Os ataques do presidente Donald Trump ao Irã aumentaram a incerteza global. Porém a possibilidade de um conflito prolongado pode se mostrar lucrativa para diversos setores. Empresas como Lockheed Martin, Raytheon, Boeing, Exxon e outras companhias de defesa e energia estão entre as que têm mais chances de ganhar com a guerra.
As forças militares dos Estados Unidos atacaram o Irã nas primeiras horas da manhã de sábado (28), iniciando um novo conflito no Oriente Médio. Ainda não há uma perspectiva clara sobre quanto tempo as operações militares devem durar.
O mercado de ações apresentou volatilidade nos primeiros dias da guerra. O Dow Jones Industrial Average, o S&P 500 e o Nasdaq Composite abriram em queda na manhã de quinta-feira (5) em meio à continuidade das incertezas.
Empresas de defesa que possuem contratos com as forças armadas dos EUA — como Lockheed Martin, Raytheon e Palantir — são as beneficiárias diretas do conflito. Os ativos do setor, de forma geral, têm apresentado tendência de alta nesta semana, apesar de uma breve queda registrada na terça-feira (3).
À medida que o conflito no Oriente Médio afeta a produção e o transporte de petróleo e gás na região, grandes companhias petrolíferas como Exxon e Chevron também podem se favorecer do aumento dos preços do petróleo. O nicho de petróleo e gás registrou valorização no mercado acionário durante o conflito.
No extremo oposto, os preços mais altos do petróleo — com os contratos futuros em forte alta, incluindo avanços de três a quatro pontos na manhã de quinta-feira (3) — e o aumento das incertezas devem prejudicar setores como turismo, bens de luxo e grandes empresas de transporte de cargas, como FedEx e UPS.
Quais empresas podem se beneficiar da guerra?
O Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM) identificou mais de 20 sistemas de armas utilizados nas operações no Irã. A maioria deles é fabricada por Lockheed Martin, RTX e sua subsidiária Raytheon, Boeing, Northrop Grumman, L3Harris Technologies e General Atomics Aeronautical, entre outras.
As ações dessas empresas, de forma geral, subiram nesta semana. No entanto, o mercado observa que os papéis da Boeing não avançaram tanto já que uma parcela menor de seus negócios depende de contratos militares.
A companhia SpektreWorks, sediada no Arizona, desenvolveu os drones unidirecionais “LUCAS”, que segundo os militares foram utilizados para realizar ataques a um custo mais baixo. Já os mísseis Tomahawk, de tecnologia mais avançada e também usados na região, são produzidos pela Raytheon.
Os interceptadores THAAD, outro tipo de míssil utilizado para neutralizar ataques inimigos, são fabricados pela Lockheed Martin. Essas empresas — e outras que atuam nos segmentos de drones e sistemas de mísseis — estão entre as que mais podem se beneficiar dos ataques.
O diretor de investimentos da Catalyst Funds, David Burns, afirmou que as companhias com maior exposição a sistemas de defesa antimísseis são as que tendem a ser as mais beneficiárias do aumento da demanda.
A empresa de software Palantir registrou alta em seus ativos, pois fornece serviços ao setor militar.
Analistas sugerem que companhias europeias de defesa podem tirar vantagem. Especialistas do JP Morgan apontam BAE Systems, Renk, Leonardo DRS e QinetiQ como as empresas com maior exposição ao mercado dos EUA.
E as de energia?
Os preços do petróleo e do gás subiram após restrições no tráfego no Estreito de Ormuz, passagem por onde circula aproximadamente 20% do petróleo mundial. Esses valores mais altos têm favorecido as companhias petrolíferas dos Estados Unidos.
As ações de grandes empresas como Exxon, Chevron Corp. e Occidental Petroleum subiram imediatamente após os ataques realizados no fim de semana, embora tenham apresentado maior volatilidade nos dias seguintes devido às incertezas sobre o conflito e seus impactos no setor.
Burns comentou que empresas de petróleo de menor valor de mercado, como a Talos Energy, estão bem posicionadas para se beneficiar da alta dos preços e da continuidade do conflito.
Mesmo que o aumento do preço da gasolina tenha favorecido os produtores de petróleo, analistas preveem que uma guerra prolongada ainda pode beneficiar o setor de energia renovável. Isso acontece, pois consumidores podem buscar alternativas como energia solar e eólica para reduzir o impacto de preços elevados e evitar a volatilidade do petróleo e do gás.
“As energias renováveis oferecem um nível menor de risco relacionado a commodities em comparação às importações de combustíveis fósseis. Lembrar esse benefício pode impulsionar as ações do setor”, afirmou Pavel Molchanov, diretor do banco de investimentos Raymond James, ao E&E News.
