Empresários brasileiros tentam elevar a cultura de filantropia no país

John M Lund Photography Inc/Getty Images
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Brasil está na 122ª posição na lista de maiores doadoras para filantropia segundo o CAF World Giving Index 2018

Gratidão, retribuição, solidariedade, missão, tradição familiar… Essas foram as motivações que alguns dos principais empresários do país elencaram para justificar sua atuação em causas sociais, educacionais e culturais – algumas de longa data, outras mais recentes, mas todas igualmente impactantes. Impressiona o fato de, apesar de comandarem grandes organizações (Bruno Setubal, por exemplo, atua em cinco empresas próprias e outras cinco ligadas aos negócios familiares do grupo Itaú), eles conseguem encontrar tempo e entusiasmo para se dedicar àqueles que estão no lado oposto da pirâmide.

“Minha família está no topo do topo do topo”, reconhece Setubal, sem nenhum traço de arrogância. Retribuir esse privilégio tornou-se, há muito tempo, um ato natural entre seus familiares. “Meu pai [Olavo Setubal Junior] foi conselheiro da AACD. E também ajudamos outras instituições, como o Masp, a Todos Pela Educação…”, diz. Segundo ele, os braços sociais e culturais das empresas do grupo doam cerca de R$ 650 milhões por ano.

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Desde 2014, Bruno Setubal “na pessoa física” faz parte do grupo de empresários que põe dinheiro e a mão na massa na administração da Associação Cruz Verde, hospital paulistano ligado ao SUS e que atende gratuitamente pessoas (principalmente crianças) com paralisia cerebral. A maioria (cerca de 60%) dos pacientes foi abandonada pela família – alguns estão internados há mais de 40 anos.

Renato Pizzutto
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Bruno Setubal atua em cinco empresas próprias e outras cinco ligadas ao grupo Itaú

O SUS cobre R$ 12 milhões dos R$ 16 milhões anuais necessários para o funcionamento do hospital. Os empresários tentam cobrir essa diferença (e custear uma reforma que já se faz necessária) com dinheiro próprio e organizando iniciativas como leilões, jantares, bingos e shows.

País mão-fechada

O Cruz Verde, que já teve Antônio Ermírio de Moraes como presidente (ele ajudou a construir esse e outros hospitais públicos), conta ainda com o apoio de Filipe Sabará, herdeiro do grupo de indústrias químicas que leva seu sobrenome e cofundador da Reload, empresa de cosméticos focada em sustentabilidade ambiental e social. Ele também herdou da família a “pegada social”. “Meu pai tem uma fundação (Lamb Watchers), minha mãe tem um instituto (Inape). Então cresci em um ambiente empresarial, social e ambiental”, conta.”

Renato Pizzutto
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Filipe Sabará é empresário, herdeiro de indústrias do setor químico e protagonista de causas sociais

Voluntário no Cruz Verde, Sabará faz de tudo um pouco: antes desta entrevista, tocou no piano o Parabéns a Você para uma menina aniversariante. “As maiores economias do mundo são, com poucas variações, as maiores doadoras para filantropia. O Brasil foge completamente dessa estatística: o índice de doação da iniciativa privada aqui é baixíssimo, ficamos na 122ª posição segundo o CAF World Giving Index 2018. Ou seja, reclamamos das ONGs e do governo, mas não fazemos a nossa parte.” Para tentar reverter esse quadro, o Fundo Social do Estado de São Paulo, que Sabará presidiu até 18 de outubro (quando pediu desligamento para se dedicar ao projeto de concorrer à prefeitura de São Paulo no ano que vem), está lançando um aplicativo (SP + Humana) que vai conectar quem quer ajudar com quem precisa ser ajudado.

Bisavó

Fazendas, dezenas de milhares de cabeças de gado, uma faculdade de medicina e um patrimônio de centenas de milhões de reais não foram – e não são – motivos suficientes para desviar a atenção do paulistano Henrique Prata de sua missão principal: gerir e manter vivo o gigantesco complexo que compõe o Hospital de Amor (nome que o Hospital de Câncer de Barretos adotou em 2017).

Filho de pais oncologistas e igualmente dedicados ao tratamento gratuito dos pacientes, Prata (que não tem diploma superior) conta que dedica cinco dias por mês a seus negócios privados (“todos lucrativos”) e 25 dias aos serviços filantrópicos da rede que administra há três décadas. “A visão humanista da família começou com minha bisavó. Ela atendia pacientes tuberculosos na casa dela e inaugurou a primeira Santa Casa em Sergipe, em 1919, com dinheiro do próprio bolso”, relembra. “O filho dela (meu avô) se formou em medicina e só atendia o serviço público. O filho dele (meu pai) fez medicina na USP e nunca cobrou uma consulta na vida. E meus três filhos trabalham comigo, apesar de também terem seus negócios próprios.”

