1. Início
  2. /
  3. Forbes Agro
  4. /
  5. Festa do Peão de Barretos É a Disney Brasileira Que Movimenta R$ 1,2 Bi Nesta Semana
Forbes Agro

Festa do Peão de Barretos É a Disney Brasileira Que Movimenta R$ 1,2 Bi Nesta Semana

Confira a entrevista exclusiva com Jerônimo Muzeti, o "síndico da peãozada" e a mente por trás de cada detalhe do que ocorre no interior de São Paulo há 70 anos

10 min

Jerônimo Luiz Muzeti tem 66 anos e uma rotina peculiar durante os 11 dias da Festa do Peão de Barretos. o mais tradicional rodeio do país, que começou no dia 21 e termina na próxima segunda-feira (31). O presidente da Associação Os Independentes praticamente vive dentro do parque de 2,1 milhões de metros quadrados, permanecendo acordado até altas horas da madrugada para supervisionar cada detalhe do evento que considera “a Disney sertaneja do Brasil”. Na tarde desta terça-feira, ele parou sua rotina para conversar com exclusividade com a Forbes.

“Fico a noite inteira acordado. Eu não durmo. Fico teleco-teco aqui. Nove horas da manhã, oito horas da manhã, eu tô acordado ainda”, conta Muzeti, que tem um rancho dentro do próprio parque e, durante o evento, não sai da propriedade nem um único dia. No universo do samba, teleco-teco é uma figura rítmica que funciona como elemento estruturante na música.

A dedicação integral mostra a dimensão do que está em jogo. A festa de 2025, que marca os 70 anos do evento, deve movimentar cerca de R$ 1,2 bilhão na região, segundo estimativas da Secretaria de Turismo, no raio de 200 quilômetros de Barretos. Apenas a venda de ingressos e produtos da associação deve alcançar entre R$ 200 e R$ 250 milhões, um crescimento de 20% a 25% em relação ao ano anterior.

Uma operação de alcance nacional

Os números da festa impressionam pela capilaridade. Muzeti afirma que pessoas de cerca de 2.500 municípios brasileiros compraram ingressos para o evento, mas essa capitalidade pode ser ainda maior, porque “verifiquei esse dado há uns 20 dias”. Em Minas Gerais, estado com mais de 850 municípios, 680 cidades registraram vendas. No Rio de Janeiro, 93% dos municípios têm representantes no evento. No Espírito Santo, o percentual chega a 80%.

“Você conseguir trazer gente de todos os estados. Isso é bom demais, é um parâmetro pra gente entender que o evento consolidou a nível Brasil”, diz o presidente, que está em sua décima segunda gestão à frente da festa.

O impacto econômico se estende para além dos portões do parque. Muzeti reservou 2 mil leitos em hotéis de Olímpia, cidade vizinha, investindo entre R$ 600 mil e R$ 700 mil apenas em hospedagem para staff e artistas. Enquanto Barretos possui cerca de 5 mil leitos, o evento pode receber até 180 mil pessoas em uma única noite, espalhando o público por toda a região.

A programação cultural da festa combina tradições centenárias com grandes espetáculos. São 130 shows nos palcos principais, passando por mais de 2 mil artistas ao longo dos 11 dias de evento. Paralelamente aos sucessos da música sertaneja, como Ana Castela, que foi escolhida embaixadora da Festa do Peão, o evento mantém atrações tradicionais: quadrilha de palmas, desfiles de carros de boi, catira, moda de viola, concurso de berrante e a queima do alho. Juntos, são cerca de 150 atrações. “Tem pessoas que nunca viram um carro de boi na vida e talvez só vejam aqui”, afirma Muzeti.  Na queima do alho, comitivas preparam pratos  como arroz carreteiro, feijão gordo, paçoca de carne e churrasco em fogões improvisados, como nos tempos dos tropeiros. Neste são são 20 comitivas boiadeiras.

“A gente quer manter as nossas tradições. Tem muita gente que vem a Barretos que nunca viu um carro de boi. Vem ver dentro do nosso evento”, diz Muzeti. “Mas quem paga a conta praticamente é o grande rodeio e os grandes shows que fazem público do Brasil todo.” Eles vão dessa nova geração, representada por Ana Castela, Zé Neto e Cristiano, passando por duplas como Fernando e Sorocaba a Chitãozinho & Xororó. Ou fenômenos fora do mundo sertanejo, como o católico Frei Gilson nesta segunda-feira (25), que somente no Instagram tem 10 milhões de seguidores e 1,9 milhões de ouvintes mensais no Spotify. Em Barretos, ele levou à arena cerca de 60 mil espectadores e muita gente ainda ficou fora assistindo ao show em telões. Há também, desde o ano passado, noites para trios elétricos, um tipo de música quase impensável em meio ao mar sertanejo.

Para segurar esse tipo de infraestrutura do parque Muzeti diz que tem como desenho de estrutura uma ambição, a ser um espaço de amplo conforto em todos os sentidos. No Parque do Peão, projetado por Oscar Niemeyer, a estrutura equivale a uma pequena cidade. São mais de 1.500 bases sanitárias com ar-condicionado e máquinas de perfume, dois prontos-socorros (um adulto e um infantil), ambulatório odontológico, corpo de bombeiros e polícias civil e militar. Somente o sistema elétrico conta com 110 transformadores distribuídos em seis “bairros” para garantir energia ininterrupta.

