A inflação mais fraca nos Estados Unidos comprou tempo para o Federal Reserve, o banco central americano, e melhorou as perspectivas para as bolsas e os mercados emergentes. Analistas alertam, porém, que a queda dos preços foi fortemente influenciada pela energia e pode ser parcialmente revertida pela alta do petróleo. Nesta segunda-feira,13, o barril do petróleo subiu mais de 9%, com a escalada da tensão no Oriente Médio.
Na avaliação dos especialistas, o resultado da inflação diminui a necessidade de o banco central americano voltar a elevar os juros nas próximas reuniões. Mas a leitura é de que o dado ainda não é suficiente, contudo, para indicar o início de um ciclo consistente de cortes.
O Índice de Preços ao Consumidor, o CPI, caiu 0,4% em junho ante maio. A inflação acumulada em 12 meses desacelerou para 3,5%. O núcleo do indicador, que exclui alimentos e energia, ficou estável no mês.
Fed ganha espaço para esperar
Para Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, o CPI mostrou uma desaceleração mais ampla que a prevista, inclusive entre os componentes do núcleo.
“O número reduz a urgência de uma postura mais restritiva do Federal Reserve e enfraquece a probabilidade de novas altas no curto prazo”, afirma. Segundo Lima, o resultado isolado não permite antecipar um ciclo consistente de redução dos juros.
Luiz Ferreira, CIO do banco suíço EFG para as Américas, também avalia que a combinação entre inflação mais baixa e enfraquecimento do mercado de trabalho diminui a possibilidade de uma alta imediata.
“Com esse dado, a autoridade monetária certamente não vai subir os juros agora em julho e, possivelmente, também não em setembro”, diz. Na avaliação de Ferreira, uma eventual alta dos juros parece agora mais provável em dezembro do que em outubro.
O executivo destaca que quase metade dos componentes da cesta de inflação apresentou queda mensal. A redução dos preços da gasolina e dos seguros de automóveis reforçou os sinais de desaceleração.
Petróleo pode tornar alívio temporário
A principal ressalva dos analistas está na influência da energia sobre o resultado. Os preços do setor caíram 5,7% em junho. A gasolina recuou 9,7%.
Para Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, o CPI reforça a percepção de arrefecimento da inflação no curto prazo. A queda da energia, no entanto, ocorreu durante um período de trégua no conflito do Oriente Médio.
Com a retomada das tensões e a valorização do petróleo, parte dessa pressão pode retornar nas próximas divulgações. “O alívio de junho parece ter sido temporário, e a pressão inflacionária deve retornar nas próximas leituras”, afirma Kayo.
O economista lembra que o próprio Federal Reserve já vinha apontando os conflitos geopolíticos como um risco para a inflação. As tarifas comerciais e os investimentos em infraestrutura de inteligência artificial também podem aumentar os custos na economia americana.
Lima concorda que a composição do CPI exige cautela. “A queda mensal foi fortemente influenciada pela energia, o que limita a leitura de que a inflação americana já convergiu de forma sustentável à meta”, diz.
Segundo o analista, a retomada da pressão sobre petróleo e combustíveis pode dificultar a continuidade da desinflação.
Núcleo e moradia também perderam força
Embora a energia tenha sido o principal fator por trás da queda do CPI, parte dos especialistas identifica sinais positivos em outros componentes.
Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações, destaca a estabilidade do núcleo da inflação. Os custos de moradia também registraram a menor variação mensal desde janeiro de 2021.
“Essa composição indica uma perda de força mais ampla dos preços e tende a reduzir a pressão sobre os juros de longo prazo dos Estados Unidos”, afirma Murad.
A queda das taxas de mercado costuma favorecer ações e títulos com vencimentos mais longos. Juros menores reduzem a taxa utilizada pelos investidores para calcular o valor presente dos resultados futuros das empresas.
O número, entretanto, não garante cortes imediatos ou agressivos pelo Fed. “A inflação cheia ainda está em 3,5%, e alguns serviços continuam pressionados”, diz Murad.
Para ele, o mercado deve passar a discutir menos a possibilidade de uma flexibilização monetária e mais o momento e a intensidade desse processo.
Dólar mais fraco pode favorecer Ibovespa
Uma inflação americana mais baixa tende a reduzir os rendimentos dos Treasuries, os títulos públicos dos Estados Unidos.
Com retornos menores no mercado americano, o dólar pode perder força e investidores globais passam a demonstrar maior disposição para aplicar em países emergentes.
Esse movimento pode favorecer o real e o Ibovespa. “O efeito imediato é a redução dos rendimentos dos Treasuries, o enfraquecimento global do dólar e a melhora do apetite por risco”, afirma Lima.
Segundo o analista, as ações brasileiras também podem ser beneficiadas pela redução da taxa de desconto e por uma possível recomposição do fluxo estrangeiro. O cenário externo favorável não elimina, porém, os riscos internos.
“O efeito sobre os ativos brasileiros deverá depender da persistência da desinflação americana e da evolução do risco fiscal doméstico”, diz Lima.
Analistas recomendam cautela ao investidor
Murad afirma que o resultado melhora a perspectiva para os ativos globais, mas não justifica mudanças bruscas nas carteiras.
Parte do otimismo pode já ter sido incorporada aos preços das ações e dos títulos. Investidores que alterarem suas posições depois da reação do mercado podem assumir riscos quando uma parcela do potencial de valorização já passou.
“A leitura mais prudente é que houve uma melhora relevante, mas ainda não uma vitória definitiva sobre a inflação”, afirma.
Para Murad, a exposição internacional deve continuar sendo vista como uma forma de diversificação entre países, moedas e fontes de retorno.
A conclusão predominante entre os analistas é que o CPI reduz o risco de uma alta dos juros no curto prazo e melhora o ambiente para ativos de risco. A duração desse alívio dependerá dos próximos indicadores econômicos e, principalmente, da trajetória do petróleo.