Cotado no início do governo Bolsonaro para o Ministério da Saúde, o fazendeiro lembra que, no início, precisou de um empurrão “divino” para abraçar a missão da família. “Eu queria botar fogo no hospital, que sangrava nossas finanças.” Mas, orientado por seu conselheiro espiritual (ele se diz profundamente religioso), convenceu-se de que, mesmo sem ser médico, podia salvar vidas. Desde então, os 2 mil metros quadrados das instalações foram quase centuplicados e a rede, presente em 11 estados, tornou-se referência mundial. O déficit entre os gastos com os pacientes e o que o SUS paga é igualmente monumental, segundo Prata: mais de R$ 20 milhões por mês. Por isso, ele se desdobra entre ações para convencer o governo a reajustar a tabela do Sistema Único de Saúde, congelada desde a década passada, e para levantar verbas – muitas delas com a ajuda de celebridades do naipe de Ivete Sangalo, Xuxa, Chitãozinho e Xororó e o cantor americano Garth Brooks, entre muitos outros.

Bem Maior

Presidente do conselho de cinco empresas – capitaneadas pela MRV, que ajudou a fundar em 1979 e que hoje é a maior construtora do país –, o bilionário mineiro Rubens Menin calcula que tem sob seu comando mais de 40 mil funcionários. Mas não é só a eles que o empresário dedica suas 15 horas de trabalho diárias, longe disso. “Não viemos ao mundo a passeio, mas para fazer a diferença”, ensina. Segundo ele, as empresas estão percebendo que não existem apenas para dar lucro, mas para promover desenvolvimento social.

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“Se você tem essa chance, a sorte de poder agir, não pode jogar essa chance fora. Seria uma injustiça com o mundo.” Menin acha que os países mais desenvolvidos atingiram essa condição porque seus cidadãos são comprometidos com o bem coletivo. Por isso, engajou-se no Movimento Bem Maior, concebido por Elie Horn (sócio-fundador da Cyrela) e que conta ainda com o apresentador Luciano Huck e com Eugênio Mattar (da Localiza). “No Brasil, a filantropia representa apenas 0,2% do PIB. Nossa meta é arrecadar R$ 200 milhões por ano e dobrar esse índice”, explica Menin.

“SE VOCÊ TEM ESSA CHANCE, A SORTE DE PODER AGIR, NÃO PODE JOGAR ESSA CHANCE FORA. SERIA UMA INJUSTIÇA COM O MUNDO.” Rubens Menin

Como conciliar essa meta ambiciosa com a gestão dos negócios da família – que agora incluem o Banco Inter e a CNN Brasil, entre outros? “Minha vida é maluca, começa muito cedo e acaba muito tarde todo dia. Mas vou intercalando… Isso não é um sacrifício, é um prazer.”

“Eu já tinha a intenção de apoiar a comunidade de uma forma mais efetiva tanto em doação de tempo quanto de recursos no sentido de promover a geração de oportunidades para mais pessoas”, revela Mattar, cofundador e CEO da Localiza. Além do Movimento Bem Maior, ele faz parte do conselho da Associação Mineira de Reabilitação e levou a Minas Gerais a centenária ONG internacional Junior Achievement, que se propõe a ensinar conceitos de empreendedorismo a jovens estudantes (80% deles da rede pública). Mas ele não está satisfeito: “Com a vida atribulada que levamos por causa de nossa função executiva, ainda não contribuí tanto quanto gostaria”.

Na mesa do jantar

Outro empresário ligado à filantropia é Marcelo Carvalho, da terceira geração do grupo Ancar Ivanhoe, que tem 26 shopping centers em seu portfólio (sendo 18 próprios). Assim como Henrique Prata, ele diz ter herdado o gene da preocupação social de seus antepassados. “Meu avô costumava dizer que todo empresário tem obrigação de devolver uma parte dos seus recursos e de sua capacidade empresarial para a sociedade.” O avô de Marcelo, o banqueiro Raul Pinto de Carvalho, presidiu o conselho administrativo do maior asilo do Rio de Janeiro, a Casa São Luiz. “Muita coisa que ele fazia nesse sentido só ficamos sabendo depois que ele morreu. E eu dei continuidade”, conta.

Renato Pizzutto
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Marcelo Carvalho, do grupo Ancar Ivanhoe

Marcelo diz ter encontrado seu caminho na Junior Achievement – a mesma que encantou Eugênio Mattar e vários outros nomes de peso, como Jorge Gerdau e Jayme Sirotsky, e para a qual já dedicou 20 de seus 52 anos (os três últimos como presidente do conselho diretor). Dedicou a ela, também, alguns milhões de reais. “Nossa meta é impactar 1 milhão de jovens em cinco anos. Antes disso, não vou me considerar uma pessoa bem-sucedida”, garante o copresidente da Ancar Ivanhoe. “Para minha família, praticar o bem é assunto corriqueiro na mesa do jantar.” Os Carvalho financiam e apoiam mais de mil crianças em creches pelo Brasil.

