E se o Brasil ficasse um ano sem plantar soja, milho e algodão? E se os cafezais não fossem colhidos? E se a produção de proteína animal fosse suspensa? E se as usinas desligassem suas caldeiras e as laranjeiras ficassem intocadas? Quais seriam os efeitos geopolíticos, econômicos e ambientais?
Claro que isso é uma ficção, nem a pandemia parou o agro, mas vale refletir: o que aconteceria se a base que sustenta a segurança alimentar global simplesmente parasse?
Imagine o país em outubro, com a janela da safra aberta e milhões de hectares em silêncio. O Brasil contribui significativamente na segurança alimentar, levando alimento para 1 bilhão de pessoas. Ancora sua economia em grãos tropicais, energia renovável, frutas, carnes.
Ainda assim, o agro segue invisível para muitas esferas de poder. O impacto de uma paralisação seria imediato.
Soja, milho e algodão movimentam mais de R$ 650 bilhões por ano. O café, R$ 40 bi. A pecuária, R$ 430 bi. Açúcar e etanol somam R$ 140 bi.
O suco de laranja com o Brasil liderando quase 70% do mercado mundial é item essencial no café da manhã de milhões.
É mais de R$ 1 trilhão em apenas algumas cadeias. Sem elas, o PIB agro despenca, a balança comercial se desequilibra, o real se desvaloriza, a inflação explode.
Mato Grosso, Goiás, Paraná, Minas, Bahia, São Paulo e o Matopiba seriam os primeiros a sentir. Mas o impacto se espalharia por todo o país e pelo mundo.
O Brasil responde por mais de 50% da soja global, é o maior exportador de café, açúcar, suco de laranja e carne bovina, e um dos maiores em milho, frango, algodão e etanol de cana.
Tratar o agro como mera commodity é ignorar sua centralidade na segurança alimentar, na paz social e no combate à fome.
Sem o agro brasileiro:
- Fábricas de ração parariam na China, Europa e Oriente Médio, a produção global de carne, leite e ovos entraria em colapso.
- Cafeterias italianas e americanas perderiam seu café, a indústria têxtil asiática ficaria sem algodão, o suco de laranja sumiria do café da manhã global, o etanol desapareceria, elevando a pressão sobre combustíveis fósseis, a fome aumentaria.
A soja brasileira está em óleos, biscoitos, massas, sorvetes, cosméticos, rações, biodiesel e alimentos acessíveis. Não é “comida de boi”, é base alimentar e energética.
Se o agro parasse, toda a cadeia logística, armazenagem, indústria, transporte, exportação, entraria em colapso. Milhões de empregos desapareceriam.
A “força invisível” que abastece o planeta mostraria seu valor pela ausência. O abalo seria geopolítico. Petróleo causa guerra por bala. A falta de alimentos mata por fome.
Nenhum país substituiria o Brasil em volume, escala e qualidade. Talvez seja hora de reconhecer o agro como ele é: ativo estratégico, soberania nacional, pilar da segurança alimentar e ambiental do mundo.
Porque o agro não pode parar. Mas precisa ser ouvido, respeitado e incluído como aquilo que já é: a força por trás da mesa do mundo.
O Brasil exporta alimentos e energia para mais de 220 países. Veja nossa força, representatividade e importância
*Maressa R. Vilela Bettencourt é produtora Rural, conselheira do COSAG ( Conselho Superior do Agro da FIESP) e diretora de sustentabilidade da Sociedade Rural Brasileira.