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Transformação no Cenário Geopolítico Pode Gerar Oportunidades para o Agro Brasileiro

Como o Brasil precisa aproveitar a janela para fechar acordos bilaterais estratégicos para a economia

7 min

O ano de 2025 se apresentou como um período de intensa volatilidade geopolítica, no qual potências se recolocam mundialmente e reconfiguraram suas posições dentro do comércio internacional. Cada país, movido por suas prioridades políticas e econômicas, tenta se reposicionar em um cenário instável e movido pelos interesses geopolíticos.

Esse ano foi marcado pela continuação de guerras importantes na Ucrânia e no Oriente Médio, tarifaço, guerra comercial, crise agravada do multilateralismo, negociações de acordos comerciais e reanálises da legislação europeia antidesmatamento.

Dentro desse cenário incerto, o Brasil está pronto para garantir segurança alimentar, matérias-primas e energia, navegando entre interesses de parceiros comerciais estratégicos. Para o agronegócio brasileiro, esse ambiente complexo gera ameaças, mas também abre oportunidades que, se bem exploradas, podem trazer benefícios relevantes.

Desde que assumiu a presidência dos Estados Unidos pela segunda vez, Donald Trump vem promovendo mudanças significativas, como a imposição de tarifas adicionais e as constantes ameaças de novas medidas introduzindo um elemento de forte instabilidade no comércio com os Estados Unidos.

Em um primeiro momento, o Brasil havia ficado na menor faixa de tarifas adicionais, já que possui balança comercial favorável aos americanos, junto apenas com Austrália e Reino Unido, dentre os países do G20. Porém, nosso país foi surpreendido com tarifas extras de 40%, tornando-se um dos mais afetados pelo governo americano. Essa medida colocou diversos setores sob risco.

Setores que têm o mercado americano como um dos seus principais destinos foram particularmente afetados, como pescado, café, frutas, suco de laranja e carne. Apesar do impacto direto para a carne bovina, o Brasil já havia exportado em 2025 mais do que havia exportado no ano anterior, extrapolando a quota que o país possui com os EUA. Embora seja evidente o potencial prejuízo para futuras vendas.

Poder da diplomacia brasileira

Assim, motivado pela inflação interna e pela boa atuação da diplomacia brasileira, Trump retirou inicialmente as tarifas de 10% e, após negociações com o Brasil, suspendeu a maior parte das tarifas adicionais, restando apenas alguns setores que ainda dependem da retirada, como pescados, mel e máquinas agrícolas.

Apesar das boas notícias, o Brasil ainda pode ser impactado pela investigação da Seção 301. Aberta em julho e conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA, a investigação apura supostas práticas desleais de comércio por parte do Brasil. Entre os principais alvos estão a produção de carne bovina e o processo de acesso do etanol americano ao mercado brasileiro.

Os americanos alegam tarifas proibitivas para o etanol americano e supostas práticas desleais na produção agropecuária brasileira, como desmatamento. A expectativa é de que o órgão utilize o prazo de um ano para concluir o processo e pode aplicar novas medidas contra produtos brasileiros.

O agro brasileiro e a China

Durante esse período, as exportações do agronegócio ao mercado americano sofreram queda de 17,6%, enquanto as exportações para a China aumentaram 32,9%. A China tem se tornado cada vez mais a grande parceira brasileira no agronegócio, mas depender fortemente de um único mercado pode ser arriscado.

As negociações tarifárias entre Estados Unidos e China podem afetar as exportações brasileiras, uma vez que já sinalizações chinesas da compra de produtos agropecuários dos norte-americanos.

Apesar do enorme potencial do mercado chinês, o país conduz atualmente uma investigação de salvaguarda sobre a carne bovina, motivada pelo expressivo aumento de 106,28% nas importações chinesas no primeiro semestre de 2024, em comparação ao mesmo período de 2019.

Caso a investigação conclua que houve dano à produção local, medidas temporárias poderão ser aplicadas para limitar as importações, conforme previsto nos regulamentos da Organização Mundial do Comércio.

