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Gado a Pasto Pode Fazer Parte da Solução para as Mudanças Climáticas

O manejo adequado de pastagens, sem uso de fertilizantes químicos, pode neutralizar emissões de gases de efeito estufa e recuperar áreas degradadas

5 min

Vacas e ovelhas alimentadas com pasto podem fazer parte da solução para as mudanças climáticas, desde que os agricultores adotem uma forma de trabalho mais circular e menos intensiva, segundo uma nova análise do Sustainable Food Trust, organização que promove práticas que beneficiem o clima, a natureza e a saúde humana, sediada no Reino Unido.

O estudo desafia a visão popular de que o gado bovino é frequentemente parte do problema quando se trata de mudanças climáticas. Em vez disso, destaca os benefícios ambientais das vacas criadas com pasto, sem uso de fertilizantes ou produtos químicos. O relatório argumenta que os sistemas de agricultura regenerativa dependem da rotação de culturas com gramíneas e leguminosas, que melhoram naturalmente a saúde do solo.

O relatório também afirma que a transição para sistemas de pastagem com baixo uso de insumos ajudaria a reverter a enorme perda de biodiversidade que ocorreu nas áreas de cultivo e pastagens aprimoradas do Reino Unido ao longo do último século. Hoje, o país possui apenas 50% de sua biodiversidade original.

Além disso, o documento aponta que o pastoreio é essencial para a conservação de habitats e espécies importantes, podendo desempenhar um papel central em projetos de recomposição ambiental.

Sustainable Food TrustPatrick Holden é fundador e diretor executivo da Sustainable Food Trust

Para Patrick Holden, fundador e diretor executivo do Sustainable Food Trust, o senso comum atual de que o gado é parte do problema em relação às mudanças climáticas, é “falho”. “Cálculos anteriores não levaram em consideração a inter-relação essencial entre as vacas e os solos sob seus pés”, diz Holden, que também é agricultor com mais de 50 anos de experiência e dirige uma fazenda mista de laticínios orgânicos em West Wales, no País de Gales, onde produz queijo artesanal.

Ele ainda afirmou que, com os sistemas de pastagem corretos, a captura de carbono no solo pode mais do que compensar as emissões de animais como vacas e ovelhas.

Holden acrescentou que a ortodoxia predominante começou a ser desafiada pelo professor Myles Allen, da Universidade de Oxford, que identificou falhas na forma como o metano emitido por vacas vinha sendo calculado — que comprometem a avaliação do potencial positivo do setor pecuário.

“Não é a vaca, mas o como”, disse Holden. “Se os sistemas agrícolas que hoje predominam no Reino Unido e no mundo continuarem os mesmos, então não poderemos afirmar que a vaca pode fazer parte da solução”, diz ele.

Segundo Holden, os sistemas de produção atuais extraem carbono do solo, utilizam grandes quantidades de fertilizantes nitrogenados e outros insumos químicos, que têm uma pegada de carbono muito alta. “Para que as vacas façam parte da solução, é preciso adotar a agricultura mista, que se baseia na rotação de culturas para aumentar a fertilidade do solo.”

Catherine Broomfield, socióloga rural e pesquisadora do Centro de Pesquisa em Políticas Rurais da Universidade de Exeter, diz que o debate sobre agricultura e mudanças climáticas tende a se concentrar em um conjunto restrito de métricas. “A agricultura é um sistema e, como qualquer sistema, é complexo. Nesse caso, a atividade depende altamente do local”. As práticas agrícolas e localização onde o gado é criado precisam ser consideradas na hora de estimar os impactos ambientais.

Ela completa que é importante que o debate público e político se afaste do foco exclusivo em aspectos isolados, como as emissões de metano, ao tentar fazer uma avaliação sobre se a criação de gado e ovelhas é algo bom ou ruim para as pessoas e para o planeta.

“Se olharmos apenas para o Reino Unido, o clima aqui nos permite cultivar, de forma natural e com irrigação pela chuva, uma abundância de pasto. É possível produzir carne bovina a partir de um sistema baseado em pastagem, com pouca ou nenhuma suplementação com ração à base de grãos”, diz Catherine.

Ela acrescenta que as pastagens permanentes, que nunca foram aradas ou que não são aradas há várias décadas, são um enorme reservatório de carbono.

“Também sabemos que a incorporação de pastagens de curto prazo na rotação de culturas, que depois são utilizadas para o pastoreio de gado e ovelhas, é muito benéfica para a reconstrução da saúde do solo, incluindo o carbono orgânico do solo, além de permitir que o solo capture ainda mais carbono”, diz.

Segundo Catherine, isso também reduz a necessidade de fertilizantes sintéticos e herbicidas. “A criação de gado e ovelhas baseada em pastagens pode ser uma parte extremamente importante na construção de um sistema alimentar sustentável e saudável para todos”, afirma Catherine.

Benjamin Selwyn, professor da Universidade de Sussex, afirmou que o relatório oferece uma “contribuição útil para a discussão” sobre o futuro da agricultura e dos sistemas alimentares. No entanto, ele acrescenta que ainda existem dúvidas sobre como esse tipo de mudança estimularia as pessoas a adotarem dietas mais sustentáveis.

Para Selwyn, é necessário haver uma ação mais “radical” e apoio financeiro por parte do governo central para ajudar o setor agrícola britânico, que enfrenta dificuldades. “Embora a ideia de que podemos avançar em direção à agricultura regenerativa e adotar formas agroecológicas de produção de carne seja um passo na direção certa, precisamos de muitos outros passos, e com mais rapidez, nessa direção”, acrescenta ele.

* Jamie Hailstone é colaborador da Forbes Reino Unido, onde escreve sobre sustentabilidade com foco em poluição, economia circular e cidades mais saudáveis.

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