O mercado brasileiro de cannabis está acelerado. Segundo o Anuário de Mercado: Growshops, Headshops e Marcas 2025, o setor deve movimentar R$ 967,18 milhões até o fim deste ano, o que representaria um crescimento de 11,2% sobre 2024. O ritmo supera a inflação e confirma o dinamismo econômico dessa cadeia.
O mais recente relatório do mercado no Brasil foi divulgado ontem (12) durante a terceira edição do Cannabis Business Hub, em São Paulo, organizado pelo ExpoCannabis, reforçando a ponte entre o empresariado e os investidores.
O estudo foi desenvolvido pela consultoria Kaya Mind, especializada em inteligência de mercado para o setor de cannabis, o qual combina dados históricos, pesquisa primária com 20 empresas líderes deste setor, além de análise de tendências macroeconômicas.
O agro se reinventa rumo à inovação
O Brasil exporta tabaco há mais de três décadas e mantém a liderança global, com US$ 2,97 bilhões em vendas externas em 2024. Essa base agrícola sólida agora serve de trampolim para acessar um mercado que vai além do cigarro, incorporando acessórios, sedas (tipo de papel fino, geralmente feito de fibras vegetais como cânhamo, bambu ou arroz, usado para enrolar tabaco ou outras ervas), tabacos artesanais e produtos ligados à cultura canábica.

A CEO da Kaya Mind, Maria Eugênia Riscala, lembra que essa transição é inevitável e estratégica.
“O setor não é só medicinal, nem só industrial ou recreativo. Ele é plural. E quando a gente fala em cannabis, precisa entender o ecossistema completo, desde a plantação ao investimento.”
O estudo da Kaya mostra que o tabaco para enrolar domina 65,2% do mercado (R$ 630,3 milhões), seguido por sedas com 34,8%, sendo R$ 138,4 milhões só de sedas voltadas ao consumo de cannabis.
É nesse segmento que está o maior potencial de expansão, impulsionado pela redução do estigma social e pelo crescimento de 56% no número de pacientes de cannabis medicinal em 2024, que já chegam a 672 mil brasileiros.
O impacto da cannabis medicinal e o novo apetite do investidor
O avanço da cannabis medicinal é o motor que empurra esse mercado para outro patamar. Segundo Riscala, o setor já movimenta R$ 850 milhões e pode alcançar R$ 9,5 bilhões com a ampliação do acesso, novos marcos regulatórios e maior inclusão no sistema público.
“Hoje, a cannabis já chegou a 85% dos municípios brasileiros. Isso mostra o tamanho da demanda reprimida e o quanto o País está preparado para dar o próximo passo”, explica Maria Eugênia.
Com a previsão de novo marco regulatório até março de 2026, o setor espera finalmente destravar gargalos jurídicos e atrair investidores institucionais. A decisão favorável do STJ ao cultivo de cânhamo e as novas normas da Anvisa, previstas para dezembro de 2025, devem consolidar o que executivos chamam de “fase de maturação regulatória”.
A Kaya estima que o mercado total de cannabis no Brasil, incluindo uso medicinal, adulto e cânhamo industrial, poderia movimentar até R$ 26 bilhões, com potencial de R$ 8 bilhões em arrecadação tributária.
Desse montante, o uso adulto representaria R$ 11,7 bilhões e o cânhamo industrial, R$ 4,5 bilhões. Só o cânhamo poderia gerar 226 mil novos empregos, segundo projeções da empresa.
“A estimativa é conservadora, baseada em dados brasileiros. O país tem uma mão de obra qualificada e uma estrutura agrícola capaz de absorver o cânhamo como commodity de valor agregado”, diz Riscala.
Um novo ecossistema econômico e cultural
Os números comprovam que o crescimento é real e vem acompanhado de uma mudança de mentalidade. Uma pesquisa com dados preliminares divulgada pelo Ministério da Saúde, a proporção de adultos fumantes nas capitais brasileiras saltou de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024, puxado pela busca por produtos personalizados e experiências de consumo diferenciadas.
As empresas estão se adaptando rapidamente. Metade das marcas entrevistadas pela Kaya Mind opera em modelo híbrido de negócios, combinando a venda para distribuidores e relacionamento direto com o consumidor. Essa estratégia digital, baseada em branding e lifestyle, ajuda o setor a driblar a censura em plataformas e a fidelizar públicos mais jovens.
“Quem trabalha com seda, filtro ou tabaco artesanal já está, direta ou indiretamente, dentro do ecossistema canábico. É um mercado que cresceu 11% sem nenhuma mudança regulatória. Isso é um sinal claro de força”, analisa Riscala.
A pesquisadora também destaca a entrada de novos perfis profissionais:
“Mais de 66% dos trabalhadores do setor têm menos de três anos de experiência. Isso mostra que há espaço para qualificação, formação e inovação empresarial.”
O cânhamo é a bola da vez de 2025
Entre as vertentes da cannabis, o cânhamo industrial desponta como a “menina dos olhos” do mercado. Com múltiplas aplicações, da proteína vegetal ao têxtil sustentável, o cânhamo entra em setores que já movimentam bilhões, como nutrição esportiva e moda ecológica.
“A proteína de cânhamo é deliciosa, e sua fibra é resistente e versátil. O mercado de suplementos e o têxtil sustentável vão puxar essa demanda”, diz Riscala, que vê na planta uma oportunidade agroindustrial singular.
O Brasil, com sua vocação agrícola, pode se tornar um hub de produção e exportação. A China ainda é a maior exportadora mundial de fibra de cânhamo, mas a competitividade agrícola brasileira e o apoio institucional de órgãos como Embrapa e Ministério da Agricultura podem mudar esse cenário rapidamente.
A nova fronteira verde do investimento para a cannabis
O crescimento anual de dois dígitos, a base agrícola consolidada, o apoio institucional e a expectativa de regulação formam um terreno fértil para alocação de capital em empresas ligadas ao ecossistema canábico, envolvendo até marcas de bem-estar e biotecnologia.
A recomendação da Kaya é apostar em portfólios diversificados, priorizar marcas que dialoguem com o novo consumidor consciente e acompanhar de perto o cenário regulatório.
“A cannabis está vindo para ser uma realidade social e econômica. O próximo passo é transformar evidência em política pública”, diz Riscala.
O Brasil, país do agro e da inovação, parece estar pronto para liderar essa nova fronteira verde, onde negócios, ciência e cultura se encontram num mesmo movimento de transformação. Clique aqui e confira este relatório na íntegra.