Aos 28 anos, o engenheiro civil e analista de sistemas Ricardo Augusto Lima Rodrigues Filho estruturou a Rural Time para uma aposta na qual ele acredita e não é de hoje: a agroturismo. Rodrigues Filho criou uma plataforma digital que conecta propriedades rurais e artesãos ao público urbano interessado em experiências no campo. Criado em 2025, o projeto iniciou as operações com 20 propriedades no Distrito Federal, Maranhão, Minas Gerais e São Paulo e encerra o ano com 40 atrativos cadastrados, distribuídos em 14 cidades, além de 13 artesãos integrados.
“A Rural Time é uma vitrine para o produtor rural e para o artesão divulgarem seus atrativos para o Brasil inteiro, sem intermediários”, afirma Rodrigues Filho.
Na mais recente lista Forbes Under 30, que pode ser conferida na Revista Forbes, que mostra talentos em vários setores da economia que tenha até 30 anos de idade, ele é um dos destaques do grupo agro.
Uma pesquisa da FecomercioSP (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo), baseada nos dados do IBGE, estimou que o setor de turismo no Brasil movimentou em 2024 um montante da ordem de R$ 207 bilhões. Os dados foram anunciados no ano passado. Para World Travel & Tourism Council (Conselho Mundial de Viagens e Turismo), considerando o receptivo estrangeiro, o movimento no mesmo ano US$ 169,3 bilhões.
Mas, ao contrário de países como Itália ou EUA, o Brasil ainda não tem um levantamento econômico consolidado e recorrente específico para o agroturismo. Alguns dados existentes são fragmentados por estado ou levantamentos de comportamento do consumidor. A nova Lei Geral do Turismo, de novembro de 2024, tende a mudar esse quadro nos próximos anos com a formalização via Cadastur. O marco regulatório permite o acesso a linhas de crédito, cursos de qualificação e maior visibilidade, sem que o empreendedor perca sua condição de agricultor.
Agroturismo em formação, desde a escola
Natural de Bragança Paulista, no interior paulista, Rodrigues Filho cresceu em um rancho de cavalos localizado dentro da área urbana do município. O contato com o ambiente rural antecedeu a formação acadêmica. Ele ingressou na universidade aos 17 anos, com bolsa integral, e concluiu Engenharia Civil em 2019. Também cursou Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Logística e Ciências Contábeis.
Durante a graduação, participou de projetos de planejamento urbano e inventário turístico em municípios da região bragantina, como Piracaia e Monteiro Lobato. Ele também conta que a academia também inclui a professora e instrutora do Senar Daisy da Maria Rosa Batista, na colaborou na estruturação de catálogos turísticos e no mapeamento de propriedades com potencial de visitação. O diagnóstico recorrente apontava baixa visibilidade digital e dependência de divulgação informal, que é um dos principais entraves e desafios do agroturismo.
Foi em 2022 que sua vivência no setor deu um salto de qualidade, rumo ao que Rodrigues Filho se tornou. Naquele ano, ele passou a atuar como instrutor do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural, o Senar, ministrando cursos de inclusão digital no campo. Desde então, realizou mais de 30 turmas em propriedades rurais, com aulas práticas sobre uso de computadores, planilhas de gestão, organização de custos e estratégias de comercialização online. Também assumiu capacitações em vendas digitais e responsabilidade social rural, com orientação sobre práticas ambientais, sociais e de governança. O agroturismo na veia começava a pulsar mais forte.
A convivência com produtores mostrou a ele a necessidade de ampliar canais diretos de comercialização. Que é um dos elementos centrais do agroturismo: levar renda ao produtor rural. “O turismo rural ainda depende muito do boca a boca. O produtor recebe, mas não tem alcance nacional. A plataforma organiza essa oferta e permite contato direto com o visitante”, diz.
A Rural Time foi estruturada no contexto do programa CNA Jovem 2025 – Jovens Líderes do Agro, promovido pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil e pelo Senar. O tema da edição foi turismo rural. A proposta apresentada por Rodrigues Filho venceu a etapa nacional e passou a receber apoio para modelagem do negócio.
O cadastro na plataforma é voluntário e gratuito. Há verificação para confirmar se o empreendimento está vinculado ao meio rural. O agendamento ocorre diretamente entre produtor e visitante, sem intermediação financeira da empresa neste primeiro momento. No primeiro ano de operação, o site ultrapassou 10 mil acessos orgânicos e passou a aparecer entre os primeiros resultados de busca para termos relacionados a turismo rural em municípios participantes.
As experiências ofertadas no agroturismo incluem colhe e pague, cafés rurais, almoços temáticos, trilhas, passeios a cavalo e vivências pedagógicas. A inclusão de artesãos agrega uma dimensão cultural ao projeto. Dos 13 cadastrados, parte atua com alimentos processados artesanalmente e parte com produtos de identidade regional.
De acordo com dados do IBGE, o setor de serviços representa parcela relevante do PIB municipal em cidades de pequeno porte, enquanto a CNA aponta o turismo rural como alternativa de diversificação de renda. Em paralelo, relatórios da Conab indicam variações frequentes nos preços agrícolas, o que reforça a busca por fontes complementares de receita nas propriedades.
“Quando o produtor amplia a renda com turismo, ele reduz a dependência exclusiva da safra e tende a permanecer na atividade”, afirma Rodrigues Filho.
A expansão da Rural Time envolve parcerias institucionais. Prefeituras e sindicatos rurais procuraram a empresa ao longo do ano. O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas mantém diálogo para possível inserção da startup em programas de desenvolvimento do agroturismo. Um projeto de extensão universitária está em estruturação com a meta de cadastrar mil propriedades em âmbito nacional, com participação de estudantes.
A estratégia para 2026 prevê consolidação tecnológica da plataforma, padronização de informações e criação de métricas para mensurar impacto econômico nas propriedades participantes. “O objetivo é organizar o turismo rural em escala nacional e dar previsibilidade de receita ao produtor”, afirma.