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Agro Acumula R$ 256 Bilhões Em Dívidas E Crise Ainda Deve Persistir

Safras recordes e exportações em alta contrastam com recorde de recuperações judiciais e crédito mais restrito no agronegócio brasileiro

7 min

“A situação é crítica em função de uma circunstância de juros elevadíssimos por muito tempo. A margem do agronegócio está extremamente reduzida”, diz o presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), Ingo Plöger, em entrevista exclusiva à Forbes Agro. O que ele afirma é um retrato de uma das maiores contradições já vividas pelo campo brasileiro.

Enquanto o País segue ampliando sua produção de alimentos, registra safras recordes e mantém forte desempenho nas exportações, cresce também o endividamento. Hoje, ele está na casa de R$ 256 bilhões e é crescente o número de produtores que recorrem à recuperação judicial (RJ) para reorganizar suas finanças.

“Se não chegamos ao topo, estamos muito próximos dele. A maioria das dívidas já está vencida ou em RJ”, diz o advogado Amauri de Oliveira, especialista em recuperação de crédito no agronegócio e sócio-fundador da Oliveira Paolucci Advogados, de São Paulo (SP). “E quem já pediu RJ não pode pedir de novo imediatamente.”

Mesmo o Plano Safra 2026/27, anunciado no final de junho, de R$ 622,4 bilhões (combinando as linhas para agricultura empresarial e familiar) não serviria nem para atenuar a crise, pois os produtores inadimplentes não têm acesso ao crédito oficial.

O fato que a dificuldade não está na capacidade de produzir, mas na de transformar produtividade em resultado financeiro. Mesmo depois de anos de crescimento acelerado das safras, o setor passou a conviver com uma combinação de juros elevados, custos persistentes, retração dos preços agrícolas e menor oferta de financiamento privado. O resultado aparece agora nas estatísticas.

Os cálculos do endividamento rural

Do total da carteira de crédito agropecuário de R$ 1,2 trilhão, os R$ 256 bilhões assinalados seria a carteira problemática do agro em todo o País, de acordo com um levantamento da Frente Parlamentar do Agronegócio (FPA). É nela que estão as contas em atraso, inadimplentes, mais as dívidas renegociadas ou prorrogadas.

Dados da Serasa Experian mostram que o agronegócio brasileiro encerrou 2025 com 1.990 pedidos de recuperação judicial (RJ), o maior volume desde o início da série histórica da empresa. O número representa crescimento de 56,4% em relação a 2024 e reúne dados de pedidos de RJ de produtores rurais pessoas físicas, pessoas jurídicas e empresas da cadeia agroindustrial. Mato Grosso liderou o ranking nacional, com 332 solicitações.

O avanço das recuperações acompanha outro indicador que preocupa. Um levantamento do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) mostra que o chamado crédito problemático chegou a R$ 21,8 bilhões em Mato Grosso, equivalentes a 18,2% de toda a carteira estadual de crédito rural. Em 2022, esse percentual era de apenas 2,08%.

Divulgação/AbagIngo Plöger, presidente da Abag

“A expectativa é que o cenário comece a melhorar em 2027”, diz Oliveira. “Mas ninguém pode afirmar com certeza, porque isso depende de fatores como a manutenção ou troca de governo e a questão fiscal, que está toda ligada à taxa de juros.” Já Ingo Plöger avalia que a solução também depende de mudanças estruturais na política agrícola, substituindo a lógica anual do Plano Safra por uma política permanente de crédito, seguro rural e reestruturação de garantias, com horizonte de médio e longo prazo.

“O Plano Safra é um plano de governo e a cada ano a gente espera milagres que não vêm”, diz ele. “Quando você compra um equipamento, não busca o retorno do investimento em um ano; se faz isso para três, quatro, cinco anos.” Além da limitação do crédito oficial, outra fragilidade estrutural passou a ganhar peso no debate sobre o endividamento do setor: a baixa cobertura do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) e o próprio valor que está muito longe do necessário para a agropecuária brasileira.

Um estudo da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) apontou que a necessidade é de um orçamento de R$ 4 bilhões, em vez dos dos cerca de R$ 1 bilhão (que teve R$ 461,7 milhões contingenciados). Outro levantamento, o da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), mostra que no último ano o PSR alcançou apenas 3,27% da área plantada no país. Na avaliação da bancada, a atual escalada do endividamento também é reflexo de anos de investimentos insuficientes nessa política pública.

Os parlamentares argumentam que um programa de seguro rural mais abrangente teria reduzido a necessidade de renegociação de dívidas, já que o custo da prevenção seria significativamente menor do que os recursos hoje discutidos para socorrer produtores em dificuldades.

Uma crise que atravessou várias safras

DivulgaçãoAmauri de Oliveira, advogado especialista em RJs no agro

Na avaliação de Oliveira, a atual onda de recuperações judiciais não nasceu de uma única safra ruim. Ela começou a ser construída ainda em 2021, quando muitos produtores deixaram de cumprir contratos futuros firmados antes da forte valorização da soja. Parte dessas obrigações foi carregada para os anos seguintes, justamente quando o cenário econômico mudou completamente.

“Não houve uma mudança de paradigma no insumo e preço. E juro alto, essa combinação, na verdade, é explosiva”, afirma.

Na sequência vieram a elevação da taxa Selic, o encarecimento do crédito, custos elevados de fertilizantes, defensivos e logística, além da queda nas cotações internacionais das commodities. Para Oliveira, o problema deixou de ser apenas agrícola e passou a exigir uma administração financeira muito mais sofisticada.

“Não é o valor do seu produto, mas quanto custa produzir”, diz o advogado. Segundo ele, o produtor precisará incorporar conhecimentos de finanças, gestão de risco e controle de custos para atravessar o novo ciclo do agronegócio.

Essa leitura converge com o diagnóstico do Imea. O estudo mostra que o principal desafio atualmente não é produzir mais, mas recuperar a rentabilidade. Mesmo com ganhos de produtividade, boa parte das propriedades passou a conviver com preços menores do que os registrados no pós-pandemia, custos ainda elevados e um estoque crescente de dívidas que deverá acompanhar as próximas safras.

Crédito mais caro e mais seletivo

Para Ingo Plöger, o agronegócio entrou em uma “tempestade perfeita”. Segundo ele, a redução das margens coincidiu com um ambiente de crédito muito mais caro. A maior parte dos produtores depende do mercado privado, diretamente influenciado pela Selic. “Muitos fizeram investimentos e se alavancaram. Sustentar essa alavancagem nessa taxa de juros pode até ser possível no curto prazo, mas no médio prazo é muito difícil”, afirma.

Na avaliação de Amauri de Oliveira, esse cenário também muda o comportamento dos financiadores. Tradings reduziram a exposição ao crédito rural, bancos passaram a ser mais rigorosos na análise das operações e novos investidores tendem a exigir estruturas financeiras mais sólidas antes de liberar recursos.

A consequência será um ambiente de financiamento mais seletivo para todo o setor. “A porta vai ficar menor ainda. As tradings já saíram, elas já têm menos disposição do que tinham antes. Os bancos também vão diminuir, ou seja, ser muito mais criteriosos na hora da análise de crédito.”

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