos de hedge por grandes indústrias brasileiras vem aumentando e que as tradings locais passaram a ocupar esse espaço com mais intensidade nos últimos anos.

Na área de combustíveis da trading, a entrada no mercado doméstico de etanol ganhou escala no último período. A empresa saiu de algo próximo de 45 milhões de litros movimentados para cerca de 150 milhões em um ano, apoiada em relacionamento recorrente com entre 40 e 45 usinas no Centro-Sul e no Nordeste. Essa base se conecta à originação de açúcar e permite o uso de estruturas de hedge de  Average True Range (ATR), um indicador de volatilidade, com entrega física em etanol, ampliando alternativas de comercialização e de proteção de margem para o produtor.

Do Brasil para o mundo

Nas exportações, o açúcar continua no centro da operação da Timbro, com um movimento da ordem de 2 milhões de toneladas anuais, com origem em unidades brasileiras e em outros países das Américas, além de Tailândia, Índia e Europa. “Hoje somos um dos principais distribuidores de açúcar para o continente africano”, afirma Constantino. “O Brasil é a origem dominante, mas também compramos na Colômbia, na Guatemala, na Costa Rica e em outros países para atender diferentes especificações e prazos.”

A mesa de grãos cresce com soja, milho e farelo de soja de origem brasileira. Em 2024, a empresa girou cerca de 700 mil toneladas, com participação relevante de milho, e perspectiva de avanço no ciclo em curso. A originação se distribui por estados como São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia e Paraná, além de açúcar em Pernambuco, Alagoas e Sergipe.

O mapa de destinos se organiza em três grandes eixos. A China é o principal parceiro, na compra e na venda. A África concentra parte relevante das operações de açúcar e alimentos, enquanto o Oriente Médio ganha peso, apoiado no escritório de Dubai e na demanda por água, proteína e produtos industrializados. Em paralelo, Índia e Estados Unidos aparecem como vetores de expansão, condicionados a um ambiente tarifário mais previsível.

A empresa iniciou também uma frente em proteína animal, ainda em escala menor. Exporta carne bovina, frango e suína para África e Oriente Médio, em operações estruturadas para clientes que necessitam de prazos de pagamento mais longos. “A gente ocupa um espaço em que muitas vezes os grandes frigoríficos não entram, ou pela estrutura de risco, ou o tipo de operação financeira”, explica Constantino.

No segmento de alimentos industrializados, a Timbro desenvolve a marca Ginda, direcionada ao mercado halal e a países africanos, com um portfólio que inclui massas, molhos de tomate e outros itens de prateleira. A ideia é conectar a base agroindustrial brasileira à demanda de mercados que exigem abastecimento regular e padrões específicos de certificação.

Internacionalização e presença em hubs globais

A estratégia de crescimento inclui um processo de internacionalização da estrutura corporativa. A Timbro abriu há cerca de uma década um escritório em Genebra, voltado principalmente para trade finance e operações estruturadas. Em seguida, instalou unidades em Xangai, nos Estados Unidos e em Dubai.

“Estamos em uma fase em que os escritórios no exterior passam a ter vida própria, com geração de receita local para o grupo”, afirma Constantino. “Dubai e Xangai foram planejados como filiais completas, com times próprios, mas alinhados à matriz no Brasil.”

Dubai, no caso, tornou-se um ponto estratégico, porque o escritório aproxima a companhia dos mercados africanos e asiáticos, facilita logística de viagens e acesso ao sistema bancário e reúne uma equipe multicultural, com profissionais brasileiros, tunisianos, franceses e indianos. De lá, a Timbro apoia a distribuição de açúcar na África e o crescimento do livro de grãos para Oriente Médio, Ásia e Europa.

Para Russo, mesmo com o avanço da tecnologia e da inteligência artificial, a presença física segue como diferencial. “A presença local vai ser sempre um diferencial, em qualquer mercado”, afirma. “É preciso ter um profissional em Dubai conversando com o cliente de Dubai, alguém na China em contato com o cliente de lá e, ao mesmo tempo, gente no interior do Brasil próxima dos produtores.”

Mas a digitalização também altera o padrão de relacionamento com clientes. “Hoje um cliente nosso no Congo tem uma tela de Bloomberg no celular para tomar decisão de compra, algo que alguns anos atrás era raro”, diz ele. “Quando as margens ficam mais apertadas, o nível de serviço e de velocidade na tomada de decisão passa a ser fundamental.”

Para o executivo, a próxima década tende a combinar aumento do consumo de alimentos com maior instabilidade geopolítica, daí a necessidade dos reforços. Bruno cita a sequência de pandemia, guerras, nacionalismos e mudanças súbitas em tarifas e barreiras como sinal de um ambiente mais volátil. “O que a gente consegue afirmar é que vai haver turbulência”, diz. “Isso nos obriga a reforçar gestão de risco, controles e governança, além de manter as informações atualizada nos mercados em que atuamos.”

Internamente, Russo aponta logística e energia como riscos estruturais para o país. “Se o PIB brasileiro crescer acima de certo patamar sem investimento equivalente em infraestrutura, existe risco de estrangulamento logístico ou de energia”, afirma. Segundo ele, a empresa acompanha o tema com atenção, já que a fluidez de portos, rodovias, ferrovias e linhas de transmissão tem impacto direto na competitividade das cadeias em que atua.

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