Nos últimos anos, o bem-estar mental deixou de ser um tema restrito à psiquiatria e passou a ser discutido de forma mais ampla em diversas especialidades da saúde – inclusive na dermatologia. Sempre acreditei que a pele é uma extensão do que vivemos internamente. Isso se confirma a cada dia: o que o paciente traz na superfície pode ter raízes emocionais mais profundas.
Por isso, minha abordagem clínica vai além da análise estética. Durante a anamnese, não observo apenas a queixa visível. Investigo hábitos de vida, qualidade do sono, níveis de estresse, alimentação e até mesmo o quanto o paciente cuida da própria saúde emocional. A pele é, muitas vezes, a primeira a sinalizar desequilíbrios internos.
É comum receber pacientes com queixas de acne, manchas ou perda de viço, mas que, ao longo da avaliação, revelam um histórico de insônia, estresse crônico ou excesso de autocobrança. A textura, o brilho e a vitalidade da pele respondem diretamente ao que acontece no nosso estado emocional. Dormir mal, viver em constante tensão ou negligenciar o autocuidado emocional se traduz, inevitavelmente, na saúde da pele.
A ciência por trás da pele que sente
A dermatologia atual não se limita a tratar acne, rugas ou manchas – ela busca compreender o que está por trás dos sintomas cutâneos.
Essa conexão não é apenas uma percepção clínica, mas tem base científica. A pele e o cérebro compartilham a mesma origem embrionária, o ectoderma. Dessa ligação nasce o chamado eixo cérebro-pele, uma via direta de comunicação entre os sistemas nervoso, imunológico e endócrino. Emoções como ansiedade e estresse crônico disparam a produção de substâncias inflamatórias, como o cortisol, que desequilibram a barreira cutânea, favorecem inflamações e aceleram o envelhecimento celular.
Estudos publicados em revistas científicas, como o Journal of Clinical and Aesthetic Dermatology, reforçam esse entendimento. Condições emocionais como estresse, depressão e ansiedade não são apenas fatores subjetivos; eles desencadeiam reações fisiológicas reais, com impacto direto na pele. O resultado? Agravamento de quadros como acne, rosácea, psoríase, queda de cabelo, melasma e vitiligo, entre outros.
Inovações reforçam o cuidado integral
Sempre acreditei que cuidar da mente é também cuidar da pele. Por isso, vejo com entusiasmo a chegada de inovações que validam e ampliam essa visão integrada da saúde.
Entre elas está a estimulação magnética transcraniana (TMS), uma tecnologia não invasiva já consolidada na neurologia. Recentemente, foi lançado nos EUA o Exomind, uma tecnologia de TMS aprovada pelo FDA para o tratamento da depressão e da ansiedade, que promove a melhora do bem-estar geral do paciente. A TMS atua por meio de pulsos magnéticos que modulam áreas específicas do cérebro, promovendo melhora da ansiedade, da qualidade do sono, da compulsão alimentar, do foco e do bem-estar geral. É um recurso que reforça, com respaldo científico, a importância de equilibrar a mente para refletir esse equilíbrio na pele – em breve, em nossos consultórios aqui no Brasil.
Hoje, o autocuidado não é mais visto como luxo, mas como necessidade. Priorizar o sono, respeitar os próprios limites e cultivar o bem-estar emocional passou a ser parte essencial da rotina de quem busca não apenas estética, mas saúde verdadeira.
A saúde da sua pele é o pilar para qualquer tratamento dermatológico ou estético. Entender o paciente de forma integral – considerando corpo, emoções e hábitos – é essencial para alcançar resultados que sejam, de fato, duradouros e transformadores.
Dra. Letícia Nanci é médica do Hospital Sírio-Libanês, médica responsável pela Clínica Dermatológica Letícia Nanci; membro efetivo da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD); da American Academy of Dermatology (AAD) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD).
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Coluna publicada na edição 131 da revista Forbes, em maio de 2025.