Nova plataforma Caffeine convoca Drake para brigar com a Twitch

GettyImages/ Prince Williams
Artistas como o cantor Drake e esportistas são as principais caras por trás dos planos da plataforma Caffeine

Alguns negócios são feitos no campo de golfe. Outros são esboçados em um guardanapo em um encontro com bebidas. No Vale do Silício, esses acordos podem acontecer na quadra de um jogo do Golden State Warriors. Foi nesse momento que o capitalista de risco Ben Horowitz fez um pitch ao seu convidado, um DJ que empresaria o artista vencedor do Grammy, Drake, sobre uma nova startup de tecnologia que está brigando com a gigante do livestreaming Twitch.

Ben Keighran, fundador da Caffeine, diz que recebeu uma ligação surpresa de Horowitz, um dos primeiros apoiadores e membro do conselho, que o conectou ao empresário de Drake durante as finais da NBA em junho passado. A discussão culminou em um acordo que levará Drake exclusivamente à Caffeine para coproduzir batalhas mensais de habilidades de rap com a Ultimate Rap League, a partir de 29 de fevereiro. “Este é um nome que todo mundo sabe”, diz Keighran. Drake quer fazer uma “transmissão ao vivo de uma maneira que nunca foi mostrada neste nível antes”.

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O acordo representa um marco para o nascente serviço de transmissão ao vivo, que permite que qualquer pessoa –artistas, atletas, estrelas do esporte, amadores– transmita para os fãs, que podem conversar entre si e com a pessoa a que estão assistindo. Lançado ao público em novembro, o serviço gratuito que a Apptopia calcula ter sido baixado 1,6 milhão de vezes vai de encontro com a Twitch da Amazon, que teve 40,1 milhões de downloads no ano passado, graças a jogadores populares como Turner ‘Tfue’ Tenney e Timothy ‘TimTheTatman’ Betar. Mas a Twitch está amplamente associada ao streaming de videogames. A Caffeine quer ir muito além disso, oferecendo esportes ao vivo, shows e, sim, batalhas de rap.

“Penso nos adolescentes que querem assistir Fortnite, mas também assistir ao Coachella ou lançamentos de tênis e aos X-Games”, diz Keighran, 37 anos, ex-executivo e empresário da Apple. “Há muitas pessoas por aí que gostariam de transmitir, mas um tipo de plataforma de jogos hardcore como a Twitch não parece um lugar apropriado.”

A visão de Keighran para o futuro do entretenimento, que ele chama de “transmissão social”, atraiu US$ 46 milhões em investimentos em janeiro de 2018 das empresas Andreessen Horowitz e Greylock Partners e de celebridades como Ashton Kutcher e Kevin Durant. O executivo-chefe da Fox, Lachlan Murdoch, ficou igualmente intrigado e meses depois investiu US$ 100 milhões na Caffeine, no valor de US$ 500 milhões, através da empresa de mídia de sua família, então, conhecida como 21st Century Fox. Juntos, eles criaram uma joint venture, a Caffeine Studios, para produzir esportes eletrônicos, esportes e entretenimento ao vivo no estúdio Fox em Los Angeles. “Todas essas grandes empresas de mídia estão se protegendo contra o futuro”, diz Doug Perlman, consultor de mídia esportiva.

Quando criança, em Sydney, na Austrália, Keighran transbordava de desejos. Ele queria construir o kart mais rápido do mundo ou construir um hotel em órbita terrestre. Aos 10 anos, ele aprendeu a linguagem de programação C++ e criou o The Zone, um quadro de avisos on-line para jogadores que atraiu tantas pessoas que seus pais o fecharam. O empresário em ascensão abandonou a faculdade após seis meses para lançar sua primeira startup, um aplicativo de mensagens sociais móveis Bluepulse, eventualmente se mudando para São Francisco.

Os executivos do Yahoo que ele conheceu na Austrália por meio de um amigo da família ajudaram a abrir o caminho, organizando apresentações que levaram a um jantar no sofisticado subúrbio de Bay Area, em Woodside, com o cofundador do LinkedIn Reid Hoffman e o ex-CEO da Mozilla John Lilly. O segundo empreendimento de Keighran, Chomp (uma referência a encontrar “conteúdo do tamanho de um pequeno lanche”) estava ganhando força, fechando um acordo com a Verizon para impulsionar buscas em telefones Android, quando a Apple entrou e a comprou em 2012 por US$ 50 milhões.

