A recuperação de áreas degradadas pela mineração de ouro no Cerrado mineiro ganhou novo impulso com uma pesquisa da Embrapa Cerrados (DF) em parceria com a mineradora Kinross Gold Corporation. O trabalho está sendo conduzido na mina Morro do Ouro, em Paracatu (MG), e tem como meta desenvolver um protocolo de revegetação que possa ser aplicado em barragens de rejeitos de mineração em outras regiões do País. O diagnóstico inicial apontou solos ácidos, compactados e com baixos níveis de fertilidade, matéria orgânica e atividade microbiológica, além da presença de metais tóxicos.
“São ambientes hostis à vida vegetal e a escolha das espécies certas é decisiva para o sucesso da revegetação”, explica a pesquisadora Leide Andrade, coordenadora do projeto. O convênio, firmado em 2023, prevê a criação de um protocolo técnico definitivo para a revegetação dos taludes e demais estruturas das barragens.
Para Gabriel Mendonça, gerente de Desenvolvimento Sustentável da Kinross, o trabalho conjunto com os pesquisadores da Embrapa é determinante. “A cooperação tem sido essencial para o planejamento e execução das ações de recuperação ambiental e poderá servir como referência para outras empresas do setor”, afirma.

A legislação exige que as mineradoras mantenham o solo coberto por vegetação, mas as próprias normas impõem limitações. As plantas não podem ter raízes profundas, que comprometam a estabilidade da estrutura, nem copas densas, que impeçam a vistoria e o monitoramento.
“Na agricultura, procuramos sempre produzir mais. Aqui, o objetivo é oposto: cobrir o solo e produzir o mínimo possível”, explica a pesquisadora Fabiana Aquino, integrante da equipe.
Experimentos em campo e adaptação de espécies
A mina Morro do Ouro opera a céu aberto e conta com duas barragens de rejeitos: Santo Antônio e Eustáquio. A de Santo Antônio, construída em 1987, possui cinco quilômetros de extensão e taludes que chegam a cem metros de altura. É nela que se concentram os experimentos da Embrapa, que envolvem diferentes combinações de espécies, adubação e práticas de manejo. “Nosso objetivo é estabelecer um protocolo de revegetação eficiente nessas condições, capaz de ser replicado em outros locais”, afirma Andrade.
O levantamento dos solos mostrou que algumas espécies utilizadas pela mineradora apresentavam baixa adaptação, resultando em cobertura irregular. Em alguns pontos, havia excesso de biomassa; em outros, a vegetação não conseguia se desenvolver. Com base nos resultados, a equipe reformulou o conjunto de sementes, excluindo gramíneas de clima temperado, como aveia-preta e azevém, e priorizando espécies adaptadas ao Cerrado, como estilosantes, braquiária humidicola e grama pensacola.

Foram incluídas também leguminosas com potencial de adaptação, como Mimosa somnians, nativa do Cerrado, e Alysicarpus vaginalis, cultivada na Austrália para produção de feno. “Essas espécies têm desempenho promissor e crescimento controlado, mas ainda não existe oferta comercial de sementes”, observa Andrade.
Da experiência anterior às lições de campo
O projeto é resultado de experiências anteriores da Embrapa com a mineradora Anglo American, em Goiás, iniciadas em 2006, voltadas à recuperação de áreas de extração de níquel. O pesquisador Eduardo Cyrino explica que cada tipo de mineração exige uma abordagem distinta, pois os solos apresentam composições e comportamentos diferentes.
Para Aquino, a experiência acumulada reforçou o valor de usar espécies locais. “Nos estudos em Goiás, aprendemos a trabalhar com a vegetação nativa, o que também está previsto neste projeto”, diz ele.
Durante os testes em Paracatu, os pesquisadores constataram que o milheto, tradicionalmente usado como planta de cobertura, prejudicava o desenvolvimento de outras espécies. Seu crescimento acelerado e a grande produção de massa vegetal bloquearam a luz e retardaram o estabelecimento de plantas de crescimento mais lento.
“Mesmo uma planta amplamente utilizada na agricultura pode ter efeito oposto em outro contexto”, diz a pesquisadora Marina Vilela. Após os ajustes, o estatístico Juaci Malaquias redesenhou o protocolo experimental, aprimorando o controle das variáveis ambientais e operacionais.
Ciência e sementes do Cerrado
Um dos entraves mais críticos para a revegetação é a escassez de sementes de espécies adaptadas às condições do Cerrado. Andrade ressalta que a restauração ambiental precisa ser desenvolvida com base no bioma em que ocorre. “Não adianta importar modelos de outros ecossistemas. A tecnologia precisa nascer aqui, nos nossos solos e com nossas espécies”, afirma.
Os resultados iniciais já indicam espécies capazes de se estabelecer mesmo em solos degradados, o que abre caminho para a criação de modelos de recuperação sustentáveis. “A mineração transforma o território, mas a forma como restauramos essas áreas também pode ser transformadora. Queremos criar soluções que respeitem a biodiversidade local”, afirma Andrade. (Com Embrapa Cerrados)