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A IA Não Ameaça a Educação Brasileira. O Sistema de Testes, Sim

O debate sobre inteligência artificial na educação brasileira começa pela pergunta errada

4 min

Falamos sobre quais ferramentas usar, como evitar cola, atualizar currículos e treinar trabalhadores para um mercado que muda rápido. Essas perguntas importam. Mas chegam tarde se ignoram uma anterior: que base cognitiva e institucional o Brasil construiu para usar IA com autonomia, diligência e na direção correta?

A tecnologia não chega a um país abstrato. Chega a uma sociedade concreta, com suas desigualdades e seus pontos cegos. No Brasil, ela chega a um país que ainda não resolveu o básico.

No PISA 2022 (último resultado disponível), só 27% dos estudantes brasileiros de 15 anos atingiram o nível mínimo de proficiência em matemática. Na média da OCDE, 69%. Em leitura, 50% contra 74%. Em ciências, 45% contra 76%. Desde 2009, os resultados brasileiros ficaram estáveis, com pequenas flutuações, sem nenhuma mudança significativa.

A IA não substitui leitura, matemática e raciocínio. Ela torna essas capacidades mais decisivas. Quem sabe formular boas perguntas e avaliar respostas usa melhor a ferramenta. Quem não teve essa base corre o risco de terceirizar justamente o que mais precisava desenvolver.

Enquanto isso, outros países já a tratam como política educacional. A Índia incluiu IA e pensamento computacional no currículo da CBSE para estudantes do primário a partir de 2026. A China tornou obrigatórias pelo menos oito horas anuais de educação em IA nas escolas desde 2025, a partir dos 6 anos de idade. O Cazaquistão assinou um decreto, em maio de 2026, para integrar IA ao ensino secundário até 2029. São apenas alguns exemplos.

A Estônia é o caso mais revelador, seguindo a sequência de uma política de Estado forte em inovação e produtividade. O país investiu em cultura digital escolar desde os anos 1990, com o programa Tiger Leap. O AI Leap, iniciativa atual de acesso a ferramentas e formação docente em escala nacional, é consequência disso, não ponto de partida.

Nem tudo funcionou. A Coreia do Sul acelerou livros didáticos digitais com IA e enfrentou resistência de pais e professores devido à formação insuficiente, à sobrecarga docente e a questões de privacidade. Em 2025, as ferramentas foram reclassificadas de materiais oficiais para suplementares. IA na educação, sem professor preparado e governança pedagógica, gera resistência, não transformação. Nem tudo é mágica, como às vezes pode parecer.

O Brasil tem bons exemplos. Tem professoras de escola pública reconhecidas globalmente. Tem organizações sociais formando jovens para o trabalho. Tem empresas que entenderam que formar pessoas é tão estratégico quanto construir fábricas. O problema não é a ausência de experiências admiráveis. É que elas operam como exceção.

Um país pode se empolgar com bons exemplos e ser incapaz de transformá-los em sistema. Pode premiar professores extraordinários sem melhorar a carreira docente ou celebrar uma escola técnica exemplar sem redesenhar a formação profissional em escala.

O que falta é arquitetura entre educação básica e mercado de trabalho, entre currículo e realidade produtiva, entre formação técnica e desenvolvimento econômico. A parte menos glamourosa da inovação é conectar o que existe, dar continuidade ao que funciona e criar instituições que sustentem o que hoje depende de pessoas excepcionais.

Sem dúvida, a IA vai acelerar muita coisa. Aceleração sem direção não resolve nada.

A pergunta que o Brasil precisa responder não é nova: conseguimos formar pessoas com profundidade suficiente para participar do futuro ou vamos manter o status quo de “ser o país do futuro” e perder essa oportunidade histórica de quebra de paradigma?

Iona Szkurnik é fundadora e CEO da Education Journey, plataforma de educação corporativa que usa Inteligência Artificial para uma experiência de aprendizagem personalizada. Com mestrado em Educação e Tecnologia pela Universidade de Stanford, Iona integrou o time de criação da primeira plataforma de educação online da universidade. Como executiva, Iona atuou durante oito anos no mercado de SaaS de edtechs no Vale do Silício. Iona é também cofundadora da Brazil at Silicon Valley, fellow da Fundação Lemann, mentora de mulheres e investidora-anjo.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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