A Chomp se tornou parte do iTunes na App Store, e Keighran assumiu a equipe de design que trabalhava em uma versão de um dispositivo Apple TV lançado em 2015. Mas ele lutou para voltar ao mundo das startups. “Você é um sonhador”, seu avô e mentor lhe disseram. “Continue fazendo isso.” Ele deixou a gigante da tecnologia em 2016 para lançar a Caffeine.

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Em uma noite de domingo em outubro, Keighran estava no histórico Fox Lot, em Los Angeles, onde Shirley Temple cantou uma vez, para assistir a uma transmissão pela Caffeine de Offset. O rapper, membro do trio de hip-hop Migos, dá a Keighran um vigoroso abraço de irmão e se prepara para fazer uma livestream jogando o videogame Call of Duty: Modern Warfare.

“Vou conversar ativamente com meus fãs”, diz Offset, vestindo calças verdes e colete tático combinando. “Não vou ser apenas eu jogando o jogo. Vou interagir com todo mundo.”

Keighran conta com o magnetismo de Offset, Drake e atletas, incluindo uma das principais escolhas projetadas pela NBA, LaMelo Ball (que vem atraindo multidões da quadra de basquete que joga Fortnite na Caffeine) para se destacar em um espaço com muitos competidores.

O novato das livestreams em Redwood City, Califórnia, não ganha dinheiro com publicidade. Em vez disso, ele cria sua própria moeda interna, chamada Caffeine Gold. Os usuários compram essas moedas para comprar itens virtuais (um globo de neve é ​​vendido por 5 moedas ou o equivalente a 50 centavos, um unicórnio custa 150 moedas ou US$ 15) que eles enviam aos casters como presentes virtuais – e então os casters e a Caffeine repartem os ganhos. Grandes personalidades, como Drake e Offset, recebem um participação mínima garantida. Esses presentes virtuais podem chegar a grandes somas. Por exemplo, o aplicativo de streaming chinês DouYu obtém a maior parte de sua receita, ou US$ 261 milhões em seu trimestre mais recente, com seus próprios presentes virtuais. “É onde todo o dinheiro é ganho”, diz Keighran. É provável que a Caffeine gere US$1 milhões ou US$2 milhões em seu primeiro ano, segundo estimativas da Forbes.

No fim de semana do Super Bowl, JuJu Smith-Schuster, jogador do Pittsburgh Steelers, foi para South Beach, na Flórida, para sediar o “JuJu Bowl” na Caffeine. Ele e outros atletas profissionais competiram em um torneio de videogame diante de uma plateia entusiasmada com a marca Fox em exibição, enquanto os espectadores online os aplaudiam em bolhas de diálogo que apareciam abaixo da transmissão ao vivo.

É o tipo de interação pessoal que os fãs só poderiam conseguir se disputassem um autógrafo antes de um treino, e nunca do outro lado da tela da televisão. A geração Z pode achar os jogos da NFL ou da Major League Baseball infinitamente mais divertidos se um amigo ou personalidade da mídia social oferecer comentários engraçados, em vez de um locutor tradicional como Joe Buck, da Fox Sports. O desafio será atrair um público considerável o suficiente para convencer as ligas esportivas profissionais a oferecer o conteúdo mais caro da Fox.

“É aí que que tudo isso se transforma na grande oportunidade”, diz Keighran. “Trabalhar com a Fox, a NFL e qualquer uma dessas pessoas para trazer essa experiência mais interativa ao seu dispositivo.”

Keighran não é o único a enxergar esta oportunidade. A Twitch revelou um redesenho no outono passado com o objetivo de ir além do Fortnite e fechou acordos com ligas esportivas, incluindo a NBA e a NFL.

A Twitch representa um obstáculo difícil. As melhores perspectivas para a Caffeine podem ser uma compra, prevê um analista. “A Caffeine está chegando ao mercado tarde, o que significa que estará sempre atrás no quesito investimento financeiro e tempo de mercado”, diz Joost van Dreunen, chefe de pesquisa de jogos do SuperData da Nielsen.

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Não é assim que Keighran enxerga a situação. As atuais ofertas de programas da Caffeine, que se apoiam fortemente em e-sports e competições de esportes radicais, devem abrir as portas para transmissões mais ambiciosas de turnês de shows, entretenimento ao vivo ou eventos esportivos profissionais. Além disso, a plataforma também produz sua própria programação original, como o RPG de mesa ao vivo, The Dungeon Run, no qual cinco jogadores navegam em um jogo interativo de Dungeons and Dragons de um estúdio em Burbank.

“Olha, entendemos o que a Twitch representa”, diz Keighran. “Queremos construir a próxima grande novidade”.

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