A festa também incorporou tecnologias avançadas nos últimos anos. Todos os ingressos são digitais com reconhecimento facial e não há mais bilhetes de papel ou QR codes. Os estacionamentos operam com sistema automatizado similar ao Sem Parar, permitindo que compradores via aplicativo passem direto pelas cancelas informatizadas.

Para as inovações introduzidas no parque, Muzeti viaja constantemente em busca de ideias que possam ser trazidas ou adaptadas à festa brasileira. Uma recente viagem ao Tomorrowland Festival na Bélgica trouxe inspirações para laser e outras modernizações. “Sou muito alérgico [a coisas velhas]. Tenho que trazer inovação para o meu negócio”, afirma.

A questão animal sob escrutínio científico

Não é de hoje e continua sob escrutínio que o bem-estar animal representa um dos aspectos mais sensíveis do evento. Mazeti sabe das críticas que esse tipo de evento recebe em relação ao trato dos animais, mas defende sua trajetória. Desde 1996, a festa mantém parceria com a FUNEP (Fundação de Apoio à Pesquisa, Ensino e Extensão), ligada à UNESP de Jaboticabal, para estudos científicos sobre o impacto das montarias nos animais.

“Eles fazem pesquisa o tempo todo pra nós, fazem testes com animais em fazenda, ultrassom depois de uma montaria, [análise de] estresse através do olho”, detalha Muzeti. Os estudos incluem testes na retina dos animais após as montarias e avaliação da capacidade reprodutiva dos touros.

Durante o evento, cerca de 50 estudantes de veterinária de diversas universidades acompanham o manejo de aproximadamente 800 cavalos alojados no parque. Quatro ou cinco veterinários lideram a equipe que monitora desde o embarque e desembarque até o percurso dos animais na arena. No total são 3.500 competidores nacionais e cerca de 5 mil animais, com
premiação superior a R$ 1,5 milhão. Entre elas estão de de três tambores, específica para as mulheres; a team penning que simula o trabalho de apartação na lida animal de uma fazenda; o cutiano, que é o estilo típico brasileiro de montaria; a monta de touros, uma modalidade introduzida nos rodeios brasileiros na década de 1980, entre outras. Entre as mais esperadas está a final PBR Brazil, a fase decisiva do Campeonato Brasileiro da PBR (Professional Bull Riders), organização fundada nos Estados Unidos em 1992.

O presidente relata mudanças nas práticas e manejo dos animais ao longo dos anos. “Antigamente o pessoal usava o choque para conduzir os animais. Isso a gente proíbe totalmente.” Ele conta que a associação já desqualificou competidores flagrados maltratando animais.

Outro viés que ganhou importância na agenda foi a sustentabilidade nos espaços da operação da festa. Hoje, o parque conta com usina fotovoltaica que gera energia durante todo o ano, criando excedente para compensar o consumo de quase 4 mil quilowatts durante os 11 dias do evento. E uma estação de tratamento de água foi construída exclusivamente para suprir o parque.

A reciclagem de latas de cerveja e plásticos é realizada por associação especializada e a festa também participa de programa de créditos de carbono, recebendo certificados pelos impactos ambientais neutralizados. A digitalização completa dos ingressos eliminou o uso de papel físico.

Para 2026, o evento está programado para 20 a 30 de agosto, mantendo a tradição de incluir o dia 25, aniversário da cidade de Barretos, na programação. Há anos, a recebe visitantes dos Estados Unidos, México e Canadá, e sua posição tem referência internacional no mundo do rodeio. Daí a sua necessidade também de se manter atraente para esse público que vê no Brasil algo genuíno nesse universo, mas também antenado. Para os próximos anos, Muzeti projeta uma transformação inspirada em festivais europeus. A ideia é criar diversos palcos menores espalhados pelo parque, permitindo maior circulação do público e possibilitando ingressos com valores mais acessíveis. “Não consigo receber um número muito maior de pessoas do que eu poderia receber, com um ticket mais em conta, porque tenho uma concentração de todo mundo que quer ir pra um lugar só”, diz ele.

O modelo atual concentra o público em poucos espaços principais, limitando a capacidade e mantendo preços elevados.  Muzeti concorda que recebe um público seleto, que pode pagar por um espetáculo longe do público de massa. Ele cita o exemplo de um casal de Aracaju que conheceu há poucos dias e que pelas suas contas gastou cerca de R$ 50 mil na viagem completa para Barretos.

Ele diz também que festa não pode perder seu caráter social, o que inclui uma série de ações. A Festa do Peão nasceu em 1955 de uma conversa entre 20 amigos em um bar, com o objetivo de angariar fundos para entidades de Barretos. De um evento regional em propriedade de 40 alqueires na cidade, evoluiu para os atuais 90 alqueires (2,1 milhões de metros quadrados) na zona rural, consolidando-se como referência nacional. Não por acaso, há campanhas como o do Zé Gotinha, que promove a vacinação infantil e shows em que a renda vai para instituições.

Muzeti, que assumiu pela primeira vez em 1995, participou das edições comemorativas dos 40, 50, 60 e agora 70 anos. Seu legado inclui a transformação do espaço de fazenda fechada em parque aberto ao público durante todo o ano e a criação de um monumento de 27 metros de altura que marcou a festa dos 50 anos. Ele é uma espécie de símbolo que marca a transformação da festa em um megaevento esperado. “O que acho que não pode acontecer nunca é deixar de manter o que a gente foi”, afirma o presidente. “Posso modernizar demais, mas não posso do dia pra noite não querer mais o que identifica a gente. Temos que oxigenar o evento o tempo todo, mas não abandonar as nossas tradições.”

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.