A Hapvida colocou sob avaliação contratos que envolvem cerca de 947 mil beneficiários de planos de saúde, o equivalente a aproximadamente 11% de sua carteira. A revisão faz parte de uma estratégia para recuperar a rentabilidade e ocorre após um segundo trimestre marcado por alta dos custos assistenciais e forte queda do lucro.
A companhia identificou contratos com margem negativa e também adotou critérios mais rigorosos para clientes inadimplentes. Segundo a Hapvida, o ticket médio dessas 947 mil vidas é aproximadamente metade do ticket médio consolidado dos planos de saúde.
Nos próximos meses, durante o processo de renovação, esses contratos poderão passar por reajustes para recuperar o equilíbrio econômico. Parte deles também poderá ser descontinuada caso não haja acordo sobre os novos preços ou regularização de faturas em aberto. Isso não significa, portanto, que a empresa planeje cancelar quase 1 milhão de planos.
A Hapvida afirma que, tanto no caso de uma renegociação bem-sucedida quanto no encerramento de contratos deficitários, espera efeitos positivos sobre margem e geração de caixa.
A dimensão dessa revisão chamou a atenção do BTG Pactual. Para os analistas do banco, os contratos podem enfrentar reajustes relevantes ou ser descontinuados dentro da estratégia comercial voltada à rentabilidade. O BTG considera que a companhia ainda enfrenta desafios como judicialização, utilização elevada dos planos, custos fixos altos e perda de beneficiários.
Lucro ajustado cai 96%
A revisão da carteira foi anunciada em um trimestre de forte deterioração dos indicadores de rentabilidade. O lucro líquido ajustado da Hapvida caiu 95,8% na comparação anual, para R$ 12,5 milhões, ante R$ 299,5 milhões no segundo trimestre de 2025. Frente aos três primeiros meses deste ano, a queda foi de 94,9%.
O número também ficou muito abaixo dos R$ 143,2 milhões esperados pelo BTG Pactual. O banco classificou os resultados como fracos e piores do que o previsto.
O Ebitda ajustado recuou 44,3% em um ano, para R$ 504,4 milhões, e ficou cerca de 30% abaixo da projeção de R$ 722,1 milhões do BTG. Segundo o banco, foi o pior resultado de Ebitda da Hapvida dos últimos cinco anos. A margem Ebitda ajustada caiu de 11,8% para 6,3%.
No resultado contábil, a Hapvida teve prejuízo líquido de R$ 217,1 milhões, ante perda de R$ 205,8 milhões no mesmo período do ano passado.
A receita, por outro lado, continuou crescendo. A receita líquida avançou 3,9%, para R$ 7,97 bilhões, impulsionada principalmente pelos reajustes dos contratos de planos de saúde. O ticket médio mensal de saúde subiu 5,7% em um ano, para R$ 305,90.
Custos pressionam resultado
Um dos principais fatores por trás da piora foi a sinistralidade caixa, indicador que mostra a parcela da receita consumida pelos custos assistenciais. Ela chegou a 75,2% no segundo trimestre, ante 72,2% nos três primeiros meses do ano e 73,9% um ano antes.
A Hapvida atribuiu o aumento principalmente à sazonalidade mais desfavorável do trimestre e a um volume maior de contas médicas da rede credenciada, após a utilização mais elevada observada em março.
Para o BTG, além da sazonalidade, continuam presentes problemas que pressionam a companhia há algum tempo, entre eles utilização elevada, judicialização, contratos ainda operando em condições econômicas desfavoráveis, despesas corporativas altas e pressão persistente sobre os custos médicos.
As despesas administrativas caixa somaram R$ 673,5 milhões, alta de 58,2% em um ano. Já as despesas de vendas alcançaram R$ 676,5 milhões, crescimento de 17,9%. As contingências cíveis estiveram entre as fontes de pressão sobre os gastos administrativos.
A carteira de planos de saúde terminou junho com 8,668 milhões de beneficiários, queda líquida de 16 mil vidas em relação ao primeiro trimestre. Apesar de negativa, a perda desacelerou frente à redução de 44,5 mil beneficiários registrada no trimestre anterior e foi menor que a estimativa do BTG, que esperava queda de cerca de 30 mil vidas.
BTG ainda espera sinais da recuperação
Outro ponto de atenção é a dívida. A dívida líquida aumentou 34,4% em um ano, para R$ 5,4 bilhões. Na comparação com março, o crescimento foi de R$ 236,4 milhões. A relação entre dívida líquida e Ebitda dos últimos 12 meses subiu de 1,38 vez para 1,61 vez.
O BTG manteve recomendação neutra para as ações da Hapvida e preço-alvo de R$ 15. O banco reconhece as mudanças promovidas pela nova gestão, mas avalia que seus benefícios ainda devem levar tempo para aparecer nos resultados.
Na avaliação dos analistas, a recuperação ainda depende de sinais mais efetivos de melhora operacional. Judicialização, utilização dos planos, estrutura de custos e redução da carteira continuam entre os riscos apontados pelo banco.
A própria Hapvida afirma estar no início de uma reestruturação operacional voltada à recuperação de margem, geração de caixa e desalavancagem. Entre as medidas estão mudanças de preços e produtos, revisão de contratos deficitários, otimização das redes própria e credenciada e iniciativas para reduzir despesas e combater fraudes e desperdícios.
Os números divulgados no relatório foram elaborados, em caráter extraordinário, segundo o IFRS 4/CPC 11, com objetivo de permitir acompanhamento e comparação do desempenho entre períodos. A companhia ressalta que essas informações não consideram o IFRS 17/CPC 50, padrão contábil atualmente vigente, que pode resultar em números diferentes.