1. Início
  2. /
  3. Forbes Agro
  4. /
  5. Guerra da Comida: Reestruturação da Nutrição nos EUA Promete Batalhas Judiciais nos Próximos Meses
Forbes Agro

Guerra da Comida: Reestruturação da Nutrição nos EUA Promete Batalhas Judiciais nos Próximos Meses

Saiba por que as medidas tomadas pelo governo no início de janeiro, para serem implementadas até 2027, podem abrir um novo capítulo na história da alimentação

7 min

No início de janeiro, o governo dos Estados Unidos deu início a uma mudança estrutural em suas políticas de saúde pública que altera a rotina de milhões de cidadãos e a operação de corporações globais. O anúncio das novas diretrizes sobre nutrição para o período 2025–2030, realizado ao público no dia 8, em Washington, marca o abandono de modelos anteriores para o estabelecimento de uma pirâmide alimentar baseada em alimentos minimamente processados.

Sob a liderança de Robert F. Kennedy Jr. no Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) e Brooke Rollins no Departamento de Agricultura (USDA), a nova política estabelece o lema central: “Eat Real Food” (Coma Comida de Verdade). A implementação imediata em programas federais de alimentação escolar e assistência social pode trazer à tona um cenário de intensas batalhas judiciais nos próximos meses.

O HHS é um dos órgãos mais poderosos da administração federal, responsável por supervisionar agências como a Food and Drug Administration (FDA) e o Center for Disease Control and Prevention (CDC), principal agência de saúde pública dos EUA. Para o ano fiscal de 2026, a proposta orçamentária prevê gastos de US$ 94,7 bilhões. O secretário Kennedy Jr. descreveu o departamento como uma agência que movimenta US$ 1,7 trilhão por ano ao considerar os gastos totais obrigatórios, como os programas de saúde pública.

O Novo Paradigma Nutricional e a Pirâmide de 2026

A nova tabela nutricional inverte a lógica de consumo que prevaleceu no país desde a década de 1990.  Kennedy e Rollins apresentaram o guia como o “mais significativo reset da política nutricional federal em décadas”. A base da pirâmide agora recomenda o consumo prioritário de proteínas animais e gorduras naturais.

Guerra da Comida: Reestruturação da Nutrição nos EUA Promete Batalhas Judiciais nos Próximos Meses
Anna Moneymaker/GettyRobert F. Kennedy Jr., no anúncio das políticas no Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, em 8 de janeiro

O documento técnico estabelece uma meta de proteína entre 1,2g e 1,6g por quilo de peso corporal por dia — um aumento de até 100% em relação às recomendações mínimas anteriores. O guia inclui carnes vermelhas, ovos e laticínios integrais como fontes essenciais de nutrientes. Os carboidratos refinados e os grãos passaram para a parte estreita do guia, com recomendação de ingestão limitada.

A sustentação técnica do governo para essa mudança reside na contestação da “Hipótese Dieta-Coração”. Em boletim informativo do USDA, publicado no mesmo dia do anúncio, a agência argumenta que a ligação entre gordura saturada natural e doenças cardiovasculares não possui comprovação em ensaios clínicos de larga escala.

De acordo com os pareceres técnicos, gorduras como manteiga e sebo bovino apresentam neutralidade na mortalidade cardiovascular. A estratégia do HHS prioriza a densidade nutricional e a biodisponibilidade de nutrientes como vitamina B12 e zinco, abundantes em produtos de origem animal. Simultaneamente, as diretrizes desincentivam o uso de óleos vegetais industriais, como soja e canola, associando o ácido linoleico à inflamação sistêmica.

É o controle glicêmico que substitui a contagem de calorias como indicador principal de saúde. O governo sustenta que proteínas e gorduras promovem maior saciedade e ajudam na estabilização da insulina. O açúcar adicionado passou a ter recomendação zero para crianças, enquanto o documento limita qualquer refeição a no máximo 10 gramas de açúcar adicionado. Essa abordagem administrativa ignora relatórios de comitês científicos anteriores, sob a alegação oficial de que tais pareceres apresentavam conflitos de interesse com fabricantes de alimentos processados.

Disputas com Organizações de Saúde e Resistência Técnica

A aprovação da nova pirâmide gerou reações imediatas entre as principais organizações de saúde. Em nota oficial emitida no dia 9 de janeiro, a American Heart Association (AHA) manifestou resistência técnica ao modelo. Embora a AHA tenha elogiado a restrição aos açúcares, a organização alertou que o incentivo ao consumo de gorduras saturadas animais contraria o consenso científico sobre riscos cardiovasculares crônicos. A Academy of Nutrition and Dietetics (AND) também registrou preocupação com a ênfase em laticínios integrais, afirmando que a diretriz pode prejudicar populações com intolerância à lactose.

Guerra da Comida: Reestruturação da Nutrição nos EUA Promete Batalhas Judiciais nos Próximos Meses
Brooke Rollins na sede do HHS, em Washington, no dia 8 de janeiro

Pesquisadores da Harvard T.H. Chan School of Public Health publicaram uma análise, também  no dia 9, na qual classificam as metas de proteína como “exageradas”. A instituição argumenta que o foco em fontes animais ignora os impactos ambientais da produção pecuária intensiva e as necessidades de fibras vegetais. Kennedy rebateu essas críticas em pronunciamento no HHS quatro dias depois, afirmando que “as famílias americanas precisam priorizar alimentos densos em nutrientes para reverter a emergência nacional de doenças crônicas”.

Em contrapartida, o Environmental Working Group (EWG) celebrou a nova política. A ONG destaca a decisão do governo de “declarar guerra” aos corantes artificiais derivados de petróleo e aos aditivos químicos. Para o EWG, a diretriz protege a saúde pública ao retirar o apoio governamental a produtos com conservantes sintéticos. O debate pós-janeiro em andamento mostra uma polarização entre a visão metabólica defendida pela atual gestão do HHS e a visão epidemiológica tradicional das grandes associações médicas.

Agenda de Implementação e Perspectivas Judiciais

A agenda de implementação das novas diretrizes tem um cronograma acelerado. A primeira etapa ocorreu com a ativação do portal RealFood.gov e a publicação do “Fact Sheet: Trump Administration Resets U.S. Nutrition Policy”. A fase atual abrange a reformulação dos cardápios do National School Lunch Program, que atende cerca de 30 milhões de crianças.

USDA_DivulgNova tabela alimentar dos EUA

O objetivo é substituir itens como cereais matinais açucarados e leites desnatados com açúcar por refeições compostas por proteínas, gorduras naturais e vegetais frescos. O governo estima que a transição completa dos padrões de merenda escolar ocorra até 2027.

O governo planeja estender as restrições ao Programa de Assistência Nutricional Suplementar (SNAP). A proposta visa impedir que créditos federais financiem a compra de alimentos ultraprocessados. Essa movimentação projeta o início de grandes batalhas judiciais.

Documentos jurídicos de consultorias como Wiley Rein, datados de 5 de janeiro, já indicavam que a indústria de alimentos preparava processos contra o USDA. O argumento das corporações é que o governo excedeu sua autoridade administrativa ao ignorar evidências científicas estabelecidas para favorecer uma agenda política.

O cenário futuro aponta para uma disputa no Congresso e nos tribunais federais que devem recebem muitas liminares judiciais no próximo trimestre. Lobistas da indústria de óleos de soja e cereais atuam para bloquear as mudanças no orçamento de 2026, alegando aumento nos custos de produção. O governo declarou que está preparado para defender as diretrizes com base na redução de gastos de longo prazo com o sistema de saúde, que hoje consome quase 90% do orçamento para tratar doenças crônicas.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.