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Transformar Sistemas Alimentares Pode Ajudar a Enfrentar o Aquecimento Global, Aponta Estudo

Comissão EAT-Lancet afirma que sua reconfiguração poderia gerar retornos de US$ 5 trilhões por ano, valor que representa mais de duas vezes o PIB do Brasil

6 min

Transformar os sistemas alimentares em todo o mundo poderia reduzir pela metade as emissões de gases de efeito estufa do setor, de acordo com uma nova análise.

O estudo da Comissão EAT-Lancet alerta que os sistemas alimentares atualmente respondem por quase um terço (30%) do total global de emissões de gases de efeito estufa. Também adverte que, mesmo com uma transição global completa para longe dos combustíveis fósseis, os sistemas alimentares ainda poderiam empurrar as temperaturas além do limite de 1,5 grau Celsius estabelecido no Acordo de Paris.

“Não há solução segura para as crises climática e de biodiversidade sem uma transformação global dos sistemas alimentares”, afirma o relatório.

Os sistemas alimentares estarão entre os temas centrais da COP30, que será realizada em Belém (PA). A conferência incluiu o eixo “Transforming Agriculture and Food Systems” na Agenda de Ação, reconhecendo o papel da produção e do consumo de alimentos nas emissões globais e na adaptação climática. A programação também prevê um summit sobre sistemas agroalimentares, reunindo governos, empresas, cientistas e organizações civis para discutir práticas agrícolas sustentáveis, segurança alimentar e redução do desperdício. No caso da FAO, o organismo também apoia a inclusão do tema, reforçando que a agricultura e os sistemas alimentares são decisivos para cumprir as metas do Acordo de Paris e manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C.

A Comissão EAT-Lancet é uma iniciativa científica internacional formada em 2019 pela organização EAT e pela revista médica The Lancet, uma das mais respeitadas do mundo. Seu objetivo é reunir especialistas de diversas áreas — nutrição, agricultura, meio ambiente, saúde pública, economia e política alimentar — para definir o que seria uma dieta saudável e sustentável para a população mundial, considerando os limites ambientais do planeta.

São 37 cientistas de 17 países, entre eles o Brasil. Faz parte o professor Carlos Augusto Monteiro, médico e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), referência internacional em nutrição e saúde pública. Ele é um dos criadores do Guia Alimentar para a População Brasileira (publicado pelo Ministério da Saúde) e do conceito de alimentos ultraprocessados, que teve grande impacto mundial nos estudos sobre alimentação e doenças crônicas.

O documento da Comissão EAT-Lancet afirma que a reconfiguração dos sistemas alimentares poderia gerar retornos de US$ 5 trilhões por ano (R$ 28 trilhões na cotação atual) por meio de melhorias na saúde, restauração de ecossistemas e aumento da resiliência climática. Mas acrescenta que alcançar esses objetivos exige ação política urgente, transformação nos padrões de consumo alimentar e um realinhamento dos incentivos financeiros globais para apoiar sistemas alimentares justos, resilientes e sustentáveis.

O copresidente da comissão e diretor do Instituto Potsdam de Pesquisa sobre Impacto Climático, Johan Rockström, disse em uma coletiva online que a transformação poderia reduzir as emissões estimadas de gases de efeito estufa do setor em 2050, de 7 bilhões de toneladas de dióxido de carbono por ano para menos de 3 bilhões.

Rockström acrescentou que o estudo fornece as orientações mais claras sobre como alimentar 10 bilhões de pessoas “de forma nutritiva, equitativa e dentro dos limites planetários”, ao mesmo tempo em que destaca a dimensão do desafio.

Ele afirmou que, mesmo que o desperdício de alimentos seja drasticamente reduzido, práticas mais sustentáveis de manejo da terra e da água sejam adotadas e o setor agrícola abandone os combustíveis fósseis, o sistema alimentar global mal conseguiria retornar ao “espaço operacional seguro da Terra”.

“Este relatório mostra o quão rapidamente devemos avançar na direção certa, mas os benefícios de fazer isso são enormes. Avaliamos que a transformação pode gerar um retorno anual superior a US$ 5 trilhões (R$ 28 trilhões) em saúde, resiliência climática e ecossistemas restaurados.”

Esse valor equivale a mais de duas vezes o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, estimado em US$ 2 trilhões. O relatório EAT-Lancet também argumenta que é necessária uma distribuição mais justa de recursos, benefícios e custos para garantir que os sistemas alimentares sejam sustentáveis para as pessoas e para o planeta. Isso inclui as bases sociais que asseguram o direito à alimentação, ao trabalho decente e a um ambiente saudável.

A Comissão sustenta que uma transformação realmente eficaz deve considerar os fundamentos sociais e os limites planetários para criar um futuro seguro e justo para todos.

Com base nas conclusões do relatório, a comissão delineou várias soluções potenciais destinadas a promover metas de saúde, meio ambiente e justiça, incluindo a proteção e promoção de dietas tradicionais e saudáveis e a implementação de práticas de produção sustentáveis que armazenem carbono, criem habitat e melhorem a qualidade da água.

Outro copresidente da comissão, o professor Walter C. Willett, da Escola de Saúde Pública T.H. Chan da Universidade de Harvard, afirmou em comunicado que as conclusões do relatório reforçam que a dieta da saúde planetária é benéfica para as pessoas e para o planeta.

O professor Willett acrescentou que, ao aumentar a produção e o consumo de grãos integrais, frutas, verduras, nozes e leguminosas, é possível melhorar os resultados de saúde em todo o mundo, respeitando as tradições culturais e regionais.

“Mas as dietas são apenas uma parte do quadro, e a transformação exige ação em todo o sistema”, disse ele. “As oito soluções que propomos oferecem um roteiro prático para destravar a transformação em larga escala. Estamos em uma encruzilhada global, e governos, empresas, sociedade civil e indivíduos têm um papel a desempenhar no realinhamento dos sistemas alimentares para o benefício de todas as pessoas e do planeta.” (Com Forbes Brasil)

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