Empresas de transporte marítimo podem ganhar ou perder?
Grandes firmas de logística, como FedEx, UPS e DHL, podem ser prejudicadas se o conflito durar muito tempo. O preço de seus papéis já reflete esse risco, já que o petróleo mais caro e possíveis rotas longas — causadas pelo fechamento de espaços aéreos no Oriente Médio — podem elevar os custos de combustível, segundo a Bloomberg.
Por outro lado, empresas que administram contêineres de transporte marítimo podem se beneficiar das dificuldades logísticas. Atualmente, navios estão sendo redirecionados para evitar o movimentado Canal de Suez e o Estreito de Ormuz, informou o Wall Street Journal. Isso força os contêineres a percorrer distâncias maiores, permitindo que as companhias cobrem tarifas mais altas pelas viagens mais longas.
Como resultado, as ações de empresas como a gigante dinamarquesa Maersk e a alemã Hapag-Lloyd subiram durante as tensões na região. Ainda assim, essas companhias também enfrentam riscos de perdas de negócios e danos a ativos devido aos ataques em andamento.
A Maersk e outras empresas suspenderam operações em portos do Oriente Médio por razões de segurança. Alguns navios foram atingidos durante os ataques, levando companhias a fechar escritórios e orientar embarcações na região a “buscar abrigo”, segundo a Agence France-Presse.
O que não se sabe?
Ainda não está claro quanto tempo o conflito no Irã vai durar. Os ganhos observados nos setores de defesa e energia podem ser temporários caso o conflito seja resolvido rapidamente ou se novas medidas forem adotadas para reduzir os preços do petróleo.
Especialistas disseram à AFP que medidas do governo Trump para reduzir o impacto da guerra sobre o petróleo — como prometer escoltar navios no Estreito de Ormuz ou recorrer a estoques emergenciais de petróleo — poderiam reduzir os ganhos registrados pelas companhias petrolíferas.
Já empresas de energia renovável tendem a se beneficiar caso a guerra se prolongue e os preços do petróleo permaneçam elevados. Para empresas de defesa, o analista Byron Callan afirmou à revista Air & Space Forces Magazine que o conflito é positivo para o setor no curto prazo. Porém tudo depende de quanto tempo o conflito vai durar e se os Estados Unidos conseguirão neutralizar o Irã.
Uma guerra mais longa significa que os estoques de armamentos precisarão ser repostos, favorecendo as empresas do setor. Por outro lado, uma vitória rápida e decisiva dos EUA poderia reduzir a necessidade de armamentos no longo prazo na região.
“Há uma ampla gama de planos de guerra que incluíam o Irã”, disse Callan, acrescentando que esses cenários agora mudarão conforme o desenrolar do conflito.
Quais empresas podem ter o pior desempenho?
O setor de viagens e turismo foi um dos mais afetados até agora pelos ataques ao Irã. As ações de grandes companhias aéreas, empresas de cruzeiros e redes de hotéis registraram quedas nesta semana. Isso acontece pois o conflito eleva os custos de combustível e aumenta a incerteza dos consumidores na hora de planejar viagens.
Os próprios ataques também representam um risco ao setor. Voos foram suspensos em partes do Oriente Médio, enquanto grandes redes hoteleiras já registraram danos em propriedades localizadas na região.
Analistas apontam que empresas de tecnologia podem sofrer impactos, já que investidores tendem a buscar ativos considerados menos arriscados em períodos de conflito.
O setor de bens de luxo também pode ser prejudicado. As ações de companhias como LVMH, Burberry e Richemont— dona das marcas Cartier, Van Cleef & Arpels e Chloé — caíram nesta semana.
Especialistas citam dois fatores principais: o forte investimento dessas empresas no Oriente Médio e o fato de que produtos de luxo costumam ter melhor desempenho em períodos de maior estabilidade econômica.
Consumidores ficam menos propensos a realizar compras de alto valor, como itens de luxo, quando a economia se deteriora. Segundo analistas da RBC Capital Markets citados pela CNBC, esse segmento costuma prosperar em momentos de “confiança positiva do consumidor e expectativas favoráveis em relação ao futuro”.
Apesar de alguns nichos se beneficiarem, economistas preveem que o conflito terá impacto econômico negativo no conjunto da economia. Kent Smetters, diretor do Penn Wharton Budget Model (PWBM), afirmou à revista Fortunena segunda-feira (2) que a guerra pode provocar uma perda econômica para os Estados Unidos entre US$ 50 bilhões (R$ 264,5 bilhões) e US$ 210 bilhões (R$ 1,11 trilhão).
Matéria originalmente publicada em Forbes.com