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“O problema da IA não é tecnológico, é operacional”, diz diretor internacional da Thomson Reuters

Adrián Fognini, Head of International da Thomson Reuters, diz que clientes já cobram ganhos concretos com IA mas muitas empresas ainda não redesenharam seus fluxos de trabalho

7 min

A inteligência artificial entrou na rotina de advogados, contadores, auditores e profissionais de compliance. Adrián Fognini, Head of International da Thomson Reuters, diz que o desafio das empresas deixou de ser o acesso à tecnologia. “O problema não é tecnológico. É operacional”, afirma Fognini à Forbes.

O executivo, que lidera a operação global da Thomson Reuters fora dos Estados Unidos, diz que muitas organizações já usam IA com frequência, mas ainda não conseguiram transformar esse uso em ganhos claros de qualidade, velocidade e eficiência para os clientes.

A avaliação vem na esteira do relatório Future of Professionals 2026, divulgado pela Thomson Reuters nesta semana e que mostrou que até US$ 143 bilhões em receitas nos mercados jurídico e contábil dos Estados Unidos podem ficar sob revisão caso fornecedores não comprovem ganhos reais com IA.

Segundo o estudo, 74% dos profissionais já usam ferramentas de IA semanalmente. Ao mesmo tempo, 91% afirmam que suas organizações ainda operam abaixo do potencial da tecnologia.

Para Fognini, esse é o ponto que começa a separar empresas que apenas adotaram ferramentas daquelas que conseguiram incorporá-las ao negócio.

A pressão dos clientes ficou estrutural

Na visão do executivo, a cobrança dos clientes não está concentrada em uma área específica, como pesquisa jurídica, auditoria, impostos, elaboração de documentos ou compliance.

“A pressão não está em um serviço específico, ela é estrutural. A IA elevou o padrão do que clientes esperam em todas as entregas, de jurídico a impostos e compliance”, afirma.

O relatório mostra que 78% dos clientes corporativos consideram muito importante ou essencial que seus fornecedores entreguem melhorias de qualidade impulsionadas por IA. Apenas 6%, porém, acreditam que a maioria dos fornecedores esteja entregando esse nível de resultado.

Para Fognini, isso indica uma mudança na forma como empresas contratam serviços profissionais. “Isso desloca a pressão para algo mais estrutural: do serviço para a capacidade de executar com IA em todo o negócio”, diz.

Escritórios jurídicos, consultorias contábeis, áreas tributárias e empresas de compliance passam a ser avaliados não apenas pelo conhecimento técnico, mas pela capacidade de usar IA de forma confiável, integrada e mensurável.

O uso da IA ainda não virou transformação

O uso frequente da IA não significa, necessariamente, maturidade. Segundo Fognini, muitas empresas ainda tratam a tecnologia como uma camada extra de produtividade, e não como uma ferramenta para redesenhar processos.

“A IA já está integrada à rotina profissional. No entanto, o dado mais relevante não é apenas se a IA está sendo usada, mas como ela está sendo usada”, afirma.

Para ele, o valor da tecnologia aparece quando ela altera a forma como o trabalho é produzido, revisado, auditado e entregue.

“Muitas organizações ainda a utilizam como uma camada adicional e não como um motor de transformação dos fluxos de trabalho. É exatamente aí que surge o gap: o uso existe, mas o redesenho do trabalho, que é onde o valor é capturado, ainda não aconteceu de forma consistente.”

Essa diferença ajuda a explicar por que a adoção avança, mas a percepção de resultado ainda é baixa. A tecnologia está disponível, os profissionais já experimentam ferramentas no dia a dia, mas a execução ainda depende de governança, processos, treinamento e escolha de plataformas adequadas.

“Quase certo” não basta

Um dos principais alertas do relatório está no uso de ferramentas genéricas de IA em setores regulados. Em áreas que lidam com dados sigilosos, documentos sensíveis, obrigações legais e decisões com impacto financeiro, respostas imprecisas ou sem rastreabilidade podem criar riscos relevantes.

A Thomson Reuters chama de IA de nível fiduciário, ou Fiduciary Grade AI, o padrão necessário para o uso profissional da tecnologia nesses setores. “Quando os resultados influenciam decisões legais, divulgações financeiras, registros regulatórios ou aconselhamento ao cliente, ‘quase certo’ simplesmente não é suficiente”, diz Fognini.

Segundo ele, esse padrão precisa combinar conteúdo confiável e específico de cada área, privacidade, segurança, transparência, resultados verificáveis e acesso a suporte humano especializado.

A escolha da ferramenta passa a ter impacto direto na gestão de risco e na relação com clientes. “Isso significa três coisas para o escritório ou a empresa: resultados que resistem ao escrutínio profissional, redução do risco de shadow AI e um diferencial competitivo concreto.”

Shadow AI vira risco para empresas lentas

A chamada shadow AI, uso de ferramentas de IA não aprovadas pelas empresas, aparece como outro ponto de preocupação. O relatório mostra que um terço dos advogados, contadores e profissionais de compliance usa ferramentas não autorizadas pelas organizações. Entre profissionais que consideram suas empresas lentas na adoção da tecnologia, esse percentual sobe para 41%.

Para Fognini, esse comportamento é uma consequência da distância entre a demanda dos profissionais e a estrutura oferecida pelas empresas. Quando a organização demora a adotar ferramentas adequadas, os profissionais buscam alternativas por conta própria. O problema é que, em setores regulados, esse uso pode envolver informações confidenciais, documentos de clientes, dados financeiros e recomendações com impacto jurídico. O risco, portanto, não está apenas na ferramenta em si, mas na falta de controle sobre como ela é usada.

O custo de não executar bem

A Thomson Reuters não trata a IA apenas como uma pauta de eficiência. Para Fognini, o principal impacto está no custo de não conseguir transformar adoção em resultado. “O estudo não trabalha com ganhos isolados, como margem ou produtividade pontual. Ele aponta algo mais profundo: o custo real de não conseguir executar bem com IA”, afirma.

Esse custo pode aparecer de várias formas: perda de clientes, contratos sob revisão, queda de produtividade, dificuldade para reter talentos e maior exposição a riscos operacionais.

“O valor da IA está disponível, mas muitas organizações ainda não conseguem capturá-lo”, diz. O relatório também mostra que a adoção da IA começa a pesar na decisão dos profissionais sobre onde trabalhar. Entre aqueles que enxergam uma diferença entre o potencial da tecnologia e o que suas organizações entregam, 24% afirmam que considerariam deixar o emprego atual em até dois anos.

Para empresas de serviços jurídicos, contábeis e de compliance, isso adiciona uma nova camada de pressão. Além de atender clientes mais exigentes, elas precisam oferecer ferramentas e processos capazes de reter profissionais que já incorporaram IA à rotina.

Brasil segue a mesma tendência global

O relatório não traz dados específicos sobre Brasil e América Latina, mas, segundo Fognini, a região está inserida na mesma dinâmica observada em outros mercados.

“O estudo tem perspectiva global e mostra que os mesmos desafios estão presentes em todos os mercados: alto nível de adoção, baixo nível de execução, pressão de clientes e de talentos”, afirma.

Para o executivo, empresas brasileiras e latino-americanas enfrentam a mesma virada: usar IA deixou de ser diferencial e passou a ser uma exigência competitiva.

A diferença, daqui para frente, estará na capacidade de transformar a tecnologia em processos auditáveis, seguros e capazes de gerar resultado mensurável.

“A tecnologia está pronta. O que separa quem lidera de quem fica para trás é o padrão de IA que se escolhe adotar”, diz Fognini.

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