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Ele Percebeu uma Lacuna na Legislação sobre Cannabis e Criou uma Empresa do Zero

Conheça a história de Santiago Navratil, o uruguaio que montou um banco genético da planta, a Genetics Biobanking

6 min

Quando o Uruguai se tornou pioneiro mundial ao regular a cannabis, o mundo observou com atenção. Chegaram investimentos, mega projetos foram anunciados e se consolidou a ideia de que o país poderia se transformar em um hub regional. Dez anos depois, o balanço é mais modesto, com um marco normativo que ainda é atrativo, mas que não foi acompanhado pelo desenvolvimento industrial. É nesse espaço, entre a lei e o mercado, que Santiago Navratil decidiu construir sua empresa.

Navratil não vem do agro nem do mundo científico tradicional. Estudou Comércio Exterior e passou boa parte de sua carreira corporativa como gerente de Tecnologia em uma empresa sul-americana, negociando contratos em áreas como segurança da informação e desenvolvimento de aplicações. Esse percurso, distante do laboratório, lhe deu uma compreensão profunda de como funcionam as organizações, os marcos regulatórios e as relações contratuais complexas.

O ponto de virada chegou em 2014, com a aprovação da lei da cannabis no Uruguai. Enquanto o debate público se concentrava no uso adulto, Navratil enxergou uma oportunidade diferente no potencial médico e científico da planta. Deixou o trabalho, começou a estudar biotecnologia e passou a explorar um setor que, segundo seu diagnóstico, avançava rápido no plano normativo, mas lentamente no produtivo.

O problema que ninguém olhava

Durante anos, o ecossistema canábico uruguaio funcionou com uma contradição estrutural. As empresas medicinais precisavam de genéticas estáveis, rastreáveis e legais para produzir, mas não existia um mecanismo normativo que permitisse a comercialização de material de propagação. O resultado foi um sistema informal, sustentado por doações de clubes ou por genéticas que entravam no país sem rastreabilidade definida.

“O Uruguai tinha regras muito claras, mas faltava o sistema operacional”, resume Navratil em conversa com a Forbes Uruguai.

Na prática, isso significou investimentos milionários que não prosperaram, modelos de negócio mal estruturados e mercados saturados antes de amadurecer. Para ele, o problema não era a falta de demanda global, mas a ausência de informação confiável e de articulação entre as partes.

Assim nasceu a Genetics Biobanking, uma empresa que, embora opere dentro do ecossistema da cannabis, se define de outra forma, já que não vende flores nem óleos, mas dados.

Uma empresa de cannabis que não vende cannabis

A Genetics Biobanking é, essencialmente, um banco genético. Seu produto não é a planta final, mas a informação genética que permite replicá-la de forma padronizada, segura e legal. Sementes, clones e cultivos funcionam como o suporte físico de um ativo muito mais valioso: genéticas estabilizadas, registradas e rastreáveis.

A empresa foi a primeira a obter uma licença do Instituto de Regulação e Controle da Cannabis (IRCCA) que autoriza a comercialização legal de material de propagação, uma figura que até então não existia no Uruguai. Para consegui-la, foram quase três anos de trabalho prévio, reunindo genéticas, contatando geneticistas no Uruguai, Argentina e Estados Unidos, projetando um edifício específico para a atividade e apresentando um projeto executivo sem precedentes regulatórios.

Hoje, segundo explica seu fundador, a Genetics concentra cerca de três quartos dos registros genéticos do país. Antes de sua chegada, o Uruguai tinha apenas dez genéticas registradas. Atualmente são cinquenta, sendo quarenta incorporadas no último ano. A empresa mantém ativas 15 variedades, voltadas tanto ao segmento de uso adulto quanto ao de Life Science.

Escala, rastreabilidade e diferenciação

O diferencial da Genetics está no registro, mas também no processo. A empresa controla toda a cadeia produtiva e adicionou uma camada de rastreabilidade molecular vinculada ao DNA de cada planta. Isso permite garantir que um determinado clone tenha o perfil de fitocanabinoides prometido, atenda aos requisitos sanitários internacionais e apresente desempenho produtivo consistente.

A escala também cria distância. Enquanto outros viveiros operam com volumes reduzidos, a Genetics pode produzir até 4.000 clones por mês. Opera a partir de El Pinar, na Ciudad de la Costa, com um investimento inicial próximo de US$ 600.000 (R$ 3 milhões na cotação atual) em infraestrutura e uma equipe que varia entre 10 e 20 pessoas, conforme o nível de atividade.

Seu posicionamento não está em competir por preço, mas por qualidade. Isso permitiu o acesso ao segmento medicinal, o mais exigente e também o mais atrativo em termos de contratos de longo prazo.

Brasil, o próximo salto

Embora o Uruguai seja a base operacional, o crescimento está planejado para fora. A Genetics trabalha em sua primeira exportação de material de propagação para o Brasil, em projetos de pesquisa aplicada em oncologia pediátrica. Para Navratil, o mercado brasileiro é “continental” e representa o verdadeiro ponto de inflexão.

Sua analogia é que as plantas são como um pendrive. O que se vende é a informação genética. Um clone desenvolvido no Uruguai pode ser multiplicado milhares de vezes no Brasil e dar origem a produções em larga escala. Nesse modelo, o Uruguai funciona como laboratório, como software.

Visão de longo prazo

Além do próprio negócio, Navratil impulsiona uma ambição maior: posicionar o país como um hub genético regional. Em conjunto com organismos públicos e privados, trabalha na ideia de criar uma denominação de origem para a cannabis uruguaia, baseada nas condições climáticas e ambientais locais, algo comum em setores como o vinho, mas inédito nesse mercado. Uma espécie de cannabis com selo uruguaio.

“A cannabis tem uma relação direta com o lugar onde se desenvolve. Reconhecer isso é agregar valor”, afirma.

Até agora, o projeto foi financiado integralmente com recursos próprios. Atualmente, a Genetics mantém conversas avançadas com um fundo de investimento, impulsionadas pelo novo cenário regulatório internacional e, em especial, pela reclassificação da cannabis nos Estados Unidos.

Enquanto isso, Navratil segue focado em organizar um mercado que nasceu desalinhado. “Tirar a cannabis da zona cinzenta é uma questão legal e também o que permite que o ecossistema evolua”, conclui.

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