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Embrapa Transforma Barragens de Mineração de Ouro em Laboratório de Revegetação no Cerrado

Projeto em Paracatu (MG) com a Kinross Gold define modelo de recuperação ambiental baseado em espécies nativas e adaptadas ao bioma

5 min

A recuperação de áreas degradadas pela mineração de ouro no Cerrado mineiro ganhou novo impulso com uma pesquisa da Embrapa Cerrados (DF) em parceria com a mineradora Kinross Gold Corporation. O trabalho está sendo conduzido na mina Morro do Ouro, em Paracatu (MG), e tem como meta desenvolver um protocolo de revegetação que possa ser aplicado em barragens de rejeitos de mineração em outras regiões do País. O diagnóstico inicial apontou solos ácidos, compactados e com baixos níveis de fertilidade, matéria orgânica e atividade microbiológica, além da presença de metais tóxicos.

“São ambientes hostis à vida vegetal e a escolha das espécies certas é decisiva para o sucesso da revegetação”, explica a pesquisadora Leide Andrade, coordenadora do projeto. O convênio, firmado em 2023, prevê a criação de um protocolo técnico definitivo para a revegetação dos taludes e demais estruturas das barragens.

Para Gabriel Mendonça, gerente de Desenvolvimento Sustentável da Kinross, o trabalho conjunto com os pesquisadores da Embrapa é determinante. “A cooperação tem sido essencial para o planejamento e execução das ações de recuperação ambiental e poderá servir como referência para outras empresas do setor”, afirma.

Embrapa Transforma Barragens de Mineração de Ouro em Laboratório de Revegetação no Cerrado
EmbrapaEncosta de barragem em plena recuperação

A legislação exige que as mineradoras mantenham o solo coberto por vegetação, mas as próprias normas impõem limitações. As plantas não podem ter raízes profundas, que comprometam a estabilidade da estrutura, nem copas densas, que impeçam a vistoria e o monitoramento.

“Na agricultura, procuramos sempre produzir mais. Aqui, o objetivo é oposto: cobrir o solo e produzir o mínimo possível”, explica a pesquisadora Fabiana Aquino, integrante da equipe.

Experimentos em campo e adaptação de espécies

A mina Morro do Ouro opera a céu aberto e conta com duas barragens de rejeitos: Santo Antônio e Eustáquio. A de Santo Antônio, construída em 1987, possui cinco quilômetros de extensão e taludes que chegam a cem metros de altura. É nela que se concentram os experimentos da Embrapa, que envolvem diferentes combinações de espécies, adubação e práticas de manejo. “Nosso objetivo é estabelecer um protocolo de revegetação eficiente nessas condições, capaz de ser replicado em outros locais”, afirma Andrade.

O levantamento dos solos mostrou que algumas espécies utilizadas pela mineradora apresentavam baixa adaptação, resultando em cobertura irregular. Em alguns pontos, havia excesso de biomassa; em outros, a vegetação não conseguia se desenvolver. Com base nos resultados, a equipe reformulou o conjunto de sementes, excluindo gramíneas de clima temperado, como aveia-preta e azevém, e priorizando espécies adaptadas ao Cerrado, como estilosantes, braquiária humidicola e grama pensacola.

Embrapa Transforma Barragens de Mineração de Ouro em Laboratório de Revegetação no Cerrado
EmbrapaColeta de sementes para plantio

Foram incluídas também leguminosas com potencial de adaptação, como Mimosa somnians, nativa do Cerrado, e Alysicarpus vaginalis, cultivada na Austrália para produção de feno. “Essas espécies têm desempenho promissor e crescimento controlado, mas ainda não existe oferta comercial de sementes”, observa Andrade.

Da experiência anterior às lições de campo

O projeto é resultado de experiências anteriores da Embrapa com a mineradora Anglo American, em Goiás, iniciadas em 2006, voltadas à recuperação de áreas de extração de níquel. O pesquisador Eduardo Cyrino explica que cada tipo de mineração exige uma abordagem distinta, pois os solos apresentam composições e comportamentos diferentes.

Para Aquino, a experiência acumulada reforçou o valor de usar espécies locais. “Nos estudos em Goiás, aprendemos a trabalhar com a vegetação nativa, o que também está previsto neste projeto”, diz ele.

Durante os testes em Paracatu, os pesquisadores constataram que o milheto, tradicionalmente usado como planta de cobertura, prejudicava o desenvolvimento de outras espécies. Seu crescimento acelerado e a grande produção de massa vegetal bloquearam a luz e retardaram o estabelecimento de plantas de crescimento mais lento.

Mesmo uma planta amplamente utilizada na agricultura pode ter efeito oposto em outro contexto”, diz a pesquisadora Marina Vilela. Após os ajustes, o estatístico Juaci Malaquias redesenhou o protocolo experimental, aprimorando o controle das variáveis ambientais e operacionais.

Ciência e sementes do Cerrado

Um dos entraves mais críticos para a revegetação é a escassez de sementes de espécies adaptadas às condições do Cerrado. Andrade ressalta que a restauração ambiental precisa ser desenvolvida com base no bioma em que ocorre. “Não adianta importar modelos de outros ecossistemas. A tecnologia precisa nascer aqui, nos nossos solos e com nossas espécies”, afirma.

Os resultados iniciais já indicam espécies capazes de se estabelecer mesmo em solos degradados, o que abre caminho para a criação de modelos de recuperação sustentáveis. “A mineração transforma o território, mas a forma como restauramos essas áreas também pode ser transformadora. Queremos criar soluções que respeitem a biodiversidade local”, afirma Andrade. (Com Embrapa Cerrados)

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