Vivemos em um ecossistema totalmente interconectado. O planeta tem a proporção de 1/3 de terra e 2/3 de oceanos, e o agronegócio não existe apenas pelas influências terrestres, mas em uma profunda interdependência entre as partes continentais e oceânicas. Ambas são dinamizadoras das mudanças climáticas e vinculadas a este mesmo sistema vivo.
O Brasil possui uma das maiores fronteiras marítimas do planeta: 8.500 km de costa e uma Zona Econômica Exclusiva (ZEE) de 5,7 milhões de km². A chamada “Amazônia Azul” representa uma biocompetitividade que vai além da área terrestre.
Não estamos falando apenas de economia pesqueira artesanal, transporte marítimo ou turismo; trata-se de uma infraestrutura estratégica global que movimenta cadeias de suprimentos complexas.
Se fosse um país, essa região representaria a sexta maior economia do mundo, englobando a extração de petróleo offshore, defesa e projetos que servem como a principal bateria de energia limpa para a reindustrialização verde.
É a nova fronteira para insumos farmacêuticos, cosméticos e fertilizantes biológicos, além de portos que operam como hubs de inovação para automação e uso de diesel verde.
Regulação climática e os rios voadores
Os oceanos são os maiores formadores de nuvens do planeta e a fonte primária do vapor d’água que alimenta as chuvas. As florestas tropicais, por sua vez, amplificam esse ciclo por meio dos chamados “rios voadores”.
Nessa codependência, o agronegócio é diretamente influenciado pela saúde dos oceanos, que são os maiores reguladores do clima global.
O IPCC confirma: os oceanos absorvem cerca de 90% do excesso de calor gerado pelas emissões de gases de efeito estufa e capturam aproximadamente 1/3 do CO2 produzido pela atividade humana. Essa regulação é fundamental para manter os padrões de chuva, temperatura e umidade dos quais a agricultura é totalmente dependente.
Sinergia entre o Verde e o Azul
Afirmar que o “agro também é azul” é reconhecer que a sustentabilidade do planeta e a segurança alimentar da humanidade dependem da gestão integrada da terra e dos mares.
O futuro da alimentação não será apenas verde ou azul, mas sim um mosaico de sistemas produtivos inteligentes e circulares que aproveitam o melhor de ambos os mundos.
A dimensão econômica desta integração é expressiva. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entre 1995 e 2020, a economia do mar dobrou de tamanho, alcançando US$ 22,6 trilhões, gerando 133 milhões de empregos, fornecendo alimento para 3 bilhões de pessoas e transportando 80% das mercadorias comercializadas no mundo.
Hidrografia e inovação energética
A Economia Azul não se restringe aos mares; abrange rios, lagoas, aquíferos e os ciclos hidrológicos que conectam oceanos a continentes. O Brasil, com sua extraordinária extensão de biomas tropicais e subtropicais, possui um poder fotossintético singular — resultado direto dessa sinergia.
Na matriz energética limpa, essa conexão abre fronteiras de inovação: biocombustíveis de microalgas, biomassa marinha, parques eólicos offshore e tecnologias de dessalinização — que países como Israel e algumas nações árabes já utilizam para transformar desertos em territórios produtivos.
A aquicultura (criação de peixes, moluscos e crustáceos) é hoje a forma de produção de proteína animal que mais cresce no mundo.
O oceano no centro das decisões globais
Na COP30, o oceano foi tema focal nas negociações climáticas, reforçando o compromisso com a meta de preservar 30% dos mares até 2030. Reconheceu-se a urgência de tratar as emissões de carbono, a perda de biodiversidade e a poluição plástica como questões integradas à segurança alimentar.
O Instituto Oceanográfico da USP reforça que a Economia Azul, do ponto de vista ambiental, é fundamental para a sustentabilidade. O desafio central é reconciliar descarbonização com crescimento. Atualmente, este segmento representa 2,9% do PIB brasileiro, com potencial de chegar a 6,5% e gerar 5 milhões de empregos.
Neste ambiente conectado, equilibrar o potencial econômico e o meio ambiente preserva a própria base da agricultura. Não se trata de produzir mais, mas de produzir de forma integrada, circular e consciente de que o campo e o mar compartilham o mesmo futuro.
Perspectivas da Economia Azul Mundial
A OCDE, em sua Pesquisa Global 2025, “A economia azul nas cidades e regiões”, revela um movimento claro de reorganização estratégica global. Os países passam a tratar a economia azul não apenas como agenda ambiental, mas como vetor estruturante de competitividade, inovação e inserção internacional.
A geração de empregos e o crescimento econômico aparecem como os principais impulsionadores, evidenciando o potencial dessa área como alavanca de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, a preservação ambiental deixa de ser periférica para se tornar condição estrutural.
A mudança climática é apontada como a principal ameaça — com destaque para a elevação do nível do mar —, enquanto a geração de resíduos se consolida como o maior impacto ambiental.
Desafios de governança e financiamento
O estudo expõe uma lacuna crítica entre ambição e execução: apenas 10% das cidades e regiões possuem estratégias formais para a economia azul.
A limitação de recursos financeiros é apontada por 80% dos respondentes como o principal entrave, enquanto o financiamento permanece concentrado em fontes públicas. Instrumentos inovadores, como créditos de carbono azul, ainda representam apenas 3% das iniciativas, evidenciando espaço para maior sofisticação financeira e mobilização de capital.
A oportunidade soberana do Brasil
A interdependência dos ecossistemas — oceanos, clima e agronegócio — diante dos desafios climáticos e da crescente demanda global por alimentos e energia torna-se cada vez mais evidente. Esta é a nova fronteira do agronegócio contemporâneo.
A integração com uma Economia Azul sustentável abre um leque extraordinário de oportunidades para inovação e resiliência ambiental.
O Brasil detém importantes ativos geopolíticos e pode liderar uma agenda de protagonismo internacional. Mais do que preservar recursos, trata-se de definir um novo modelo de desenvolvimento sustentável para o século 21, superando o desafio de integrar a governança e o financiamento entre setores que, historicamente, foram tratados de forma isolada.
*Nina Plöger é presidente do Forbes Mulher Agro (FMA) e empresária do setor de reflorestamento, e cultiva café sustentável. É formada em administração e pós-graduada em economia e em governança e compliance. Integra o Comitê Sustentabilidade da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), é membro do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag) da Fiesp; do Conselho Empresarial da América Latina (CEAL) e do Movimento Empresarial pela Inovação (MEI), da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
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