1. Início
  2. /
  3. Forbes Agro
  4. /
  5. As Pragas Invisíveis: Os Inimigos Ocultos que Ameaçam Seu Pão de Cada Dia
Forbes Agro

As Pragas Invisíveis: Os Inimigos Ocultos que Ameaçam Seu Pão de Cada Dia

Produtores travam uma guerra silenciosa contra criaturas que a maioria dos brasileiros nunca ouviu falar. Você já ouviu sobre elas?

9 min

Enquanto você compra milho e soja no supermercado, produtores travam uma guerra silenciosa contra criaturas que a maioria dos brasileiros nunca ouviu falar. Você já ouviu sobre elas?

Quando você passa pelo corredor do supermercado e pega um pacote de fubá, uma lata de óleo de soja ou um frango congelado (alimentado com milho e farelo de soja), provavelmente não imagina a batalha épica travada no campo para que aqueles produtos cheguem até sua mesa.

Enquanto a safra brasileira de soja 2025/26 caminha para um novo recorde de 180 milhões de toneladas, e o milho safrinha bate números históricos, existe um exército invisível de pragas que pode destruir tudo isso em questão de semanas.

Não estamos falando das pragas “famosas” que todo mundo conhece de nome, como gafanhotos ou formigas. Estamos falando de criaturas bizarras, microscópicas e subterrâneas que para o consumidor urbano são completamente desconhecidas, mas que tiram o sono de milhares de produtores rurais em todo o Brasil.

Não por acaso o país lidera uma revolução dos bioinsumos, um exército de joaninhas, fungos, bactérias e afins, que hoje ajudam, ou mesmo resolvem sozinhos, a guerra contra as pragas. O Brasil consolidou-se como líder mundial na tecnologia que usa inimigos naturais e benéficos. O segredo? Um grande banco com mais de 30 mil acessos de microorganismos e biodiversidade tropical única: 64% dos produtores utilizaram biofertilizantes e 61% biodefensivos em 2024, índices que já superam em dobro os europeus.

O Inseto-Vampiro que Vive 1,80 Metro Debaixo da Terra

As Pragas Invisíveis: Os Inimigos Ocultos que Ameaçam Seu Pão de Cada Dia
EmbrapaO percevejo-castanho-da-raiz (Scaptocoris castanea)

Você sabia que existe um percevejo que vive quase dois metros abaixo do solo, sugando as raízes das plantas de soja e milho? O percevejo-castanho-da-raiz (Scaptocoris castanea) é um dos vilões mais insidiosos do agronegócio brasileiro.

Este inseto é praticamente invisível, um inseto polífago de hábito subterrâneo que suga continuamente a seiva nas raízes, segundo a Embrapa. Mas há uma forma de saber se ele está presente: a presença do percevejo-castanho é facilmente reconhecida pelo forte cheiro que este inseto exala quando o solo é movimentado.

O que torna essa praga aterrorizante? Estes insetos são encontrados em maior número entre 20 a 40 cm de profundidade, sendo também encontrados adultos realizando cópula até 1,80 m de profundidade. Imagine: enquanto você está dormindo, milhões desses insetos estão se reproduzindo quase dois metros abaixo das lavouras.

O resultado? Já foram registrados casos de perdas de até 100% em pastagens no Mato Grosso do Sul, por exemplo. Lavouras inteiras podem ser dizimadas, e muitos produtores nem percebem até ser tarde demais.

O Percevejo-Barriga-Verde: O Hitchcock das Lavouras

EmbrapaO percevejo-barriga-verde (Diceraeus melacanthus e D. furcatus)

Agora imagine um percevejo que tem o hábito de se esconder na palhada (restos de plantas anteriores) e atacar as plantinhas jovens de milho logo após a soja. O percevejo-barriga-verde (Diceraeus melacanthus e D. furcatus) é uma das pragas que mais tem preocupado os produtores nos últimos anos.

Ataca principalmente no início da cultura do milho safrinha, que geralmente sucede a lavoura de soja, e tem hábito de se esconder na palhada, aliado à resistência a alguns produtos químicos.

Por que está aumentando? A adoção do plantio direto, falhas na dessecação, sucessão soja-milho e o uso de tecnologias Bt reduziram pulverizações contra lagartas, favorecendo a sobrevivência do percevejo. Ou seja, práticas agrícolas modernas, que são benéficas em vários aspectos, acabaram criando um ambiente perfeito para esse inseto proliferar.

A Lagarta-Elasmo: Assassina Serial de Plântulas

EmbrapaA lagarta-elasmo (Elasmopalpus lignosellus)

A lagarta-elasmo (Elasmopalpus lignosellus), também conhecida como broca-do-colo, é uma praga que ataca plantas logo após a germinação.

Para quem mora na cidade, isso pode parecer pouca coisa. Mas no campo, é uma sentença de morte. Após a eclosão dos ovos, as pequenas lagartas podem penetrar no talo das plântula (como são chamadas as plantas jovens) para a alimentação, obstruindo os vasos responsáveis pelo transporte de água e nutrientes, causando murcha e morte na lavoura.

O resultado? A plântula morre antes mesmo de ter chance de crescer. E o pior: uma mesma lagarta-elasmo pode atacar até quatro plântulas de soja durante seu estádio larval. É como se fosse uma assassina serial em miniatura, matando uma plantinha após a outra. Os danos são mais severos em condições de alta temperatura e déficit hídrico, exatamente as condições que estão se tornando mais comuns com as mudanças climáticas.

Cigarrinha-do-Milho: O Mosquito da Dengue do Agro

EmbrapaA cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis)

Se você acha que só humanos sofrem com mosquitos transmissores de doenças, saiba que as plantas também têm seus vetores mortais. A cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis) é um inseto minúsculo, menor que um grão de arroz, mas capaz de devastar lavouras inteiras.

