O ouro vem se consolidando cada vez mais como principal protagonista do mercado de metais preciosos, alcançando recordes históricos na cotação da onça-troy (unidade de medida internacional para mensurar seu valor, o equivalente a 31,1 gramas) e reforçando seu papel como porto seguro diante de um ambiente econômico e geopolítico um tanto quanto turbulento.
A valorização reflete fatores estruturais que vão muito além do Brasil: cortes de juros pelo Fed (Federal Reserve, o Banco Central americano), enfraquecimento do dólar, aumento das reservas de bancos centrais e tensões internacionais.
No acumulado deste ano até setembro, o metal valorizou 26,43% no Brasil, segundo dados da Ourominas. Tudo indica que essa corrida pelo ouro pode fechar o ano próximo ou acima do desempenho de 2024, quando a alta registrada foi de 38,22%. Nesta quinta-feira (2) a onça troy estava cotada a R$ 18,8 mil para compra, e R$ 21,6 mil para venda.

Em geral, em termos de volume de alocação o metal não representa uma parcela significativa na carteira. Entretanto, o desempenho, até agora, supera até o da bolsa de valores, com acumulado de 21,6% neste ano, fruto, em parte, de seguidos recordes de máximas registradas em setembro. E, como de costume, à reboque do humor do investidor estrangeiro.
No caso do ouro, seu brilho aumenta ou diminui na carteira do investidor ao sabor de choques internacionais, sobretudo guerras, tensões geopolíticas e política monetária e fiscal global. Esses fatores influenciam mais do que as questões domésticas, segundo analisa Marco Antonio Mecchi, diretor de Investimentos da Azimut Brasil Wealth Management. “Segundo dados de mercado, só em agosto houve US$ 5,5 bilhões em entradas em ETFs de ouro, liderados por EUA e Europa, o que ajudou a empurrar o preço para perto de novas máximas”, avalia Mecchi.
E o que se enxerga no horizonte são novas máximas, ainda que acompanhadas de volatilidade. Entretanto, o desempenho em reais dependerá da trajetória do câmbio, opina Luan Aral, trader e especialista da Genial Investimentos. Ontem, por exemplo, a moeda estrangeira fechou o dia a R$ 5,32, numa alta de 0,20%.
Tradicionalmente o metal funciona como proteção contra inflação e crises, porém, não é infalível, podendo sofrer quedas bruscas em movimentos de liquidez, segundo lembram os analistas. Um dos exemplos é o apetite crescente dos chineses e questões como dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida americana.
E no Brasil?
“A alta do ouro no Brasil é explicada por conta da alta da onça-troy que está batendo recordes atrás de recordes e só não subiu mais porque o dólar está enfraquecido globalmente inclusive sobre o real”, Mauriciano Cavalcante, da Ourominas
Ou seja, mesmo com o real relativamente valorizado, o efeito da valorização global do ouro continua predominante. Cavalcante enfatiza que o câmbio é só uma das explicações para a valorização do metal, já que elementos como a liquidez e escassez do metal no mercado internacional também colaboram para esse cenário.
Olhando adiante, a expectativa é de continuidade do ciclo de valorização até o final de 2025, especialmente se os cortes de juros nos EUA se confirmarem e os bancos centrais mantiverem o ritmo de compras.
Para Paulo Cunha, CEO da iHub Investimentos, o ouro pode renovar máximas históricas, mas não deve experimentar uma trajetória linear: “O cenário aponta nessa direção. Se os juros nos EUA caírem e o dólar continuar em tendência de baixa, o ouro deve se beneficiar. Mas será um movimento irregular, com fases de correção pelo caminho”.
Diversificação e perfil
A fragilidade da moeda americana é vista por muitos analistas como o motor estrutural dessa valorização do ouro. Segundo Cunha, a perda de confiança no dólar tem levado bancos centrais a diversificar reservas. “O movimento é reflexo de um fenômeno global. A confiança no dólar como reserva única de valor foi abalada após anos de expansão fiscal e monetária nos EUA”, explica. Para ele, o ouro deixou de ser apenas um refúgio da crise para se tornar uma realocação estratégica de longo prazo.
Esse caráter estrutural não elimina, porém, riscos de curto prazo. A volatilidade pode ser acentuada por oscilações do mercado de ações, por movimentos do câmbio e até por mudanças no apetite global por risco. Ainda assim, especialistas concordam que o papel defensivo do ouro permanece. “O ouro é um porto seguro relativo. Preserva valor em períodos de estagflação e incerteza, mas não garante ganhos contínuos”, reflete Mecchi.
Analistas dizem que a alocação depende do apetite por risco do investidor. Em média, fica em 3% a 10% da carteira, chegando a 25% em casas especializadas. O que vai nivelar esse apetite por risco é justamente a escolha do investidor por apostar no metal físico, característica mais comum entre os moderados; ou nos ETFs, caminho para aqueles mais dispostos a maior risco. Na prateleira estão dispostas ainda as ações de mineradoras, que oferecem alavancagem maior, mas com risco elevado, dizem analistas.
Em consenso, os especialistas do assunto observam que o brilho do ouro sempre permanecerá forte num mundo marcado por incerteza, inflação e fragilidade fiscal, e sua função milenar perdurará, a de não ser apenas um ativo de especulação, mas um pilar de estabilidade e preservação de valor em carteiras de longo prazo.