O que eles ganham?

Afinal, por que devemos ajudar o próximo? “Em primeiro lugar, vivemos numa era em que quase 100% das pessoas tomam algum remédio – para ansiedade, para insônia, pressão alta… É uma sociedade que não está sadia. Doar nos torna mais felizes, mais leves. Garanto que, fazendo isso, você vai aposentar muitos dos remédios que toma hoje”, receita Sabará. “Quem está sem propósito na vida precisa começar a ajudar quem está sem possibilidades. Você ganha um propósito e aquela pessoa ganha uma condição melhor de vida. Todos ganham.”

Marcelo Carvalho vai na mesma linha: ajudar e apoiar outras pessoas faz mais bem a quem doa do que a quem recebe. “Todo empresário que se preza deve olhar para o próximo e ser um agente transformador.”

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O Movimento Bem Maior estampa em seu site, alto e claro: “Proporcionando algo relevante a alguém, trazemos mais significado para a nossa própria existência. E a partir do momento em que emanamos essa energia num sentido mais amplo, conseguimos fazer a roda girar”.

EMPREENDEDORISMO DE IMPACTO

Startups investem em negócios que querem mudar o mundo usando a tecnologia para praticar o bem

POR CLÁUDIA DE CASTRO LIMA

Há oito anos, Claudio Sassaki completava uma década morando nos EUA, para onde havia se mudado para cursar um MBA e um mestrado em educação em Stanford (a temporada se estendeu quando ele começou a trabalhar no mercado financeiro, em instituições como Credit Suisse e Goldman Sachs, das quais foi vice-presidente). “Durante minha vida corporativa, sempre pensei em fazer alguma coisa que para mim fizesse mais sentido”, diz. Mas, com a carreira de vento em popa, a ideia ia sendo deixada de lado.

Uma questão pessoal obrigou-o a voltar. “Ao ver este cenário de desigualdade, veio o questionamento do quanto eu estava usando meu talento e minha experiência para algo que pudesse ter um impacto real no mundo”, conta. A semente do empreendedorismo floresceu quando procurou uma escola para a filha. “Foi chocante ver que elas ainda eram do mesmo jeito que décadas atrás.”

Claudio e o amigo Eduardo Bontempo usaram o capital (R$ 1 milhão) e a experiência que tinham acumulado no mercado americano para tentar mudar a situação da educação no país. Em 2011, fundaram a Geekie, plataforma que usa a tecnologia para desenvolver sistemas personalizados de aprendizagem. A Geekie tem hoje 160 funcionários e já alcançou mais de 5 mil escolas, impactando 12 milhões de estudantes. “Ajudamos a escola a desenvolver nos alunos as competências do século 21.”

Segundo Maure Pessanha, diretora-executiva da Artemisia, pioneira no fomento e aceleração de negócios do tipo, em 15 anos a organização apoiou mais de 400 iniciativas e, desde 2011, potencializou mais de 170 negócios sociais, para os quais captou R$ 112 milhões. “Eles impactaram a vida de mais de 30 milhões de brasileiros”, diz ela.

Lançado no primeiro trimestre, o 2º Mapa de Negócios de Impacto Social + Ambiental, promovido pela Pipe.Social, mostra o fortalecimento do conceito descrito até aqui. Em 2017, o mapa contabilizou 579 negócios de impacto. Na última edição, foram 1.002 empreendimentos e startups nas áreas de educação, saúde, serviços financeiros, cidadania, cidades e tecnologias verdes.

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O Social Good Lab, programa de incentivo ao uso de tecnologia para solução de problemas sociais, está criando no Brasil o primeiro laboratório de dados para atuar em parceria com governos. “Ele vai reunir secretarias estaduais de todas as regiões”, afirma a diretora Ana Addobbati. Trabalhando com inteligência de dados, é possível, por exemplo, melhorar a eficiência do transporte público usando informações de apps como Waze, Uber e 99. Ou, na área de saúde, otimizar a marcação de consultas ou a distribuição de medicamentos. Os programas de fomento ligados ao Social Good beneficiaram mais de 8 milhões de pessoas.

A tecnologia a serviço do bem está sendo empregada até por startups que originalmente não foram criadas com esse fim. É o caso da CosmoBots, lançada em 2018 para melhorar o atendimento a clientes por meio de chatbots e que ganhou visibilidade por associar-se a projetos do Google, Visa e Telefônica. Rafael Pettersen, fundador e CEO da Cosmo, percebeu a oportunidade de usar sua tecnologia em iniciativas como Setembro Amarelo, Alcoólicos Anônimos e Mapa do Acolhimento. “Descobrimos que as pessoas se sentem mais seguras ao falar de seus problemas com uma máquina em vez de um humano. Os bots escutam a pessoa sem julgá-la.”

Até as máquinas aderiram à vibe de fazer o bem.

Reportagem publicada na edição 72, lançada em outubro de 2019

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