1. Início
  2. /
  3. Carreira
  4. /
  5. A IA É o Seu Novo Colega de Trabalho
Carreira

A IA É o Seu Novo Colega de Trabalho

Especialistas falam sobre a angústia, os desafios e as oportunidades que a inteligência artificial já está criando entre os profissionais

12 min

Mal começou a traçar um paralelo entre a transformação proporcionada pelo computador desde os anos 1980 e a atual revolução da inteligência artificial, Eric Schmidt, que foi durante 10 anos CEO do Google, passou a ouvir vaias. Eram cerca de 10 mil alunos da Universidade do Arizona expressando, no dia 15 de maio, a apreensão pelas dificuldades que a IA pode trazer ao mercado de trabalho. Schmidt ainda tentou contemporizar – “Eu sei o que muitos de vocês estão sentindo, há medo”, ele disse –, mas as vaias continuaram ao longo de todos os 14 minutos de seu discurso para os formandos da universidade.

Não foi o único. Gloria Caulfield, uma executiva do mercado imobiliário americano, foi vaiada na Universidade da Flórida Central ao citar a IA como a “próxima Revolução Industrial”. Jensen Huang, CEO da Nvidia, foi apupado na Universidade Carnegie Mellon justamente quando dizia que “não há melhor momento do que agora para começar a trabalhar”. Talvez ele até esteja certo. Mas o sentimento prevalente, hoje, é de receio em relação à tecnologia que rapidamente se mostrou capaz de assumir tarefas rotineiras – exatamente aquelas que costumam recair sobre profissionais iniciantes, com as quais eles são treinados para tarefas mais sofisticadas.

O efeito mais visível (e audível, nas cerimônias de universidades) da IA no mercado de trabalho é o desencanto que tem provocado, especialmente em quem está para começar a carreira. “É uma geração ansiosa, desmotivada e preocupada, com muita dificuldade de entrar no mercado”, diz Esther Colombini, professora de IA e robótica da Unicamp.

SEC UnicampEsther Colombini: “Sozinha, a ferramenta faz mais do mesmo”

Automação dos cargos de entrada

Os dados corroboram os receios. Segundo um relatório do Fórum Econômico Mundial, as contratações para vagas de entrada nas empresas estão desacelerando. No Brasil, um estudo do FGV Ibre divulgado em abril vai na mesma linha. Pessoas de 18 a 29 anos em ocupações mais expostas à tecnologia têm 5% menos chance de conseguir um emprego, e renda quase 7% menor que média de outras áreas. Os setores mais afetados são serviços financeiros, informação e comunicação. Globalmente, 37% dos jovens trabalham em funções com exposição média ou alta às mudanças que a IA tem provocado.

Apesar disso, o economista Carl Benedikt Frey, professor associado de IA e trabalho na Universidade de Oxford e diretor do programa de futuro do trabalho, mantém uma visão otimista. “As vagas de entrada não vão desaparecer. As empresas ainda precisam de uma base de talentos para formar seus futuros líderes e terão de voltar a contratar.” As dificuldades atuais, segundo ele, também se devem a fatores macroeconômicos.

Carl Benedikt Frey, professor associado de IA e trabalho na Universidade de Oxford e diretor do programa de futuro do trabalho
DivulgaçãoCarl Benedikt Frey, professor da Universidade de Oxford

De qualquer modo, uma mudança parece certa: os cargos de entrada devem sofrer o que a consultoria PwC chama de seniorização. Com a IA assumindo tarefas operacionais, as empresas tendem a procurar os recém-formados que possuam competências antes buscadas apenas em profissionais mais experientes, como liderança, criatividade e pensamento estratégico.

De acordo com o estudo, vagas de nível júnior mais expostas à IA têm sete vezes mais probabilidade de exigir essas competências do que outras posições de entrada. Desde 2019, o número de cargos “seniorizados” cresceu 35%, enquanto as demais vagas de nível inicial encolheram 10%.

“Muitas organizações decidiram que não precisam mais de tantos jovens. Outras seguem o caminho oposto, acreditando que, com as ferramentas de IA, eles podem se tornar mais eficientes muito mais rápido”, afirma Gary Bolles, chair de futuro do trabalho na Singularity University e autor do best-seller “The Next Rules of Work”.

Divulgação/IT Forum“As tecnologias atuais não são capazes de substituir o julgamento humano”, diz Gary Bolles

IA virou justificativa para demissões?

