Toda criança desenha, mas a maioria para em algum momento. O mineiro Thiago Calçado, no entanto, nunca fez o seu último desenho. Natural de Uberaba e formado em cinema pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado), o que começou como um trabalho de cartunista em um jornal local o levou aos maiores estúdios e diretores de animação do mundo.
Ao longo da carreira, ele participou das obras que definiram o stop-motion na última década: “Kubo e as Cordas Mágicas”, de Travis Night; “Ilha dos Cachorros“, de Wes Anderson; “A Fuga das Galinhas: A Ameaça dos Nuggets“, de Sam Fell; e “Pinóquio“, de Guillermo del Toro, longa vencedor do Oscar de Melhor Animação.
Hoje, Calçado é um dos artistas por trás de “O Bosque Selvagem“, novo filme épico da Laika — estúdio responsável pelo sucesso de 2009 “Coraline e o Mundo Secreto” — que estreou nos cinemas brasileiros em 29 de outubro e desponta como favorito ao próximo Oscar de Melhor Animação.
Aventura ambientada na cidade de Portland, nos Estados Unidos, a obra levou 16 anos — entre desenvolvimento e produção — para chegar aos cinemas. “Fazer animação é contar uma piada e esperar anos para as pessoas rirem”, diz Thiago em entrevista à Forbes Brasil. “O melhor momento da profissão é ver o filme pronto na tela e perceber que todo aquele esforço solitário funcionou.”
Foram mais de 500 profissionais na execução de 2.804 planos, 231 semanas de filmagens, 132 cenários práticos e 117 locações distintas. Com 2 horas e 11 minutos de duração, o longa de US$ 100 milhões é considerado o maior e mais caro filme em stop-motion da história de Hollywood.

De Uberaba ao Oscar
Thiago foi um dos pioneiros a trabalhar com animação stop-motion para entretenimento no Brasil. Há 15 anos, quando esse mercado era quase restrito à publicidade, ele usou sua base em animação 2D e computação gráfica para migrar para o stop-motion durante a produção de “Minhocas” (2013), o primeiro longa do gênero feito no Brasil. “Para chegar aos grandes estúdios, eu precisava construir um repertório.”
Foi um trabalho de imersão: dois anos com animação diária. Desse esforço, saíram cerca de 16 minutos de filme. Ele selecionou o seu melhor minuto e enviou para estúdios ao redor do mundo.
A estratégia funcionou e o levou para a Espanha, Estados Unidos, Inglaterra e Noruega, onde viveu a última década entre diferentes estúdios e produções. “Não tem atalho. Eu sempre falo: abaixe a cabeça e trabalhe. Você pode até conseguir chegar ao topo, mas não vai se manter lá se não tiver um bom portfólio.”
Por dentro do trabalho do animador
Como animador de stop-motion, Thiago é responsável por, literalmente, dar vida aos bonecos, através de movimentos manuais e braços robóticos, frame por frame.
Após o alinhamento de luz e câmera com a equipe técnica, o animador entra na sala com o cenário e passa dias inteiros sozinho com o boneco, com o rádio como único contato externo. “Todo mundo acha que animador brinca de boneco. Mas é um trabalho duro, muito técnico e pesado.”

Uma cena de poucos segundos pode levar meses de execução. Em “A Fuga das Galinhas”, por exemplo, o animador levou dois meses para fazer sete bonecos andarem em câmera lenta. “O corpo todo se movimenta num ritmo constante: quadril, joelho, ombro, cabeça.”
Stop-motion na era da IA
Para o mercado atual, esse trabalho artesanal é o maior atrativo comercial do stop-motion. “O stop-motion é a antítese da inteligência artificial. A IA faz tudo em segundos, com baixíssimo esforço. No nosso trabalho, cada frame exige um absurdo de esforço humano.”
Não à toa, o mercado de luxo e marcas globais, como Dior, Hermès e Porsche, têm recorrido cada vez mais ao stop-motion e à animação 2D. “Se você quer que seu produto seja visto como único e artesanal, você o vende de uma maneira exclusiva”, afirma. “Hoje, está bem claro que importa, sim, como a imagem é feita. Lá dentro, na alma da arte, importa que mãos humanas fizeram aquilo.”

O retorno para contar as próprias histórias
Após o sucesso lá fora, Thiago tomou a decisão de voltar ao Brasil para uma nova aposta na carreira: agora, quer dirigir e produzir histórias nacionais. “Pensei: vou ficar preso às histórias desses gringos para sempre? Não, eu estou cheio de histórias para contar. Voltei porque quero contar as nossas histórias.”
Atualmente, o artista concilia projetos publicitários — que permitem testar novos materiais e tecnologias em ciclos mais curtos — com obras de longo prazo, além de já assinar a direção de séries nacionais como “Ana Bolinha” (2021) e “Sol em Dó Ré Mi” (2024).
Com os olhos no futuro, o animador desenvolve projetos enraizados na cultura brasileira. Entre eles, há um longa-metragem baseado no livro “Caixa Preta”, de um autor de sua cidade natal, e um roteiro catarinense inspirado nas passagens do escritor e aviador Antoine de Saint-Exupéry por Florianópolis. “É isso que eu quero agora: misturar a nossa história com o folclore brasileiro. Foi para isso que eu voltei.”
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