Quando as inovações em inteligência artificial de um fabricante tradicional de máquinas agrícolas recebem elogios tanto da revista Progressive Farmer quanto de especialistas em modelos de negócios baseados em IA, líderes do setor de saúde deveriam prestar atenção.
A Deere & Co., com sede em Moline, no estado de Illinois, e que em 2025 faturou US$ 45,7 bilhões (R$ 237,6 bilhões na cotação atual), tem um histórico de impressionar observadores independentes. Em 2023, seu diretor-presidente, John C. May, fez o discurso principal na CES, feira da Consumer Technology Association.
May foi o primeiro CEO de uma empresa de tecnologia agrícola a apresentar o keynote na feira em Las Vegas, na época muito elogiado pelo diretor médico de uma empresa de tecnologia em saúde como “uma das melhores apresentações tecnológicas que já vi”.
De forma semelhante, o site The Tech Buzz classificou a exposição da Deere de máquinas agrícolas e de construção autônomas na CES 2026, que ocorreu entre 6 e 9 deste mês de janeiro, como “uma das demonstrações de tecnologia do mundo real mais fortes do evento”.
Há lições férteis aqui para o setor de saúde. “A agricultura na era da informação” começou a ganhar força como foco do setor no início do século 21. Segundo estimativas, a chamada agricultura de precisão já avançou para o estágio de “Agricultura 4.0”.
Por outro lado, na saúde, apenas um pequeno número de hospitais se preocupou em substituir prontuários em papel por registros eletrônicos antes de os subsídios federais entrarem em vigor por volta de 2011 (falando aqui dos EUA), apesar de a computação doméstica e corporativa já prosperarem havia anos.
Foco em inovação com IA

Ao longo do tempo, a Deere se reconstruiu deliberadamente como uma empresa de tecnologia agrícola. Hoje, segundo Justin Rose, executivo da Deere, em entrevista ao blog da OpenAI, a empresa conseguiu escalar com sucesso o uso da inteligência artificial ao integrar cuidadosamente a tecnologia e avaliar continuamente a experiência do cliente.
Entre os exemplos estão orientações personalizadas de configuração, recomendações pré-safra baseadas nos padrões anteriores de plantio e pulverização, e recomendações em tempo real ao produtor acionadas por previsões meteorológicas e outras informações.
A tecnologia envolvida inclui visão computacional, dados de satélite, aprendizado de máquina, redes neurais, diagnósticos remotos e compartilhamento de dados em tempo real.
“Trata-se de integrar a IA em todas as etapas”, afirma Rose. “Estamos construindo um modelo de sucesso do cliente nativo em IA que pode ser aplicado a qualquer setor.”
Essa avaliação sobre a ampla aplicabilidade dos esforços da Deere foi reforçada por Sangeet Paul Choudary, pesquisador sênior da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e referência internacional sobre o impacto da IA nos negócios.
Em Reshuffle, seu livro recente que orienta empresas sobre como prosperar na economia do conhecimento, Choudary elogia a Deere por compreender que a transformação apoiada por IA oferece a oportunidade de “uma mudança não apenas nas tarefas, mas na forma como os sistemas organizacionais são estruturados”.
Choudary observa que, enquanto os tratores da Deere usam IA e robótica para distinguir plantas individuais e aplicar insumos como fertilizantes de forma precisa para aumentar a produtividade, a empresa vai além de outros fornecedores de agricultura de precisão ao oferecer equipamentos com IA que alteram onde e como as decisões agrícolas são tomadas.
“Ao transferir a tomada de decisão do agricultor para a máquina, a Deere altera a lógica da criação de valor e, consequentemente, o sistema organizacional da fazenda”, escreve Choudary. “Com isso, transfere poder do agricultor para a ferramenta.” E não por acaso garante uma vantagem competitiva para a empresa.
Aaron Wetzel, vice-presidente de produção e sistemas de agricultura de precisão da Deere, usou uma linguagem diferente em entrevista à Progressive Farmer, mas sua descrição da colheitadeira X9 como “essencialmente autônoma” reforça o mesmo ponto.
Agricultura automatizada

“Você só precisa sentar no banco”, disse Wetzel. A pilha tecnológica da colheitadeira antecipa quais culturas estão sendo colhidas e ajusta automaticamente sua velocidade, faz as manobras no fim das linhas e monitora condições como níveis de umidade, realizando ajustes em tempo real.
A empresa destaca, por exemplo, que sua Automação das Configurações de Colheita permite que os agricultores “definam os resultados específicos que esperam”, como “limites aceitáveis para perda de grãos, material estranho e grãos quebrados”.
A colheitadeira então calibra automaticamente variáveis como velocidade do rotor, velocidade do ventilador e aberturas das peneiras para alcançar esses resultados.
O sistema também pode “compartilhar o peso dos grãos em tempo real com toda a equipe de colheita”, seguido por um processo automatizado de descarregamento que usa câmeras e inteligência artificial para ajustar a posição e o nível de enchimento do vagão graneleiro.
O resultado, segundo Wetzel, são ganhos de produtividade entre 20% e 30%, que se traduzem em “dinheiro no bolso dos nossos clientes”, valores que a Deere pretende compartilhar por meio de um modelo de precificação que usa IA ao final da safra para calcular o retorno sobre o investimento da máquina.
Como o objetivo do agricultor é produzir e vender o maior volume possível de culturas saudáveis, o que a Deere está fazendo, em termos da saúde, equivale a vincular sua remuneração à melhoria simultânea da qualidade e dos resultados econômicos. Se ao menos as regras de remuneração baseadas em valor da saúde fossem tão claras e calculadas com tanta rapidez.
Em 1961, um artigo da revista New Scientist sobre o futuro da automação agrícola observava que, embora “a ideia de uma fazenda operada em grande parte por máquinas automáticas possa parecer à primeira vista estranha e inaceitável até mesmo para o leitor com formação científica”, isso era “não apenas possível”, mas “importante para o futuro do desenvolvimento da agricultura”.
Sessenta e cinco anos depois, a Deere, cujo fundador homônimo foi o primeiro a desenvolver um arado motorizado para substituir os cavalos, está “claramente no caminho”, segundo Wetzel, para uma solução autônoma de ciclo completo ao longo de toda a safra.
Colhendo lições para a saúde
As implicações de vida ou morte na área da saúde, naturalmente, exigem maior cautela ao conceder autonomia às tecnologias de IA enquanto se reduz o papel humano, independentemente da tentação econômica.
Além disso, embora pacientes às vezes se sintam como objetos cujas doenças estão sendo exploradas de forma lucrativa por um sistema de saúde mecanicista, pés de milho não preenchem pesquisas de satisfação do consumidor sobre sua experiência com a colheitadeira, e a soja não exige decisões compartilhadas com o agricultor.
Ainda assim, é tentador especular o que a Deere estaria fazendo hoje em inteligência artificial aplicada à saúde se não tivesse vendido seu plano de saúde John Deere Health Plan no fim de 2005.
Apesar das diferenças entre personalizar cuidados para plantas e para pessoas, as inovações em IA da Deere oferecem lições para as empresas de tecnologia que avançam rapidamente sobre o setor de saúde e para os prestadores de serviços e pagadores que elas buscam conquistar como clientes.
A Deere demonstrou visão e persistência não apenas para reorganizar um setor profundamente tradicional, mas para fazê-lo de forma que todos os envolvidos saiam beneficiados.