Os impactos, obviamente, não se restringem aos cargos iniciais. Em 2026, o setor de tecnologia já registrou o maior volume de demissões desde a pandemia. Gigantes como Amazon, Meta e Microsoft atribuem os cortes aos investimentos e à adoção da inteligência artificial. Mas há indícios de que uma grande parte das demissões não teve nada a ver com isso.

Segundo a Forrester, uma consultoria global de tecnologia, nove em cada dez empresas que anunciaram cortes relacionados à IA ainda não possuem sistemas maduros o suficiente para substituir completamente as funções eliminadas. Em muitos casos, a IA tem servido como uma narrativa conveniente para justificar reestruturações e reduções de custos que estavam em curso.

Já existe até, de acordo com Bolles, quem tenha demitido e esteja recontratando, por perceber “o que perderam em termos de conhecimento e compreensão do negócio”. A montadora Ford, por exemplo, chamou de volta alguns engenheiros neste ano depois de concluir que a IA não estava entregando os resultados esperados.

Isso não significa que a ameaça aos empregos vá passar. Toda tecnologia tem seu grau de abalos no mercado de trabalho. Este é, afinal, um dos corolários do progresso: se você cria formas mais eficientes de produzir, as pessoas ligadas aos métodos antigos tornam-se em grande medida desnecessárias.

Com o tempo, porém, a transformação e o crescimento da economia acabam gerando muito mais empregos do que os que desaparecem. A mesma coisa deve acontecer agora, pelo menos de acordo com análises do Fórum Econômico Mundial. Até 2030, diz a organização, 22% dos empregos serão afetados. Mas, embora 92 milhões de postos de trabalho devam desaparecer, 170 milhões de novas funções serão criadas, um saldo positivo de 78 milhões de empregos, segundo essas previsões.

Ainda assim, resta uma questão crucial: as pessoas que se beneficiam da criação de empregos não são necessariamente aquelas que originalmente perderam o emprego. Cada revolução exige que a sociedade crie mecanismos para cuidar dos desalojados ao mesmo tempo que prepara o terreno para os futuros vencedores.

Adaptabilidade é a palavra do momento

Do ponto de vista individual, o melhor caminho é se adaptar. “Use a IA para ampliar suas capacidades, não para terceirizar seu trabalho a ela. Caso contrário, você corre o risco de ser substituído”, alerta o professor Anderson Rocha, chefe do Laboratório de Inteligência Artificial (Recod.ai) da Unicamp.

DivulgaçãoAnderson Rocha: “Seu emprego está correndo risco se você não estiver aberto a se reeducar”

Cerca de 40% das habilidades profissionais deverão mudar até o fim da década, de acordo com o Fórum Econômico Mundial. “A requalificação nunca vai parar”, resume Anthony Salcito, vice-presidente sênior e general manager Enterprise da Coursera, uma das maiores plataformas de educação online do mundo. Ele já detecta o aumento na busca por capacitação nos cursos de IA generativa de sua empresa. “A verdadeira vantagem competitiva é uma força de trabalho qualificada.”

Isso já está ficando claro na procura por vagas de trabalho. Um experimento realizado por pesquisadores de Oxford neste ano mostrou que candidatos que incluíam habilidades em inteligência artificial no currículo tinham uma probabilidade significativamente maior de receber convites para entrevistas. Recrutadores valorizam essas competências até mais do que diplomas de instituições renomadas.

Segundo Frey, da Universidade de Oxford, profissionais bem adaptados à nova tecnologia podem até ganhar oportunidades no mercado global. “A redução das barreiras de entrada, aliada à tradução automática, permitirá que serviços profissionais migrem para países com custos laborais mais baixos”, afirma.

Os riscos de uma IA que amplia desigualdades

O outro lado da moeda é um possível incremento da desigualdade. “O que vai acontecer é um aumento do gap entre quem tem capacidade e treinamento para se adaptar e se recolocar com mais facilidade e quem não está preparado”, diz Rocha, da Unicamp. Esse gap também tem uma dimensão de gênero. Estudos indicam que as mulheres utilizam menos as ferramentas de IA em suas atividades profissionais e, mesmo quando as adotam, tendem a receber menos reconhecimento.

Além disso, mulheres e outros grupos continuam sub-representados entre os profissionais que desenvolvem sistemas de IA, o que aumenta o risco de que a tecnologia reproduza e amplifique vieses já existentes na sociedade. “É uma construção social, não algo isolado”, afirma a professora Esther Colombini. “As mulheres têm uma percepção mais crítica sobre os riscos associados ao uso da IA, e muitas das atividades que desempenham podem ser menos apoiadas por essas ferramentas.”

