Todo mês de janeiro, Davos volta ao noticiário cercado por imagens previsíveis: neve, jantares caros, jatos privados. Para muita gente, o Fórum Econômico Mundial parece um ritual distante, desconectado da vida real. Um encontro de elites debatendo problemas abstratos. Essa leitura é compreensível, porém incompleta.
Davos é onde as grandes narrativas do próximo ciclo começam a se alinhar. Antes de virarem políticas públicas, regulações, estratégias corporativas ou crises explícitas, elas passam por ali. Ignorar Davos nos afasta da possibilidade de compreendê-las a tempo.
Em 2026, o tema oficial foi “Um Espírito de Diálogo”. A escolha soa quase irônica. O encontro aconteceu em um mundo mais fragmentado, menos cooperativo e mais defensivo. O que se viu foi longe de ser um consenso. Vimos o reconhecimento silencioso de que o modelo de coordenação global está sob estresse e que os custos dessa fratura já estão sendo redistribuídos.
Em Davos, a inteligência artificial apareceu mais como espelho do que como revolução. Um espelho das assimetrias que já existem. Houve um consenso em torno de uma constatação desconfortável: a IA está avançando mais rápido do que a capacidade das instituições de lidar com seus efeitos. Não se trata apenas de substituir tarefas, mas de redefinir portas de entrada no mercado de trabalho justamente em um momento em que jovens enfrentam mais dificuldade para construir carreiras que façam sentido.
Chamou atenção o tom mais cauteloso de executivos que, até pouco tempo atrás, lideravam o discurso do entusiasmo irrestrito. Muitos admitiram que suas empresas ainda não sabem transformar IA em valor concreto. Investimentos existem, resultados ainda não tanto quanto o esperado. Quando tecnologia avança sem governança, o impacto tende a ser regressivo: mais eficiência para poucos, mais incerteza para muitos. A inovação, nesse cenário, deixa de ser promessa coletiva e passa a ser fator de tensão social.
A geopolítica foi um dos eixos centrais. Tensões comerciais, disputas tecnológicas e reposicionamentos estratégicos indicam um mundo menos previsível e mais temeroso. Quando grandes potências transformam comércio, energia e tecnologia em instrumentos de poder, os efeitos não ficam restritos às cúpulas diplomáticas. Eles aparecem nos preços, no crédito, no custo de vida, na volatilidade econômica que atinge países e famílias.
A discussão sobre Clima seguiu presente, dessa vez, com menos retórica e mais pragmatismo. A conversa avançou do “precisamos agir” para “quanto custa não agir”. Infraestrutura vulnerável, seguros mais caros, escassez de recursos e impactos diretos na economia passaram a ocupar o centro do debate. Ainda assim, a contradição permanece: o evento que discute sustentabilidade continua simbolizando excessos. Talvez essa tensão seja o retrato mais honesto de Davos hoje com diagnósticos sofisticados e execução aquém da urgência.
Davos importa porque antecipa. Porque revela desconfortos antes que eles se tornem crises abertas. Porque sinaliza para onde capital, poder e narrativa estão se movendo. Trazer Davos para perto não é glamourizar elites, longe disso. É traduzir decisões que, cedo ou tarde, atravessam fronteiras e chegam ao nosso cotidiano, o de quem provavelmente nunca estará naquele vilarejo suíço.
A pergunta não é se Davos representa o mundo. Não representa.
A pergunta é se podemos nos dar ao luxo de ignorar os sinais que dali emergem.
Iona Szkurnik é fundadora e CEO da Education Journey, plataforma de educação corporativa que usa Inteligência Artificial para uma experiência de aprendizagem personalizada. Com mestrado em Educação e Tecnologia pela Universidade de Stanford, Iona integrou o time de criação da primeira plataforma de educação online da universidade. Como executiva, Iona atuou durante oito anos no mercado de SaaS de edtechs no Vale do Silício. Iona é também cofundadora da Brazil at Silicon Valley, fellow da Fundação Lemann, mentora de mulheres e investidora-anjo.
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