Embora iniciada em 2024, a China anunciou no dia 25 de novembro nova prorrogação do prazo, alegando a complexidade do caso. Esse processo gera incertezas no comércio internacional de carne bovina, especialmente diante de um setor cada vez mais dependente do mercado asiático.

Avanço com acordo com a União Europeia

Mesmo com esse cenário global incerto, surgem oportunidades. Países estão mais abertos a negociações e à formação de novos acordos. O cenário geopolítico atual abre uma janela rara para o avanço de tratativas comerciais bilaterais e entre blocos. A competição entre grandes potências, aliada às transformações das cadeias globais de valor, tem levado diversos países a adotarem uma postura mais estratégica e propensa a negociarem novos acordos.

A União Europeia é um exemplo claro dessa mudança. Diante das dificuldades práticas para implementar sua legislação de desmatamento (EUDR) e da possibilidade concreta de novo adiamento, o bloco se vê compelido a reavaliar prioridades. Não se pode descartar que a dinâmica atual do comércio global, indissociável de considerações geopolíticas e marcada pela busca por segurança alimentar, estabilidade de fornecimento e diversificação de parceiros, esteja influenciando diretamente essa postura.

Além disso, a UE decidiu desmembrar o acordo com o Mercosul, dividindo em um instrumento político e um comercial, justamente para facilitar e acelerar sua aprovação interna. Há, inclusive, previsão de assinatura final ainda dia 20 de dezembro, o que demonstra claro interesse europeu em avançar.

Outras oportunidades que se abrem

Diante desse novo contexto, o Brasil e, particularmente, o agronegócio não podem permanecer passivos. Hoje temos dois acordos relevantes em negociações: com os Emirados Árabes Unidos e com o Canadá.

Esses processos mostram que há espaço para ampliar nossa presença internacional e diversificar mercados, principalmente porque historicamente temos poucos acordos comerciais. É fundamental aproveitar essa conjuntura para abrir novos canais estratégicos e intensificar o diálogo comercial, focando em abertura de mercado de forma estratégica e inicio de negociações mais amplas com acordos comerciais.

Além disso, precisamos avançar de forma estruturada com presença em mercados com potencial de aumento da nossa partição com atuação conjunta entre MAPA, MRE e MDIC.

Uma das formas de se fazer isso dá-se com a ampliação do número de adidos agrícolas. Persistem mercados com enorme potencial, mas pouca presença institucional brasileira, como o Paquistão, alguns países africanos, como Moçambique, e países do EFTA. Estar presente significa acompanhar a dinâmica local, identificar oportunidades, antecipar riscos e fortalecer a imagem do produto brasileiro.

Mudanças regulatórias, sanitárias ou econômicas em um mercado-chave podem gerar impactos para toda a cadeia produtiva, alterando o acesso ao mercado. Por isso, diversificar acordos, ampliar destinos e fortalecer a diplomacia agropecuária são passos basilares para reduzir vulnerabilidades e garantir estabilidade no longo prazo.

Cooperação entre países

Por fim, em relação ao multilateralismo, é imprescindível refletir sobre sua reforma e fortalecimento em um cenário internacional cada vez mais complexo. O exemplo recente do G20 ilustra esse movimento: mesmo sem a presença marcante dos Estados Unidos, o grupo conseguiu aprovar uma declaração conjunta sobre a crise climática e outros desafios globais, demonstrando que a cooperação entre múltiplos atores ainda é possível e necessária.

Esse episódio reforça que, embora o sistema multilateral enfrente tensões e limitações, há espaço para renovação, construção de consensos e avanços coletivos quando os países reconhecem a urgência das agendas comuns.

O momento internacional pode ser favorável ao Brasil. Cabe ao governo e ao setor privado agirem com estratégia, velocidade e visão de futuro, aproveitando cada oportunidade para consolidar uma presença global mais robusta e resiliente.

*Claudia Costa é advogada, com LL.M. em direito internacional e produtora rural. Atualmente é coordenadora do Comitê de Relações Internacionais e diretora da Sociedade Rural Brasileira. Possui experiência em comércio internacional e órgãos multilaterais.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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