Ela não causa grandes danos diretos. O problema é que o inseto é o transmissor de três importantes doenças dos milharais: enfezamento pálido, enfezamento vermelho e risca do milho, segundo a Embrapa.

Quanto isso custa? Os enfezamentos pálido e vermelho do milho são doenças que podem provocar perdas de mais de 70% na produtividade das lavouras.

E não existe cura. São doenças sistêmicas, altamente destrutivas, que se desenvolvem a partir da infecção da plântula de milho pelo molicute, e apenas na fase de produção podem ser reconhecidos os sintomas e os danos que causam.

Quando os sintomas aparecem, como folhas amareladas, plantas raquíticas, espigas deformadas, já é tarde demais. A planta está condenada. Cada fêmea é capaz de depositar cerca de 14 ovos por dia, passando da marca de 600 ovos postos durante todo seu ciclo Embrapa. É uma máquina de reprodução que, se não for controlada no início, pode explodir em população e infectar a lavoura inteira.

Os Corós: Larvas Gigantes que Devoram Raízes

EmbrapaOs corós ou bicho-bolo, são larvas de besouros

Você já viu aquelas larvas brancas, gordas e recurvadas em formato de “C” quando revolve a terra do jardim? Esses são os corós ou bicho-bolo, as larvas de besouros que, no campo, são verdadeiros monstros subterrâneos.

Também denominados pão-de-galinha, podem atacar as raízes de plantas cultivadas, informa a Embrapa. E o potencial de destruição é assustador: em condições de alta infestação de corós no solo, pode ocorrer até 100% de perda da lavoura, especialmente quando a presença de larvas mais desenvolvidas coincide com a fase inicial de desenvolvimento das plantas.

Imagine milhares dessas larvas de até 4 cm de comprimento vivendo em túneis no solo, comendo raízes sem parar. As plantas murcham, tombam e morrem, e muitas vezes o produtor nem sabe por quê, já que o inimigo está completamente escondido debaixo da terra.

Mosca-Branca: Pequena no Tamanho, Gigante no Estrago

EmbrapaA mosca-branca (Bemisia tabaci)

A mosca-branca (Bemisia tabaci) é um inseto tão pequeno que mal dá para ver a olho nu. Mas não se deixe enganar pelo tamanho: a mosca-branca pode ser vetor de vírus como o da necrose da haste na soja.

Além dos danos diretos de sugar a seiva, ao se alimentar continuamente, a mosca-branca excreta nas folhas uma substância que favorece a formação de fumagina, causada pelo fungo Capnodium sp. sobre as folhas.

A fumagina é uma camada preta que cobre as folhas, dificultando a fotossíntese e, literalmente, sufocando a planta. E o controle? Uma única aplicação de inseticidas específicos para mosca-branca pode custar entre uma e duas sacas de soja por hectare. Em uma fazenda grande, isso representa dezenas de milhares de reais apenas para tentar controlar um inseto de 1 milímetro.

Helicoverpa armigera: A Lagarta que Come de Tudo

EmbrapaA Helicoverpa armigera é uma praga polífaga

Se existe uma lagarta que é o pesadelo de qualquer agricultor, é a Helicoverpa armigera. É uma praga polífaga, o que significa que se alimenta de diversas culturas, incluindo soja, milho, algodão, feijão, café e citros. Ela não tem preferências, comendo folhas, flores, frutos, vagens. Tudo.

A Spodoptera frugiperda, também conhecida como lagarta-do-cartucho, é uma das pragas mais severas do agro brasileiro, com perdas que podem ultrapassar R$ 10 bilhões por ano. Para ter uma ideia, isso é mais do que o PIB de várias cidades brasileiras. E muitos consumidores urbanos nunca ouviram falar dessas lagartas.

A Ponte Verde: Como o Sistema Criou um Paraíso para Pragas

Você deve estar se perguntando: por que essas pragas estão se tornando tão problemáticas agora? A resposta está no que os especialistas chamam de “ponte verde”, no que a ciência hoje procura respostas para que a produtividade atual se mantenha em alta. Cultivos sucessivos de soja e milho, por exemplo, têm favorecido a ocorrência de pragas no Brasil, por conta da oferta constante de alimento nas lavouras. Mas não é somente isso.

Antigamente, havia uma entressafra, um período sem cultivo, quando muitas pragas morriam de fome. Hoje, com o sistema de sucessão soja-milho (planta-se soja no verão e milho na sequência, no mesmo ano), as pragas sempre têm mais comida disponível. E o Brasil está indo além com algumas regiões aptas a uma terceira safra na mesma área, por ano. É como se você deixasse o restaurante aberto 24 horas por dia, 365 dias por ano e é claro que os “clientes indesejados” vão aparecer cada vez mais.

Por Que Você Deveria se Importar?

Você pode estar pensando: “Ok, mas eu moro na cidade. Por que isso me afeta?” Simples: milho e soja estão em quase tudo que você come. Óleo de soja, pão, bolo, biscoitos, maionese, margarina – todos contêm soja. O frango que você come foi alimentado com milho e farelo de soja. A carne bovina também. O leite que você bebe vem de vacas que comem ração feita de soja e milho.

Se essas pragas não forem controladas, a produção cai. Se a produção cai, os preços sobem. E quem paga a conta, no final das contas, é o consumidor no supermercado. Literalmente, essas pragas invisíveis estão entre você e sua comida.

Agora você sabe: da próxima vez que for ao supermercado, lembre-se de que aqueles grãos que parecem tão simples de serem cultivados sobreviveram a uma guerra silenciosa travada por agricultores contra inimigos que a maioria dos brasileiros nunca ouviu falar.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.