Após mais de duas décadas de carreira e uma indicação ao Emmy Internacional de Melhor Atriz por “Sob Pressão”, Marjorie Estiano encara um dos papéis mais intensos e desafiadores de sua trajetória. Em “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada”, minissérie que estreia nesta quinta-feira (13) na HBO Max, a atriz revive uma história real que marcou o país – e expõe, ainda hoje, as feridas abertas da violência de gênero no Brasil. “O papel da série é provocar e trazer à tona as violências que a gente ainda vive”, diz Marjorie, em entrevista à Forbes Brasil. “Ela nos oferece a chance de repensar o que éramos, o que somos e o que ainda precisamos ser.”
Na trama, a atriz interpreta Ângela Diniz, socialite mineira assassinada pelo namorado, Doca Street, em 1976. O caso ganhou notoriedade não apenas pelo crime brutal, mas pelo julgamento no qual o réu foi condenado com uma pena simbólica, amparado pela tese da “legítima defesa da honra”. Décadas depois, o tema voltou ao debate público com o sucesso do podcast “Praia dos Ossos”, da Rádio Novelo, que também inspirou o roteiro da minissérie. “Antes do convite para o papel, eu nem conhecia a história. Mas, depois de ouvir o podcast – o melhor que já ouvi na vida –, pirei com a personagem.”
Durante quase um ano, a atriz mergulhou em pesquisas, documentários e livros sobre o caso e o contexto da época. “Queria entender essa mulher livre, confortável na própria pele, combativa, solar, ampla, que gostava do protagonismo”, conta. “Nunca tinha vivido uma personalidade como essa.”
Mais do que uma reconstrução histórica, Marjorie encarou o papel como um espelho da condição feminina – um exercício de olhar para dentro e para fora ao mesmo tempo. Nos bastidores, cada detalhe, do figurino às falas, foi discutido à exaustão. “Às vezes, alguém dizia: ‘assim fica vulgar’. E eu pensava: ‘mas vulgar segundo quem? Será que isso é um critério artístico ou moralista?’”

Do passado para o presente
Quase meio século separa o assassinato de Ângela Diniz dos dias atuais, mas o eco da violência contra as mulheres ainda ressoa. O Brasil ocupa o quinto lugar no ranking mundial de feminicídios, com quatro mulheres assassinadas por dia, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Foi só em 2023 que a tese da “legítima defesa da honra” – a mesma usada para justificar o crime de Doca Street – foi finalmente derrubada pelo Supremo Tribunal Federal. “Por mais que hoje existam leis de proteção para a mulher no Brasil, isso mostra que a mentalidade segue a mesma. Porque, se ela tivesse realmente mudado, a gente não precisaria se proteger.”
Dos anos 1970 até hoje, porém, Marjorie enxerga algumas transformações significativas, principalmente no que diz respeito à autonomia feminina. “As mulheres conquistaram espaços de liderança, mais controle sobre o próprio corpo, o direito de escolher se querem ou não se casar, ter filhos ou terminar um relacionamento”, afirma. “Hoje, tenho muito mais autonomia sobre a minha vida do que minha mãe teve sobre a dela.”
A atriz também vê uma diferença geracional importante. “A geração de mulheres que tem 20 anos hoje é a geração do ‘e’: posso ser isso e aquilo. Já a minha era do ‘ou’: ou você é isso ou aquilo, até profissionalmente.”

A carreira frente às câmeras
Sem saber exatamente de onde veio o impulso de atuar, Marjorie Estiano foi descobrindo, ao longo da carreira, onde mora o propósito. “Antes, o trabalho era algo muito meu, para me satisfazer, para me dar o prazer de brincar e viver outras histórias”, lembra. “Meu foco estava na dificuldade de executar e alcançar um resultado que eu admirasse e reconhecesse como bom.”
Hoje, aos 43 anos (quase metade deles diante das câmeras), a atriz enxerga o ofício sob outra perspectiva. “Conforme fui crescendo e amadurecendo, comecei a transferir o valor do meu trabalho para fora, pensando para quem isso serve, além de mim.” Essa virada a levou a escolher papéis e projetos que dialogam com questões sociais. “Hoje, me vejo como um instrumento de compreensão e reflexão do comportamento humano para a sociedade.”
Dentro do audiovisual, Marjorie também celebra o aumento da diversidade nas equipes, tanto na frente quanto atrás das câmeras. “Quando olho para uma equipe e vejo mais mulheres, isso me enche de alegria. Me sinto muito mais segura, amparada, vista e percebida enquanto mulher”, afirma. “O oposto, no entanto, me grita muito mais hoje, quando vejo uma equipe toda masculina.”
Com o tempo, vieram também mais liberdade e prazer em relação ao trabalho. “Estou em um momento em que tenho mais autonomia sobre a minha carreira, mas essa liberdade também é assustadora”, admite. “A minha expectativa é poder reconhecer as minhas boas escolhas e descobrir quais são as melhores para o futuro.”
Sem planos de longo prazo, ela guarda o desejo de tocar um projeto autoral e, quem sabe, atuar como produtora. “Quero levantar algo que tenha origem exclusivamente em mim, que eu queira explorar, vivenciar e que considere importante como discussão e debate”, diz. “Não sei como ou quando, mas sei que quero colocar em prática.”