1. Início
  2. /
  3. Coluna
  4. /
  5. Bitcoin em Queda: o Que Realmente Está Acontecendo e o Que Esperar para 2026
Coluna

Bitcoin em Queda: o Que Realmente Está Acontecendo e o Que Esperar para 2026

A primeira pergunta que precisa ser feita não é até onde o preço pode cair, mas por que ele caiu

7 min

Depois de atingir a região dos US$ 126 mil em 2025, o bitcoin entrou em um movimento de correção que devolveu entre 30% e 50% do valor, dependendo da janela observada. Para quem chegou na euforia do topo, a sensação é de ruptura de narrativa. Para quem acompanha o ativo há mais tempo, trata-se de mais um capítulo de um comportamento que combina ciclos históricos, liquidez global e psicologia de mercado.

A primeira pergunta que precisa ser feita não é até onde o preço pode cair, mas por que ele caiu, e é sobre isso o nosso papo de hoje.

Liquidez global: o fator que realmente move o bitcoin

O bitcoin se consolidou como um ativo extremamente sensível à liquidez global. Em períodos de juros baixos e abundância de capital, ele tende a se valorizar com força, mas, quando o cenário muda e o dinheiro fica mais caro, o movimento se inverte.

Bancos centrais ainda operam com juros elevados em relação ao ciclo anterior e a inflação, embora menos pressionada, continua sendo monitorada com cautela. Em contextos assim, o investidor global reduz exposição a ativos mais voláteis.

O bitcoin, por ser negociado 24 horas por dia e possuir alta liquidez, torna-se um dos primeiros ativos a ser vendido quando há necessidade de caixa, funcionando quase como fonte imediata de liquidez em momentos de correção em bolsas ou crédito. Isso explica por que, em determinados períodos recentes, ouro e ações tradicionais conseguiram manter desempenho mais estável enquanto o bitcoin sofreu pressão.

É importante ter cuidado com alarmismos, pois não se trata de falha estrutural da rede, mas de característica do ativo. Ele responde rapidamente ao excesso ou à escassez de dinheiro no sistema.

O ciclo de quatro anos ainda faz sentido?

Historicamente, o mercado cripto apresenta um padrão aproximado de quatro anos, geralmente associado ao halving, evento que reduz pela metade a emissão de novas moedas. Em ciclos anteriores, três anos de alta foram seguidos por um ano de correção mais intensa, como ocorreu em 2014, 2018 e 2022.

Após o topo de 2025, 2026 se desenha como o ano de ajuste. Parte da queda recente pode ser explicada pela realização de lucros de investidores que acumularam posições ao longo de anos anteriores e aproveitaram o rompimento da marca de US$ 100 mil para reduzir exposição. É um movimento que o mercado chama de “troca de mãos”, quando os ativos saem de investidores antigos e migram para estruturas institucionais, especialmente via ETFs.

Além disso, temos que levar em conta que a escalada do Bitcoin foi amplificada por derivativos e agora estamos vendo o desmonte de posições alavancadas, pois quando o mercado virou, liquidações forçadas aceleraram o movimento descendente.

Não há novidade nisso, e uma boa olhada nos ciclos do bitcoin deixa tudo bem mais claro. Se em ciclos antigos o bitcoin chegou a perder 80% do valor, as correções recentes tendem a ser mais contidas, refletindo maior institucionalização e amadurecimento do mercado.

Até onde o preço pode cair?

Nenhum analista sério trabalha com certezas, e se alguém estiver te garantindo algo, desconfie, pois o que temos são apenas probabilidades.

A região entre US$ 69 mil e US$ 75 mil possui importância histórica por ter sido topo de um ciclo anterior e zona de consolidação relevante. A faixa próxima a US$ 60 mil coincide com médias de longo prazo que, em ciclos passados, funcionaram como áreas de suporte estrutural.

A região entre US$ 50 mil e US$ 55 mil concentra dois elementos relevantes: o preço realizado do mercado e o custo de produção dos mineradores mais eficientes. É aqui que entra a discussão sobre mineração, por ser um componente objetivo a considerar.

O custo de energia define um piso para o bitcoin?

A mineração é uma atividade industrial com custos reais: energia, equipamentos, manutenção e estrutura operacional. Estimativas recentes apontam que o custo médio da indústria para produzir um bitcoin gira próximo de US$ 88 mil, enquanto operadores mais eficientes conseguem operar em torno de US$ 50 mil.

Quando o preço se aproxima desses níveis, parte dos mineradores começa a operar no prejuízo e os menos eficientes chegam a desligar suas máquinas. A dificuldade da rede se ajusta e com isso, a oferta de novas moedas diminui.

Importante lembrar que custo de produção não determina valor de mercado, então, não há garantias de que o preço não caia abaixo do custo. Se a demanda enfraquecer de forma significativa, o preço pode, sim, romper esses níveis.

O que o custo faz é criar uma zona de tensão econômica, reduzindo a oferta e forçando consolidação no setor, funcionando como elemento estabilizador ao longo do tempo, mas não como blindagem absoluta.

Riscos estruturais e críticas legítimas

Críticos lembram que o bitcoin não gera fluxo de caixa, dividendos ou utilidade industrial direta e que seu valor depende da disposição de alguém pagar por ele no futuro. Essa característica explica sua volatilidade e também sua dependência de narrativa.

Outro ponto relevante é a concentração de mineração. Embora a rede seja descentralizada por protocolo, a concentração excessiva de poder computacional em poucas empresas ou jurisdições pode representar risco político e operacional. A descentralização é parte central da proposta do bitcoin, e se ela for comprometida, o debate muda de natureza.

Eu quis trazer ponderações porque elas são técnicas, portanto, afastam um pouco a discussão do campo emocional, algo muito comum quando o assunto é bitcoin.

O que esperar de 2026?

Como temos um contexto de liquidez global ainda restritiva, realização de lucros acumulados no ciclo anterior e reorganização do mercado institucional, me parece que seguiremos com muita volatilidade e o cenário mais provável para 2026 é de consolidação e ajuste, não de euforia. Mas, diferente de muita gente que cogita um colapso estrutural, eu vejo tudo isso como maturação de ciclo.

Para o investidor, a pergunta central não é se o bitcoin vai subir ou cair nos próximos meses, mas qual é o papel dele dentro da carteira. Ativo de risco exige percentual compatível com tolerância à volatilidade.

Além disso, o horizonte que se tem é fundamental, pois como sempre reforço por aqui, em se tratando de criptoativos, curto prazo e exposição elevada pode ser uma combinação bem perigosa. Inversamente, horizonte longo, percentual controlado e disciplina tornam o risco administrável.

Se a liquidez global voltar a se expandir nos próximos anos, o bitcoin tende a responder. Se o cenário permanecer apertado por mais tempo, o ajuste pode se prolongar.Por isso, o seu porquê é essencial na definição da entrada de um ativo em carteira.

Ao que tudo indica, 2026 veio para testar convicção do mercado, e em ativos altamente voláteis, convicção sem método e gestão de risco, costuma ser bem arriscado. Bitcoin não é e nem nunca foi linha reta. A questão é não é tentar decifrar o humor do mercado a cada semana, mas saber se ele faz sentido na sua estrutura de risco.

Eduardo Mira é investidor profissional, analista CNPI-T (Apimec), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira, empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos. Está nas redes sociais como @professormira.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.