De tokenmaxxing a HIC

Por mais incertezas que a nova tecnologia provoque no mercado de trabalho, não é aí que está o verdadeiro interesse das empresas. Como pontua Rocha: “Vamos supor que você pense em usar IA apenas para reduzir 50% de sua força de trabalho. Quanto custa 50% de sua força de trabalho? Esse é o ganho que você terá”. Muito mais valioso, segundo ele, é o poder de abrir mercados, criar serviços e soluções e ampliar o potencial dos funcionários.

Por ora, para muitas empresas não está claro como fazer isso. Há até um movimento para premiar quem utilize a IA (o que tem gerado o fenômeno tokenmaxxing), mas ainda com poucos resultados relevantes. “O que as empresas precisam medir é: quantos problemas a IA ajuda a resolver?”, diz Bolles. Sem esquecer, no entanto, os problemas que a IA também pode criar.

No Brasil, oito em cada 10 líderes se preocupam com o uso de ferramentas de IA externas sem aprovação formal da companhia e do departamento de TI, segundo um estudo global da SAP em parceria com a Oxford Economics. A tendência ganhou nome: Shadow AI (ou IA paralela). “Isso cria riscos de compliance, vazamento de informações, perda de privacidade e até de competitividade”, alerta Rocha.

Com os devidos cuidados, pouca gente duvida que haja ganhos enormes à vista, tanto para as empresas quanto para os profissionais. Uma pesquisa da Korn Ferry mostra que trabalhadores especializados em IA recebem prêmios salariais entre 5% e 15% acima de seus pares. Isso por enquanto. A consultoria aponta que a maioria das empresas não está pagando aumentos expressivos por essas competências porque os ganhos de produtividade obtidos com a tecnologia ainda não justificam os salários mais altos esperados por muitos profissionais.

A IA também está mudando a própria ideia de crescimento profissional. Já se fala do perfil dos High-Impact Individual Contributors, profissionais capazes de liderar projetos de ponta a ponta sem depender de uma equipe. “Se usarmos as ferramentas de IA para que as pessoas continuem delegando tarefas repetitivas à tecnologia, poderemos transformar qualquer pessoa em um profissional de alto impacto”, diz Bolles.

Pesquisas das universidades de Stanford e Wharton sobre colaboração entre humanos e inteligência artificial mostram que a tecnologia pode responder por 20% a 60% da variação na produtividade individual. Já no nível das equipes esse impacto adicional cai para apenas de 2% a 4%.

“Como a IA comete erros e precisa ser verificada por humanos, os ganhos de produtividade devem ser mais contidos do que muitos antecipam.”

Carl Benedikt Frey, professor da Universidade de Oxford

O que esperar do futuro do trabalho e da IA?

Mais do que o mero emprego de máquinas para fazer o trabalho de humanos, o futuro do trabalho tende a ser construído pela colaboração entre pessoas, agentes de IA e sistemas automatizados. Esse é o cenário que a consultoria McKinsey vislumbra, e isso altera a própria lógica da gestão de pessoas. “Se uma pessoa tem um conjunto de agentes trabalhando com ela, quando ela sai, esses agentes vão embora”, afirma Mariana Dias, CEO da HR Tech Gupy. “Isso não pode ser perdido. A gestão do conhecimento não pode mais conectar apenas pessoas; precisa conectar agentes.” Sua conclusão é que o departamento de RH deve passar a ser tratado como RHA, uma gestão que combina recursos humanos e autônomos.

Essa parceria envolve elementos de competição (será difícil concorrer com as máquinas em tarefas rotineiras) e cooperação. Com o avanço da IA, a tendência é que cresça a demanda por soft skills, aquelas habilidades que a tecnologia (pelo menos por enquanto) não consegue replicar. “As limitações da IA hoje são falta de empatia, de consciência de si mesma, de entendimento do senso comum e de causalidade”, diz Rocha.

Em um artigo de 2013, Frey identificou três grandes barreiras para a automação: interações sociais complexas, criatividade e a capacidade de navegar em ambientes não estruturados. Mais de uma década depois, esses limites continuam presentes. “A IA generativa combina conhecimentos existentes, enquanto os humanos têm a vantagem da experimentação prática no mundo físico.”

Para ele, a capacidade de adaptação também seguirá como diferencial humano. “Se o mundo fosse estático, a IA provavelmente conseguiria fazer quase tudo. Mas ele está em constante mudança, e é aí que os humanos ainda têm vantagem.”

*Reportagem publicada na edição 143 da revista Forbes, em julho de 2026.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.