O presidente francês Emmanuel Macron afirmou nesta terça-feira (20) que a Europa não cederá a valentões nem se deixará intimidar, em uma crítica contundente à ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor tarifas pesadas caso a Europa não permita que ele assuma o controle da Groenlândia.
Enquanto outros líderes europeus tentaram adotar um tom mais comedido para evitar a escalada da disputa transatlântica, Macron partiu para o ataque.
A França, e a Europa, não irão “aceitar passivamente a lei do mais forte”, disse Macron durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, acrescentando que agir de outra forma levaria à sua submissão.
Em vez disso, afirmou ele, a Europa continuará a defender a soberania territorial e o Estado de Direito, apesar do que classificou como uma mudança rumo a um mundo sem regras. Isso pode incluir uma resposta da União Europeia com suas próprias sanções comerciais severas.
Não aos valentões
“Preferimos o respeito à intimidação”, disse Macron. “E preferimos o Estado de Direito à brutalidade.”
Macron usou óculos de sol estilo aviador durante o discurso, o que, segundo o Palácio do Eliseu, serviu para proteger seus olhos devido a um rompimento de vaso sanguíneo.
Ele fez o pronunciamento depois que Trump ameaçou impor tarifas enormes sobre vinhos e champanhes franceses e publicou mensagens privadas trocadas com Macron — uma violação incomum da discrição diplomática.
Trump já havia prometido no sábado implementar, a partir de 1º de fevereiro, uma onda de tarifas crescentes contra vários aliados europeus, incluindo a França, até que os Estados Unidos sejam autorizados a adquirir a Groenlândia, medida que grandes países da UE classificaram como chantagem.
A “acumulação incessante” de novas tarifas por Washington é “fundamentalmente inaceitável”, disse Macron em Davos, “ainda mais quando são usadas como instrumento de pressão contra a soberania territorial”.
O que a Europa fará?
Líderes da União Europeia decidiram no fim de semana se reunir em Bruxelas, na noite de quinta-feira, para uma cúpula de emergência sobre a Groenlândia.
Tarifas sobre 93 bilhões de euros em produtos americanos, que a UE havia deixado em suspenso quando Trump fechou um acordo comercial com o bloco no último verão, podem entrar em vigor em 6 de fevereiro.
Macron tem defendido que a UE também considere o primeiro uso do seu Instrumento Anticoerção, informalmente conhecido como a “bazuca comercial”, que poderia limitar o acesso dos EUA a licitações públicas ou restringir o comércio de serviços, como plataformas de tecnologia. Macron disse nesta terça-feira (20) que era “insano” o conflito ter chegado a esse ponto.
Relação abalada
A relação do presidente dos Estados Unidos com a Europa como um todo se deteriorou profundamente após sua tentativa de retirar a soberania da ilha ártica de um aliado da OTAN, a Dinamarca, abalando a indústria europeia e provocando ondas de choque nos mercados financeiros.
Trump também se mostrou ofendido com a relutância da França em aderir a um proposto Conselho da Paz, uma nova organização internacional que ele lideraria. Paris expressou preocupação com o impacto da iniciativa sobre o papel das Nações Unidas.
Questionado sobre a posição de Macron em relação ao Conselho da Paz, Trump afirmou no fim da noite de segunda-feira: “Vou impor uma tarifa de 200% sobre os vinhos e champanhes dele, e ele vai aderir, mas não precisa aderir.”
Trump publica mensagem privada
Algumas horas depois, Trump publicou em sua conta na Truth Social uma captura de tela de uma troca de mensagens com Macron.
Na conversa, que uma fonte próxima a Macron disse ser autêntica, Macron afirmou a Trump: “Não entendo o que você está fazendo com a Groenlândia”, e ofereceu sediar uma reunião do G7 convidando a Rússia e outros países. Nem Trump nem a fonte francesa divulgaram a data das mensagens.
Nenhum encontro Trump-Macron previsto em Davos
Macron confirmou que não planeja estender sua permanência em Davos até quarta-feira (21), quando Trump chega à cidade alpina suíça.
“Não preciso mudar minha agenda”, disse ele, acrescentando que sua saída na noite desta terça-feira já estava planejada há muito tempo.
Macron, que deixará o cargo em meados de 2027, é presidente da França desde 2017. Sua relação com Trump teve altos e baixos desde o primeiro mandato do republicano, com Macron alternando entre elogios e uma retórica mais dura.
Autoridades francesas há muito defendem os esforços de Macron para dialogar diretamente com Trump, afirmando que os dois costumam manter conversas improvisadas e trocar mensagens fora dos canais diplomáticos oficiais.
Pessoas próximas a Macron disseram que ele está sendo alvo de Trump justamente por defender princípios democráticos.
“Ao liderar a resistência, a França se torna um alvo”, disse à Reuters o deputado Pieyre-Alexandre Langlade, aliado de Macron.