COP 26 indica caminho para o Brasil se tornar uma potencial agroambiental

Entenda como a conferência estabeleceu desafios para o setor.

Helen Jacintho
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Sherry Galey/Getty
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Decisões tomadas em Glasgow deverão afetar o nosso país e nosso agro

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Nas últimas semanas, recebemos uma enxurrada de informações sobre a COP 26, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, e a pergunta que me vinha à cabeça era: Como as decisões tomadas em Glasgow afetarão o nosso país e nosso agro?

A agropecuária brasileira assumiu o protagonismo econômico e social, com receita cambial prevista de US$ 120 bilhões, 30% do total do PIB, produção de grãos chegando a 300 milhões de toneladas, carnes a 28 milhões de toneladas, o setor mais dinâmico e competitivo do país, tem paralelo a isto, o desafio constante de aumentar a produtividade e preservar o meio ambiente. 

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O agro nacional levou seu compromisso com a sustentabilidade à COP-26 através de iniciativas como o ABC+, o Plano de Agricultura de Baixo Carbono, composto por programas de floresta plantada, recuperação de pastagens, plantio direto, fixação biológica de nitrogênio, manejo de dejetos animais, integração lavoura-pecuária-floresta e o Renovabio, que estabelece metas de descarbonização para o setor de combustíveis, incentivando o aumento da participação de biocombustíveis na matriz energética de transportes do país. 

A novidade neste ano na COP — que é o evento mais importante para discussão das ações que serão tomadas para reduzir as mudanças no clima — foi a participação de players do mundo financeiro, sociedade civil e grandes empresas, que são os responsáveis por implementar as ações. Se você acha que não tem nada a ver com isto, saiba que as decisões tomadas na COP influenciarão o setor do agro e quem se antecipar, vai sair na frente e estará aqui no futuro para contar a história.

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Vamos ao que interessa, os pontos positivos foram o avanço no mercado de créditos de carbono, importante para o Brasil, pois somos o país com maior cobertura vegetal do globo 66%, sendo 25% mantido por produtores rurais em reservas particulares, o que nos torna os maiores credores mundiais do mercado de carbono. Contamos também com a agricultura e pastagens, que começam a ser consideradas fontes de crédito de carbono, pois captam o carbono da atmosfera e através das raízes o transportam ao solo, onde ele fica estocado, sendo assim retirado da atmosfera. É claro que não temos o mercado já funcionando imediatamente, mas isto deve estimular o investimento e desenvolvimento de projetos, para isto será necessário a metrificação de informações visando valorizar quem investe em técnicas sustentáveis.

Os principais compromissos assumidos pelos países, o Brasil incluído, foram primeiro o Acordo de Florestas, onde os países se comprometeram a zerar o desmatamento até 2030 (nosso país antecipou a sua meta para 2028). O segundo foi a adesão ao Compromisso Global de Metano, que estabelece a redução das emissões de metano em 30% até 2030 em nível global. Este último é considerado vago, pois não foi definido quanto cada país vai contribuir. O Brasil assumiu também a ambiciosa meta de neutralidade em suas emissões até 2050.

A agropecuária é o principal eixo para atingirmos os compromissos assumidos na COP, os compromissos podem parecer um problema, por outro lado, vem de encontro a uma agropecuária mais produtiva e eficiente, que é o único caminho de sucesso para o produtor rural. Com base em agricultura sustentável, restauração de pastagem, florestas e conservação de biodiversidade a agropecuária pode ser um verdadeiro sumidouro de carbono.

Para que o agro se consolide como uma solução no combate às mudanças climáticas e possamos usufruir de mercados e valorização das commodities, é mandatório o fim do desmatamento ilegal, já que metade das emissões de carbono brasileiras é provocada pelo desmatamento ilegal realizado por criminosos ambientais. É interesse do agronegócio que o Estado faça a fiscalização e punição ao desmatamento ilegal, assim como viabilize o pagamento aos serviços ambientais prestados pela esmagadora maioria dos produtores, que trabalham dentro da lei.

Os desafios são a recuperação de pastagens, visto que atualmente 57% das pastagens apresenta algum tipo de degradação, sendo 26% classificadas como alto grau de degradação.

A recuperação de pastagens degradadas permite a maior oferta de alimento para o gado, reduzindo de 36 para 24 meses o tempo de abate do animal, representando um ano a menos de emissão de metano. Como dito acima, pastagens bem manejadas são uma excelente mecanismo de retirar carbono da atmosfera, esta métrica precisa começar a entrar nos cálculos.

Através de pesquisa, inovação e muito trabalho dos produtores rurais brasileiros, nos últimos 60 anos nossa produtividade aumentou 420% e a área cultivada apenas 47%, agora o desafio é fazer estas tecnologias chegarem aos pequenos produtores através de políticas públicas mais inclusivas.

Sempre repito que nos últimos 40 anos passamos de importador de alimentos básicos para um dos maiores exportadores mundiais de alimentos, nos próximos 40 anos  o Brasil pode se tornar uma potência agroambiental e quem não entender isto, é carta fora do baralho.

Helen Jacintho é engenheira de alimentos por formação e trabalha há mais de 15 anos na Fazenda Continental, na Fazenda Regalito e no setor de seleção genética na Brahmânia Continental. Fez Business for Entrepreneurs na Universidade do Colorado e é juíza de morfologia pela ABCZ. Também estudou marketing e carreira no agronegócio. E-mail: [email protected]

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