A ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada nesta terça-feira (22), confirma que a percepção é de que os juros altos começam a frear a economia. No entanto, a ata não deu ao mercado uma resposta definitiva sobre o próximo passo da Selic. O documento preserva as ressalvas que permitem ao Banco Central decidir reunião a reunião.
Na semana passada, o Banco Central reduziu a taxa básica em 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75% ao ano. Agora, economistas se dividem entre a possibilidade de um novo corte de mesma magnitude na próxima reunião e uma pausa no ciclo. A pesquisa Focus, do Banco Central, mostra que o mercado ajustou a previsão da Selic para 13,50% no fim de 2026.
Os contratos de Opções de Copom negociados na B3 também mostram que o mercado se inclina para uma nova redução da Selic em novembro, mas sem consenso. Nos dados mais recentes disponíveis no painel da B3, referentes a 15 de setembro, a probabilidade de um corte de 0,25 ponto percentual estava em cerca de 57%, enquanto a manutenção da taxa tinha 35%.
A divisão aparece também nas avaliações dos economistas. Para Carlos Lopes, do banco BV, a ata não trouxe uma mudança relevante em relação ao comunicado divulgado após a decisão.
“A gente não viu nenhum sinal relevante na Ata do Copom, ela repete basicamente a sinalização de política do comunicado. Há algumas considerações mais detalhadas sobre uma desaceleração da atividade econômica, mas ainda notando uma resiliência importante do mercado de crédito e também do mercado de trabalho, dois fatores que ajudam a manter alguma pressão inflacionária.”
O BV mantém, por enquanto, a avaliação de que o corte de setembro pode ter sido o último, embora considere o cenário ainda em aberto.
“Mantemos um cenário de que esse corte na Selic foi o último, por enquanto, mas é um cenário completamente em aberto ainda”, afirma Lopes.
Segundo o economista, o Banco Central deve acompanhar tanto o ambiente internacional quanto o cenário doméstico antes de decidir se continua reduzindo os juros. Ele cita ainda a reação do mercado ao resultado das eleições como um dos elementos que podem alterar o espaço para novos cortes.
“Se a gente tiver um resultado da eleição cuja leitura de mercado seja mais favorável, aí a gente pode abrir mais espaço para a continuidade do ciclo de corte de juros”, diz.
Desaceleração mais clara
A principal novidade da ata foi uma avaliação mais firme sobre a perda de força da economia. O Copom afirmou que o PIB do segundo trimestre “confirmou a desaceleração apontada por outros indicadores” e destacou que o movimento foi mais intenso justamente nas atividades e componentes da demanda mais sensíveis ao ciclo econômico.
Na reunião anterior, em agosto, o BC ainda descrevia os sinais sobre a atividade como mistos.
A ata também trouxe um parágrafo específico sobre crédito. Segundo o Copom, houve redução nas modalidades de recursos livres de prazo mais longo, que são mais sensíveis à política monetária. Em sentido contrário, o crédito direcionado continuou em expansão, tanto para pessoas físicas quanto para empresas.
Para Beto Saadia, economista-chefe da Nomos, o documento confirma uma mudança importante na leitura da atividade, mas também apresenta contrapontos à possibilidade de uma queda mais rápida dos juros.
Um deles está nos preços ao produtor. Enquanto a ata anterior registrava recuo na variação acumulada em 12 meses, o documento divulgado nesta terça aponta aceleração tanto nos bens intermediários quanto nos bens de consumo.
Segundo Saadia, a combinação de uma atividade que perde força com custos voltando a subir na cadeia de produção ajuda a explicar por que o Copom manteve a avaliação de que os riscos para a inflação continuam assimétricos para cima.
Mesmo assim, a Nomos espera mais um corte de 0,25 ponto percentual na próxima reunião, levando a Selic a 13,5%. Para Saadia, os alertas da ata mostram principalmente que não há espaço, neste momento, para acelerar o ritmo de redução dos juros.
Inflação melhora, mas riscos permanecem
O cenário de inflação também apresentou melhora. A inflação cheia e a média das medidas subjacentes passaram a ficar abaixo do limite superior do intervalo de tolerância da meta, embora continuem acima do centro perseguido pelo Banco Central.
O Copom, no entanto, manteve a avaliação de que as expectativas de inflação desancoradas exigem juros restritivos por mais tempo. O balanço de riscos também continuou com “assimetria altista”.
A palavra “cautela” aparece duas vezes na ata. Logo no início, o Banco Central afirma que o ambiente externo exige cautela dos países emergentes. Mais adiante, ao tratar diretamente da política monetária, diz que o cenário atual demanda “serenidade e cautela” na condução dos juros.
A Galapagos Capital interpretou o documento como mais favorável à continuidade dos cortes. Em relatório, a casa destacou a maior convicção do Copom sobre a desaceleração da atividade, além dos sinais de que os juros estão chegando ao crédito e, gradualmente, ao mercado de trabalho.
Para companhia de investimentos, a comunicação mantém a política monetária dependente dos próximos dados, mas deixa aberta a possibilidade de mais um corte de 0,25 ponto percentual.
Marcel Lima, sócio da Valor Investimentos, também vê espaço para novos cortes, mas ressalta que o Banco Central não assumiu compromisso com uma trajetória de queda da Selic.
“A Selic, que hoje está em 13,75, o Banco Central sinalizou que podem vir novos cortes, mas dependendo do cenário e vê ainda risco de alta na inflação, então não é um compromisso para seguir caindo o juro até o final do ano”, afirma.
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